O patrão do Pingo Doce, Soares de Santos, diz que não sabia da campanha de 1 de Maio de 2012. Nem sequer considero isso relevante, como nem me darei ao trabalho de imaginar o grau de maquiavelismo científico dos inventores da coisa. Estão a tratar dos negócios da empresa, julgam-se indolores e acima das desgraças humanas. A responsabilidade social das empresas devia exigir um respeito escrupuloso pelo primeiro de Maio, parece-me.
A história ensina-nos, e a experiência também, que quando os muros caem, e mesmo nas mais horríveis ditaduras como o nazismo, há milhares de bem intencionados que julgavam estar do lado da razão. A tábua rasa dos valores simbólicos onde se erguem as comunidades e as democracias é, como se tem visto, uma característica forte dos descomplexados competitivos. Nem a actual bancarrota do denominado ocidente os comove. Era bom que não considerassem os nossos avós desprovidos de humanidade por terem "alinhado", em plena Europa, nas inúmeras desgraças que provocaram milhões de mortes e massacres impensáveis.
Em jeito de humor e de teoria da conspiração, podíamos considerar como natural o desconhecimento da cúpula do Pingo Doce. Já não mandam nada e limitam-se a seguir as pisadas do Governo. Não é o Goldman Sachs - hoje um reputado investigador classifica-o como o Império do Mal - que domina as nossas privatizações através do não escrutinado António Borges? Não existiu há pouco um alarido de incompatibilidades, em que o Governo naturalmente capitulou, porque o mesmo senhor passou a fazer parte da empresa que controla o Pingo Doce?
Há todo um conjunto de mal-entendidos e de preconceitos ideológicos que minam este acontecimento. Melhor: que fazem com que estejamos ante "um acontecimento".
ResponderEliminarnão concordo totalmente mas aprecio a lucidez
ResponderEliminarConcordo com este poste. Os ingénuos são os mais perigosos. "«Não tive conhecimento», conta Alexandre Soares dos Santos ao SOL, sobre a promoção de descontos de 50% no Pingo Doce no 1.º de Maio. Das palavras do chairman da Jerónimo Martins percebe-se, assim, que a operação que incendiou a opinião pública e roubou o protagonismo ao Dia do Trabalhador, surpreendeu tudo e todos.
ResponderEliminarPara conseguir este efeito – que excedeu as expectativas do grupo –, a campanha foi planeada em grande secretismo pelo departamento de promoções, que tem um orçamento de três milhões de euros para este tipo de acções. E nem sequer precisou de ser publicitada.
Os gerentes das 369 lojas só foram informados da campanha 15 dias antes e tiveram ordem para não falar nem sequer com os funcionários. Os cerca de 24 mil colaboradores da cadeia só souberam no dia anterior e, segundo soube o SOL, foi-lhes pedido que não fizessem compras no dia da promoção para garantir os stocks de produtos. A empresa também lhes disse que terão a possibilidade de beneficiar do mesmo desconto, entre 7 e 11 de Maio.
Apesar das cautelas, a fúria compradora esvaziou prateleiras – tiveram de ser reabastecidas várias vezes ao longo do dia –, gerou filas de espera de horas e até desacatos. Os stocks vão levar «vários dias a repor para chegar à normalidade», garante ao SOL outra fonte da empresa.
Alexandre Soares dos Santos, pai do administrador-delegado da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, diz que o grupo «não esperava nada disto» e que o que se passou «foi uma loucura!»."
É. Por vezes também penso assim. Impressionou-me o modo como se consegue manipular pessoas e espero, muito sinceramente, que os maus presságios nunca se realizem.
ResponderEliminarAchas que no final do milénio alguém acreditava ser possível a limpeza étnica que se verificou no centro da Europa? Os mentores e os executores eram humanos e por aí fora.
ResponderEliminarIsso. Não esperavam, não sabiam, não planearam. É bom que nos avisemos uns aos outros que quem destrói as democracias são os humanos e por aí fora.
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ResponderEliminarO nosso 1 de Maio da nossa humilhação ...
Concordo com o post. É assim que se começa a espezinhar povos.
ResponderEliminarTambém fiz um cartoon com texto sobre isso, no blog "Alegrias e alergias", que julgo merecer uma espreitadela.
O que mais apreciei no texto acima, foi o lembrar-nos um (talvez nem tão) "pequeno" pormenor: que esta promoção ,que A S dos Santos "desconheceu"(quem acredita, quando parece daqueles empresários que conhece cada alfinete dos seus negócios?), surgiu precisamente pouco tempo depois do ex-goldman-sachs A. Borges entrou para a empresa Pingo Doce!
Acaba por ser mais uma requintada maneira de continuar a dar cabo da economia portuguesa, destruindo ainda mais a liberdade de concorrência.
Ainda veremos o "abençoado" Soares dos Santos a distribuir senhas de racionamento pelos pobres portuueses, tornando-se o PDoce o Celeiro da nação! Diziam loas a Salazar por nos ter livrado da Guerra, agora parece que houve um incensar de A S Santos, com altar no site do Pingo doce e não só, por nos "livrar da fome " e dar algo ao povo!
Foi muito triste e de facto não pressagia nada de bom. Não é só um fais-divers...
Abraço, Paulo!
Algumas evidências e outras tantos factos:
ResponderEliminar1. uma empresa comercial decidiu fazer uma grande campanha promocional com baixa de preços que atingia, em certas condições, 50%;
2. todos os anos, várias vezes, milhares de outras empresas fazem o mesmo, com baixas de preços que atingem valores muito superiores.
3. uma empresa comercial, sem atropelo da lei, decidiu abrir as suas lojas num dia feriado, compensando os seus funcionários pelo facto.
4. Não há feriado (civil ou "religioso") em que todas as empresas e estabelecimentos comerciais fechem;
5. Uma empresa estará a vender os seus produtos com margens de lucro muito elevadas (toda a tarde se deram números: o preço de um rabanete no produtor e na diabólica loja do sr. Soares dos Santos)
6. É possível encontrar milhões de situações em que a diferença de preços entre o produtor e o cosumidor final é muito mais gritante (...e não é preciso ir ao Gambrinus nem aos locais de exploração, perdão, "diversão nocturna")
7. Ainda não foi apresentada qualquer pessoa que tenha sido coagida a fazer triste figura nas tais lojas malditas;
8. Ainda não foi apresentada qualquer pessoa que tenha sido coagida a fazer figura idiota esperando pela abertura das lojas da Apple por ocasião do lançamento das suas geringonças ou do Corte Inglés nas suas famosas sextas-feiras - ainda que o ridículo
sejam superior.
9. Não foi apresentado nenhum caso de pessoa impedida de participar nas liturgias "avantecamaradistas" do 1º de Maio e forçada pelo sr. Soares dos Santos ou seus serviçais a passar 4 horas nas zaragatas inter-prateleiras.
etc.
TALVEZ O DR. TONY BARRETO ENCONTRE UMA RESPOSTA SOCIOLÓGICA PARA ESTE FENÓMENO !
ResponderEliminarÀparte. E alienação?
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Claro que defende no mínimo cadeia para esse tipo...
Humilhação, concordo.
ResponderEliminarAbraço Margarida.
ResponderEliminarMesmo que seja assim tão clean Lúcio, deixa marcas de humilhação como as outras que descreve. Acabei de escrever um post que ficará com um título mais ou menos assim: " da ontogénese da humilhação à filogénese da implosão".
ResponderEliminarA alienação é da condição humana. Aqui é mais humilhação, parece-me Donatien.
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