
Imagem de Chicago, 1 de Maio de 1886.
![]()
"(...)O Homo Sapiens não possui direitos naturais, tal como as aranhas, as hienas e os chimpanzés não têm direitos naturais. Mas não digam nada aos vossos empregados, não vão eles matar-vos durante a noite. Tais medos são justificados. Não existe a mínima hipótese de a gravidade deixar de funcionar amanhã, mesmo que as pessoas deixem de acreditar nela. Uma ordem imaginada, pelo contrário, está sempre em risco de colapso, porque depende de mitos, e os mitos desaparecem quando as pessoas deixam de acreditar neles. Para preservar uma ordem imaginada, são necessários esforços constantes e categóricos. Alguns desses esforços assumem a forma de violência e coerção. Exércitos, forças policiais, tribunais e prisões estão incessantemente a trabalhar para forçarem as pessoas a agirem de acordo com a ordem imaginada.(...)" Yuval N. Harari (2013:137), Homo Sapiens.
Daquilo que intuímos e que a realidade traduz:
Basta estarmos com atenção ao que nos rodeia para certificarmos a institucionalização do laxismo cívico, da pequena corrupção, do deixa-me-estar-sem-fazer-ondas-a-ver-se-me-safo e, como cereja em cima do bolo, na convivência ou condescendência humorada com comprovados caciques e politicamente delinquentes. Confundimos amiúde tolerância com falta de determinação e dever cívico com radicalismo ético. Somos um bocado baralhados.
Depois é só aumentar a escala, desenhar o país e sorrir com o leque de posições através desse caso Pingo Doce em que pobres combateram com pobres, literal, e ainda há pensadores que se refugiam nas filas de trapos ou de gadgets tecnológicos para um safanço sociológico da nação. Somos assim: nas manifestações, nas greves, nas tomadas de posição, na afirmação da cidadania e na veneração à corrupção e aos instintos totalitários. Estamos sempre preparados para apontar o dedo a quem protesta e para duvidar dias-sem-fim dos corruptos encartados que, e normalmente, até são absolvidos pelo voto.
O que é que podia ser ainda pior?
Justiça vulnerável à corrupção
Portugal "chumbou" num estudo sobre combate à corrupção. Há falta de vontade política, excesso de tolerância e incompetência. "Portugal é vulnerável à corrupção" e entre aquilo que a lei determina como formas de a combater e a prática das instituições "há uma enorme disfunção". Motivos? Há vários e nenhum deles abonatório para o país: incompetência, uma cultura cívica demasiado permissiva e, como cereja em cima do bolo, "uma enorme falta de vontade política".(...)"
O patrão do Pingo Doce, Soares de Santos, diz que não sabia da campanha de 1 de Maio de 2012. Nem sequer considero isso relevante, como nem me darei ao trabalho de imaginar o grau de maquiavelismo científico dos inventores da coisa. Estão a tratar dos negócios da empresa, julgam-se indolores e acima das desgraças humanas. A responsabilidade social das empresas devia exigir um respeito escrupuloso pelo primeiro de Maio, parece-me.
A história ensina-nos, e a experiência também, que quando os muros caem, e mesmo nas mais horríveis ditaduras como o nazismo, há milhares de bem intencionados que julgavam estar do lado da razão. A tábua rasa dos valores simbólicos onde se erguem as comunidades e as democracias é, como se tem visto, uma característica forte dos descomplexados competitivos. Nem a actual bancarrota do denominado ocidente os comove. Era bom que não considerassem os nossos avós desprovidos de humanidade por terem "alinhado", em plena Europa, nas inúmeras desgraças que provocaram milhões de mortes e massacres impensáveis.
Em jeito de humor e de teoria da conspiração, podíamos considerar como natural o desconhecimento da cúpula do Pingo Doce. Já não mandam nada e limitam-se a seguir as pisadas do Governo. Não é o Goldman Sachs - hoje um reputado investigador classifica-o como o Império do Mal - que domina as nossas privatizações através do não escrutinado António Borges? Não existiu há pouco um alarido de incompatibilidades, em que o Governo naturalmente capitulou, porque o mesmo senhor passou a fazer parte da empresa que controla o Pingo Doce?
Comemos muito e o exercício físico fica para os supermercados nos fins-de-semana e feriados onde se exibem os fatos de treino mais reluzentes. Pondo o humor de lado, não é o primeiro estudo que chega a este tipo de conclusões. Três em cada quatro crianças portuguesas serão obesas e três em cada quatro no planeta serão subnutridas?
Jovens portugueses com melhor alimentação e menos exercício físico
"Os adolescentes portugueses são os que mais tomam o pequeno-almoço, mais fruta consomem e menos fumam. Os indicadores mostram que praticam pouco exercício físico e apresentam mais excesso de peso, de acordo com um estudo publicado esta quarta-feira.
O estudo internacional da Organização Mundial da Saúde inclui vários indicadores dos jovens adolescentes relativos a lesões, saúde oral, violência, relação com família, bem-estar ou amigos.
A coordenadora do estudo em Portugal, Margarida Gaspar de Matos, disse que "na maior parte dos indicadores de saúde, estamos numa posição média" e que alguns indicadores se destacam pela positiva, outros pela negativa.
Realçados pela questão do pequeno-almoço e do consumo de fruta, os portugueses estão em lugares cimeiros, relativamente aos jovens dos outros países.
Margarida Gaspar de Matos acrescentou que a "prática de atividade física é das mais baixas" e que as raparigas de 15 anos se destacam porque "têm dos piores indicadores de todos os países".
Outra questão que aparece no estudo é o aumento do excesso de peso e Portugal está acima da média, principalmente as meninas mais novas, de 11 anos, que estão em segundo lugar, com 20 %, depois das norte-americanas, com 30%."
Cortesia do Sérgio Moreira.
Recebi o seguinte email do José Luiz Ferreira (o autor enviou-o para provedoria@jeronimo-martins.pt):
Ex.mos Senhores:
A Vossa escolha do dia 1 de Maio - data cujo valor simbólico Vossas Excelências não desconhecem - para a promoção que ontem teve lugar nas vossas lojas só pode ser lida como uma premeditada declaração de guerra ao mundo do trabalho.
Não me compete falar por esse mundo, mas parece-me que ele bem pode ficar grato a Vossas Excelências pela clareza demonstrada. É sempre bom, com efeito, saber quem é e onde está o inimigo.
Sem outro assunto, sou
Sem a menor consideração
José Luiz Ferreira
Não sei o grau de maquiavelismo científico dos inventores do caso Pingo Doce, mas concluo que puseram pobres contra pobres com uma cada vez mais reduzida classe média a teorizar sobre a coisa e a ver se escapa à maldição. Pobres que defendiam o direito ao feriado contra pobres que precisavam dos descontos para se alimentarem melhor. Chegámos, como já escrevi noutro post, a um estado de excepção em que tudo, mas mesmo tudo, pode acontecer e a qualquer momento.
É também uma época de desorientação e propícia a várias intifadas. Tenho o hábito de raciocinar por indução e desta vez não fujo à condição.
O sistema escolar tem sido um bom laboratório para perceber o estado da nossa sociedade. Quando o anterior Governo perpetrou um série de políticas comprovadamente totalitárias, o mainstream e o lumpen aplaudiram. É importante referir que nesse Governo estavam pessoas que vinham directamente dos sindicatos, tanto da CGTP como da UGT. Alguns eram mesmo sindicalistas radicais que se barricavam nos seus momentos coléricos e que se investiram como governantes déspotas. Para além disso, ou talvez por isso, esse Governo e esses sindicatos entenderam-se, em 2008, e acordaram, em 2010, medidas que institucionalizavam o que existia.
Um acentuado descrédito das forças sindicais foi o passo seguinte e só a manifestação de indignados de Março de 2011 originou, por temor do mainstream, a queda desse Governo. O que é que o futuro nos reserva é a incógnita do momento, mas devemos acreditar que cruzar os braços não é a solução. As implosões sociais, em regra, deixam muito poucos a salvo.