Deixem-me sorrir um bocado: não tarda e estamos a implorar o regresso dos professores que fugiram com penalizações e que foram empurrados pelos descomplexados competitivos.
No caso português, nunca devemos esquecer a agenda de descredibilização das escolas públicas e dos seus professores e as "impossibildades" criadas com a gestão escolar e com os agrupamentos de escolas.
Sempre que leio as conclusões do rankings de escolas, como as da primeira página do Expresso, recomendo o seguinte algoritmo:
A escolha da escola, e a natureza desta, parece ser mais um dos algoritmos do momento. O nosso sistema escolar caminha de forma circular e em estado de permanente alteração. Parece contraditório, mas são só parecenças. Há uma década que a voragem se instalou e foi premonitória para o estado de desorientação em que estamos.
A formulação que a seguir volto a apresentar, e que escrevi há uns dois anos, parece-me sempre oportuna.
A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico ou contratual dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.
O expresso regressa com a ideia de que a experiência é sinónimo de qualidade!!! Como se se pudessem fazer generalizações deste género!!!
ResponderEliminarA ideia de que os professores com maior antiguidade "garantem" melhores resultados nos exames dos alunos é, quanto a mim, um verdadeiro disparate.
Continuo a pensar que há uma multiplidade de factores que concorrem para os melhores ou piores resultados dos alunos. E dos vários factores continuo a pensar que o papel desempenhado pelos pais, enquanto principais educadores dos seus filhos, é essencial...
Isto é tão fidedigno quanto o provam os seguintes factos:
ResponderEliminar1 - O total de provas inclui Língua Portuguesa e Matemática, cumulativamente, sem qualquer diferenciação.
2 - Eu levei 90 alunos a exame de 9º ano. Neste ranking, na minha escola, aparecem 144 provas realizadas, correspondentes a 72 alunos. E os outros? Eclipsaram-se?
3 - Na minha escola havia cerca de 140 alunos de 6º ano. Aqui aparecem 102 provas realizadas, correspondentes a 51 alunos. E os outros? Eclipsaram-se?
4 - Este ano tenho as turmas todas de 7º ano da minha escola e todos os alunos são oriundos do nosso 6º ano.
São duas turmas a menos, pois eram seis turmas no 6º ano e são quatro no 7º. Mesmo assim, os alunos que ficaram perfazem quase 100 alunos.
Exceptuando todos os alunos com necessidades educativas especiais e os alunos de Português Língua Não Materna, realizei 91 testes de diagnóstico no 7º ano, de 91 alunos que fizeram estas provas de exame de 6º ano alvo do ranking apresentado. Ora só estes realizaram 182 provas e não 102 provas como vem referenciado pelo Expresso.
Conclusão: isto é uma aldrabice pegada, uma fraude indigna de qualquer crédito, mesmo sem chegar às variáveis que tornam eventuais conclusões totalmente falseadas e esvaziadas de sentido.
Nem as cabeças batem certo, quanto mais tudo o resto!
Esqueci-me de salientar que eu só leciono Português, portanto os números que apresento, com base no meu exemplo pessoal, referem-se apenas a provas de Português.
ResponderEliminarFalta outro tanto para Matemática. E neste ranking parece vir tudo ao molho.
Depois de salvaguardar que isto me irrita profundamente, e de referir que nem me apetece comentar a generalidade dos comentários feitos pelo Expresso, de tão descabidos que são, acrescento apenas que darei credibilidade a um ranking sério, mesmo sem equacionar as imensas variáveis que fazem com que não se possa tirar grande ilações quando se compara o que não é comparável, repito, darei credibilidade a futuros rankings quando todos os alunos das escolas privadas forem realizar as provas a outras escolas, nomeadamente a escolas públicas.
ResponderEliminarTenho miúdos na família que frequentaram dos mais renomados colégios de Lisboa, onde realizaram exames, e bem sei o que contaram do processo que viveram.
Parabéns, Paulo Prudêncio.
ResponderEliminarA sua cidade, das mais feias, sujas e descuidadas que se podem encontrar no litoral, consegue colocar uma escola secundária no 4º lugar (3º, se excluídas as minúsculas) das secundárias. Que concluir? As pessoas (professores, famílias, professores - por esta ou outra ordem) valem por si.
"professores, famílas, alunos" (era assim)
ResponderEliminarEm Caldas da Rainha, e também no distrito de Leiria, a Escola Secundária de Raul Proença foi a mais bem colocada.
ResponderEliminarTodos sabemos que há muito para comentar a propósito dos rankings, argumentos a favor e contra, discussões apaixonadas ou nem por isso...
Deixo aqui uma comparação, para que os colegas possam reflectir.
Tomemos como exemplo o exame da disciplina de Português, do 12.º ano, obrigatório para todos os alunos.
Na Escola Secundária de Raul Proença, funcionaram, no ano lectivo de 2011/2012, 8 turmas e 195 alunos realizaram exame (como internos). Isto dá uma média de mais de 24 alunos por turma.
No Colégio Rainha D. Leonor, funcionaram, no mesmo ano, 4 turmas e 68 alunos realizaram exame (como internos). Aqui, a média de alunos por turma é de 17.
Opinião pessoal: duas coisas podem ter acontecido - ou as turmas no colégio funcionam com um número de alunos abaixo do permitido por lei (e, já agora, 85 000 euros para uma turma de 17 alunos não é obsceno?) ou... os alunos com pior desempenho não realizam o exame como internos, não contando assim para a média dos rankings.
Inclino-me, sei bem porquê, para a segunda hipótese.
Aproveito para deixar uma pergunta. Se as escolas públicas de Caldas da Rainha optassem pelo mesmo "estratagema" (não permitirem que os alunos "mais fracos" fossem a exame como internos), que resultados obteriam no ranking?
Imaginem que a média de alunos por turma a realizarem o exame de Português na Raul Proença fosse aquela mesma de 17... Em vez dos 195, apenas restariam 136 (59 alunos iriam como externos). Qual seria a média alcançada, então, por essa "nata" de 136 alunos? Podemos também fazer o exercício de retirar dos resultados agora conhecidos os piores 59... Aposto que a média dispararia! É que a média obtida pelos 195 já foi excelente!
Pronto, já se percebeu que há por aí batota da grossa, mas batota que pode muito bem ser desmontada e denunciada! "Eles" pensam que as pessoas andam todas a dormir?
Obrigado a todos pelos comentários. Cheguei atrasado :) e vai assim:
ResponderEliminarConcordo Pedro. Claro que a experiência é uma variável importante, mas há outras que influenciam mais a variável dependente.
Importante esse testemunho Ana. Enfim... Farei um post :)
É Lúcio. Custa-me muito ler essa descrição sobre as Caldas da Rainha, mas é verdadeira. Revejo-me no algoritmo do post. As Caldas da Rainha convivem bem com o caciquismo a que corresponde uma mentalidade algo liceal (no pior dos sentidos) que acolhe tanto os "opositores" como os supostos beneficiários do sistema e isso explica alguma coisa. Conheço muito bem a rede escolar e farei um post com os resultados das escolas do concelho.
Obrigado João Pereira. É importante que se saibam essas coisas que nos deviam envergonhar muito como sociedade. É que se os fenómenos existem é porque há quem os concretize.
Isto não merece mais posts, Paulo, sob pena de parecer uma telenovela mexicana.
ResponderEliminarO Paulo Guinote publicou o ranking do Jornal de Notícias, aparentemente mais completo, pois apresenta os dados por cada disciplina de exame.
Aí a minha escola realizou 100 provas a Português e 102 a Matemática, o que totaliza 202 provas e não as 102 que o Expresso avançou.
Mesmo aquém da realidade, não estranho que o número de provas realizadas, divulgado pelo Jornal de Notícias, seja diferente nas duas disciplinas, pois houve alunos que realizaram prova de Português Língua Não Materna e que, pelos vistos, não terão sido contabilizados.
O que estranho é que entre a posição no ranking e as médias obtidas, pelos dados dos dois jornais (mesmo fazendo a média das duas posições que a escola obteve no jornal que apresenta as duas disciplinas), o baile da escola para cima e para baixo seja tão grande!
Quem dá mais, quem dá mais???
Referia-me apenas aos números do 6º ano.
ResponderEliminarConcordo Ana. Vou fazer mais um com os dados do Expresso e sobre o concelho onde resido e ponto final.
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