Temos uma grande dificuldade em pensar e podemos afirmar que se pensa pouco. Foi mais ou menos assim que Manuel Maria Carrilho iniciou a sua conferência no auditório da ES R. B. Pinheiro nas Caldas da Rainha. O filósofo foi apresentado por Rui Grácio, que fez uma breve passagem pela obra "Pensar o Mundo", numa iniciativa do CFAE Centro-Oeste. Pensar o mundo e pensar Portugal implica pensarmos como chegámos aqui e como sairemos, acrescentou.
Manuel Maria Carrilho discursou sobre a crise e também a propósito dos termos que usamos sem a preocupação de definir com rigor o significado. Moderno (perguntou se haverá quem não o queira ser), refundação, crescimento e austeridade foram os mais dissecados.
Foi crítico da globalização, associou-a ao individualismo e considerou que somos mais livres do que nunca na Europa. No entanto, socorreu-se de Kundera e da ideia de que "tenho direito ao que desejo" o que acaba por se traduzir numa impotência do colectivo.
A representação pelos políticos e pelos partidos como representantes do povo e encenadores do futuro está em crise. Disse que a supressão do futuro e dos médio e longo prazos e a absolutização do presente e do curto prazo provocam essa falência, sendo um logro o elogio do voluntarismo.
Classificou como "inconsequente" a acção dos movimentos de cidadãos, defendeu a simbiose governativa das áreas da educação, da ciência e da cultura, que mereceriam um conselho de ministros dedicado, foi crítico da escola com receptora de todas as crises e não vê grande futuro para os políticos que não o façam a partir dessa instituição. O Homem é um mutante antropológico e clicar é saber sem aprender. A escola está desmuniciada para enfrentar este problema que deve ser central para a política.
Para Manuel Maria Carrilho a Europa errou na adesão à ideologia da globalização, vivemos um período de ultraliberalismo (desprezou o neo), de liberalismo sem limites e em que o mercado é total. Há um face a face entre o estado de direito e a selva, entre a política que já foi civilizada e um mundo financeiro que precisa de o ser. Falta saber quem vencerá o duelo.
Ó Paulo, peço muita desculpa, mas considerar o Manuel Maria Carrilho, licenciado em Filosofia, um "filósofo", é quase o mesmo que dizer que um cacto, ou seja, um vegetal com picos, é uma flor, apesar de florir de vez em quando!
ResponderEliminarSe assim não fosse, Manuel Maria Carrilho não se atreveria a dar conferências para debitar uma mão cheia de lugares-comuns, como as que aqui nos transmites, de que saliento a máxima: "Pensar o mundo e pensar Portugal implica pensarmos como chegámos aqui e como sairemos", quando fez parte de vários Governos, desde António Guterres até Sócrates, e que bem contribuíram para transformar o Estado de Direito que já fomos na selva em que agora vivemos.
Ana: a culpa só pode ser minha. Provavelmente, o post, que é um resumo muito breve, não traduz a riqueza da conferência. Não tive muito tempo hoje para o blogue e fiz o post a propósito de umas notas.
ResponderEliminarLeio, ouço, converso, sobre Manuel Maria Carrilho há mais de 20 anos. Não misturo o filósofo com a figura pública. É licenciado em filosofia, o que não é pouco, e doutorado em filosofia contemporânea. É um dos nossos filósofos, filósofo mesmo, mais reconhecido no mundo. Disso não restam dúvidas. Dizem-me isso pessoas que sabem muito mais de filosofia do que eu.
É intelectualmente brilhante e um excelente conferencista. Também consideram que foi um bom ministro da cultura.
Não sei se conheces mesmo a sua obra, mas olha que vale a pena. Por vezes, a mediatização faz com que se catalogue as pessoas de forma muito superficial. Tenho até ideia que é preciso dominar uma série de conceitos que ele utiliza, para se perceber a profundidade do discurso. As categorias que usei no post são as mais imediatas, mas só sobre a morte, a finitude ou a felicidade ficaríamos por aqui horas a conversar. E mesmo a propósito do crescimento, da crise, da política ou da ecologia.
É; a culpa só pode ser minha.
Que saiba, Carrilho fez parte do governo de Guterres (saiu em cisão profunda, a exemplo de Guterres pouco depois) e foi bastante crítico de Sócrates como ainda ontem demonstrou. O post é um resumo muito breve, repito Ana.
ResponderEliminarSim, talvez tenha sido no segundo Governo de Guterres que saiu, e não de Sócrates.
ResponderEliminarTerei de ler alguma coisa dele, de facto.
Já estive para ler DE OLHOS BEM ABERTOS, que saiu para aí há dois anos, mas desisti às primeiras investidas.
Se calhar foi pena Carrilho ter-se metido na Política.
O título escolhido é interessante. Isso não sei, mas houve qualquer coisa estranha no seu processo político.
ResponderEliminarNada de estranho no percurso político de Manuel Maria Carrilho!
ResponderEliminarFoi um grande ministro da cultura.
Muitas das dinâmicas que encetou se foram repercurtindo ao longo do tempo.
Não sei porquê esta hipotética incompatibilidade entre o filósofo, que sem dúvida é, e o percurso político: porque não?
Somos seres humanos: todos nós!
- Isabel X -
ResponderEliminarConcordo Isabel X.
Quando refiro qualquer coisa de estranho estou apenas a pensar na candidatura à câmara de Lisboa. Pareceu-me um processo muito descontrolado.
Ah, sim! A Câmara de Lisboa correu mal porque Manuel Maria Carrilho não possui uma personalidade própria para ir a votos.
ResponderEliminarConcordo que houve aí um evidente erro de casting de que ele acabou por sair mal.
A vida é assim...
Também concordo Paulo.
- Isabel X -