quarta-feira, 26 de junho de 2013

do balanço da greve (2)

 


 


 


 


Os balanços desta histórica jornada dos professores são diversos.


 


É evidente que a devastação a que têm estado sujeitos o sistema escolar e o estatuto profissional dos professores já tem uns anos e ficou intocável (não os vou enumerar pela centésima primeira vez e desculpem-me).


 


Como sempre se disse, o denominador comum entre os professores é forte (se calhar até diminuíram os motivos de desunião e estamos numa fase elevada de coesão) e isso é um importante aviso às navegações do presente e do futuro. Há os que entendem que as greves deviam continuar até se atingir o cume, embora achem que o prolongamento desta semana seja escusado e que apenas serve a estratégia da CGTP na luta contra o Governo e estas políticas. Regista-se a contradição. Na minha opinião, teriam terminado no momento do entendimento para vincar bem a vitória dos professores e a greve geral de 27 é já outro assunto onde milhares de professores não terão sequer serviço distribuído (e que me desculpem os sobrecarregados correctores de exames).


 


Perguntam-me: mas terminar sem as questões fundamentais resolvidas? Tendo em conta as circunstâncias, é mais do que razoável. Bem sei que se eliminou a memória, mas nunca pensei que já nem um mesito ou dois se conseguisse recuar.


 


Senão vejamos: alguém duvida que os professores do quadro teriam uma mobilidade de 200 kms com escolha da escola por parte da administração central? Alguém duvida que a componente lectiva ia ser aumentada em 2 ou 3 horas com a passagem para 40 horas e que existiria uma exclusão lectiva das direcções de turma? Alguém duvida que os professores com mais idade ficariam sem a justa redução da componente lectiva (a legalidade com este Governo já se sabe o que é)? Alguém duvida que as eufemísticas requalificacões se aplicariam já em Setembro como ante-câmara do despedimento de milhares de professores (e de mais fugas para a reforma com brutais penalizações) que se somariam à tragédia de mais uma vaga de desemprego para milhares de professores contratados?


 


O que se conseguiu foi pouco? Se se renovou a esperança de milhares de contratados e se se atenuou a dor de milhares de professores do quadro, não foi pouco não. Sim, é pena como disse Wittgenstein, que a linguagem não transmita literalmente a dor. Às tantas, e como alguém disse, a esmagadora adesão dos professores deveu-se ao facto de ninguém se sentir a salvo. Que seja. É também, e por incrível que pareça, um excelente sinal para o futuro da resistência do grupo profissional a que me orgulho de pertencer (e se pertencesse a outro teria decerto o mesmo sentimento).


 


 

30 comentários:

  1. Obrigada Paulo pela tua lucidez mais uma vez.
    Hoje já li que a Função Publica quer as mesmas regras que foram negociadas com os professores.

    ResponderEliminar
  2. O Paulo fala em vitória dos professores, mas veja que a generalidade dos jornais fala em vitória do MEC. Bastará ler o editorial do Público para perceber isso e, por favor, não me venha dizer que o Público foi parcial no seu editorial.
    Eu só não percebo porque é que o Paulo omite que o que ontem foi conquistado já poderia ter sido obtido logo a 6 de Junho, caso os sindicatos não tivessem tido uma posição de intransigência? Custa assim tanto admitir que as greves poderiam ter sido evitadas com os mesmos ganhos?

    ResponderEliminar

  3. Pedro: na "insustentável leveza do ser" de Milan Kundera há uma passagem muito interessante sobre a impossibilidade do (eterno) retorno. Seria um bocado como um actor que foi o único que faltou aos duros e imensos ensaios e que perante o sucesso da estreia sentencia: não era preciso ensaiar. Se me permite, nessa estreia estava como espectadora quem escreveu, não li nem sei quem foi, a pessoa do tal editorial.

    Não sou de omitir e sabe-se que é assim. Falo de factos, não sou crente e já não vou a tempo.

    Já agora: a peça era sobre a dor, coisa que o espectador tem dificuldade em captar pela linguagem e mesmo pelas encenações.

    ResponderEliminar
  4. Uiuiuiuiui professor Pedro. Brilhante Paulo Prudêncio.

    ResponderEliminar
  5. Subscrevo o balanço que é feito pelo Paulo.
    Acho que foi muito positivo o conseguido, apesar de insuficiente. A firmeza e a convicção de muitos professores deu frutos. Esses frutos têm sementes. Essas sementes poderão germinar e gerar novas conquistas.

    Para os que eternamente acham que de pouco ou nada serviu, cheguem-se à frente e sejam a vanguarda das massas na luta que lhes parecer mais eficaz...

    ResponderEliminar
  6. Rui Rodrigues, Amadora26 de junho de 2013 às 19:08

    Aguarda-se o foguetório do senhor professor comentador Pedro.

    Subscrevo o balanço 1 e 2

    ResponderEliminar
  7. O Pedro leu bem o editorial? Informe-se, leia a História dos sindicatos, equacione se os sindicatos (alguns) permitiram o salvar da face do MEC quicá para ludibriar a Troika e o Gaspar.

    ResponderEliminar
  8. Porque não podia ter sido conseguido a 6 de junho só o Pedro não vê, ou não quer ver.
    Pensará o Pedro que somos todos os 90% de professores parvos ou manipulados pelo PCP.
    O Pdero não fez greve , certo? Então agora não devia usufruir do que foi conseguido, aì é que o Pedro tinha juizinho, e ficava bonito na fotografia.
    Quanto à comunicação social dizem o que querem, na maioria das vezes não percebem nada dos assuntos que tratam, nem se informam o que querem é vender.

    ResponderEliminar
  9. Concordo inteiramente com a análise do Paulo. Como quando lemos um livro e de repente nos alegramos com um pensamento ou uma ideia que nos surpreende por nos parecer tão nossa. Só que (ainda?) não a sabíamos ou, pelo menos, não a sabíamos dizer assim (tão bem).

    Obrigada, Paulo.

    ResponderEliminar
  10. Rebuscada? Somos independentes? Quem manda? A Trioka o Gaspar, o Rosalino mandam mais que o Crato...

    ResponderEliminar
  11. O senhor comentador professor Pedro não é de greves e desta vez quer convencer-nos que foi escusado. Ó homem você existe?

    ResponderEliminar
  12. Obrigado pelos comentários. Concordo com a generalidade dos argumentos.

    ResponderEliminar
  13. Nem me lembrava que o Pedro não fez greve.

    ResponderEliminar
  14. Obrigado Carlos e PF.

    Nem mais Carlos. Subscrevo o teu comentário.

    ResponderEliminar
  15. O que já me diverti com as teses do Sindicalista.

    ResponderEliminar
  16. Paulo,

    Sempre, como sempre, certeiro, assertivo e esclarecido.

    Com menos palavras, mas bem mais brilhantismo, descreves na perfeição o que sinto e já tentei colocar por escrito. Está tudo aí.

    Finalmente, deixa-me sublinhar: é reconfortante sentirmos ainda, e sempre, aquele orgulho em ser professor! Como sabes, comungo dessa sensação e é isso mesmo que me alimenta.

    Abraço e força na luta!

    ResponderEliminar
  17. Concordo com a análise do Paulo e até com a ironia do sindicalista. Já defendi noutro lado que foi bom ceder uma aparência de vitória ao MEC, bem como assinar um "não acordo" potencialmente tão razoável, sem haver acordo. Confuso? Ou inteligente? ;-)
    A ver vamos... O problema vem agora, se nos deixarmos dormir sobre o acordado. Desconfio que metade poderá ficar perdido, algures entre a translation e a misinterpretation.

    ResponderEliminar
  18. Obrigado Ricardo.

    Deixei um link para o teu texto publicado pelo Paulo Guinote. Muito bom mesmo. Retribuo as tuas palavras.

    Aquele abraço também de força aí.

    ResponderEliminar
  19. Obrigado Olim. Também me diverti a desenvolver a tese do Sindicalista.

    Concordo com o "problema que vem a agora". O seu algures é mesmo conhecedor, se me permite.

    ResponderEliminar
  20. Obrigado Susana.

    Levanta várias questões muito pertinentes e que tenho abordado.

    Hoje estou a descansar mesmo e prometo que voltarei ao assunto.

    ResponderEliminar
  21. Houve ganhos, sim, graças à persistência de várias semanas. Várias vezes comentei que gostaria que a nossa luta ficasse como exemplo para outros. E, se o resto da função pública, agora, reclama os mesmos direitos, então é mesmo sinal de que ficámos como exemplo. Mas atenção, eles que se lembrem de que ser professor não é o mesmo que ser funcionário público, a não ser que, daqui para a frente, deixem de ter horário fixo e passem a contar com várias horas de trabalho em casa.

    ResponderEliminar
  22. Há quem ache que é bom pôr grupos profissionais à "estalada". Não contribuo.

    ResponderEliminar