Levará anos a recuperar a relação de confiança entre os professores e um qualquer Governo (onde se inclui a traquitana do MEC). O principal argumento que nos empurrou para esta insuportável desconfiança foi a matriz privatizadora do orçamento da Educação que integrou, no arco da governação, testas de ferro que paulatinamente desbravaram o caminho para o negócio na lógica das piores PPP´s. Nem se trata da privatização da gestão escolar conhecida noutras latitudes que, mesmo sem a caça ao lucro em ambiente corrupto, já provou que aumenta a segregação social e a despesa e não melhora os resultados escolares globais.
Haverá quem defenda de forma generosa a Parque Escolar, o modelo de gestão escolar em curso, os agrupamentos de escolas e os novos contratos de autonomia. Acredito que haverá.
Mas o que está na matriz dessas decisões é reduzir custos e criar escala para privatizar. A Parque Escolar já é uma sociedade anónima e proprietária de dezenas de escolas públicas. O modelo de gestão escolar transporta para dentro das escolas o pior da política partidária local, desaproxima as decisões fundamentais da maioria dos professores e, portanto, desmobiliza-os. Os agrupamentos vão terraplenando a história das escolas e criam escala que compense a guloseima. Os contratos de autonomia passarão, através da relação entre indicadores e massa salarial, o ónus da precarização dos professores (despedimentos e requalificações) para a descrita lógica local. O sistema escolar estará a ficar no ponto, digamos assim.
Isto é muito perigoso. Não direi que os professores devem ter, como nas sociedades mais avançadas, um estatuto semelhante aos magistrados. Quando ouço os defensores da empresarialização da gestão escolar apercebo-me que lidam mal com a liberdade dos professores para ensinar. Não percebem, tal a ânsia com a medição e o controle milimétrico da produção da primeira linha, que esse risco é vital para a democracia e para a igualdade de oportunidades. É difícil, como tentou Hanna Arendt, fazer com que percebam o que está em causa e o que move quem pensa de modo diferente. É natural. A obsessão com o lucro parece irresistível e dá ideia que só pára mesmo depois das catástrofes.
Ora aí está. Bem explicado. Estes estão a fazer o mesmo que o governo de Sócrates com Rodrigues (Alçada foi diferente). Aumentou o financiamento aos privados e deixou as escolas públicas com horários-zero. Quem paga? O Zé povinho quando depois se pedem os resgates. Se é privado não tem que ter financiamento! Isso não é privado é chulado.
ResponderEliminarÉ daqueles textos que nos vai tirando as palavras da cabeça como se o tivéssemos a escrever. Concordo, vou levar. AH, e bem escrito como é habitual. Obrigado.
ResponderEliminarSubscrevo o comentário.
ResponderEliminar"Não direi que os professores devem ter, como nas sociedades mais avançadas, um estatuto semelhante aos magistrados." E por que não? Na Finlândia é assim e em Portugal já foi semelhante até chegar a, como diz, matriz privatizadora. É a bancarrota completa.
ResponderEliminarEm tão poucas linhas, um retrato fidelíssimo da realidade que se impôs em Portugal, que levará décadas a reconstruir... se alguma vez terminar a escalada de destruição em curso.
ResponderEliminarAté nas catástrofes Paulo...
ResponderEliminarUma das caracerísticas da profissão de professor que sempre mais me atraiu, foi a liberdade.
ResponderEliminarSinto-a diminuir ano após ano.
Não sei se dantes me podia considerar um bom professor. Agora, tenho a certeza que começo a ser um pior professor. E não é apenas porque estou a ficar velhote!
Isto, garanto, pode ser mesmo irrevogável...
Gostei muito do post, Paulo.
ResponderEliminarHá dias, em conversa com uma amiga entendida em História da Educação, percebi que o esvaziamento de importância da Escola Pública em favor do ensino privado foi cíclica em Portugal.
O enorme problema é saber se isto que agora se vai passando ainda será reversível. Mas, sendo-o, a Escola Pública demorará décadas a recompor-se...
Obrigado.
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarExacto.
ResponderEliminar:) Carlos.
ResponderEliminarConcordo.
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