quinta-feira, 31 de outubro de 2013

a lição de filosofia de manuel maria carrilho

 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


A lição de Filosofia de Manuel Maria Carrilho






 


Várias gerações, sobretudo depois de o positivismo do séc. XIX se ter afirmado no campo do pensamento, entenderam que a educação, a ciência, a cultura e o conhecimento em geral tornariam as pessoas e as sociedades melhores. A cada conquista educacional, mais uma luz brilharia sobre as trevas. O mal não era algo em si mesmo, como de certa forma defendera Santo Agostinho, mas a consequência da rarefação do bem.


Mais tarde, sobretudo com a II Guerra Mundial, os trabalhos de Hannah Arendt e romances como o de Primo Levi ('Se Isto é um homem') colocaram o mal noutro domínio. Haveria nele uma banalidade, uma possibilidade aberta a qualquer homem. Recentemente, as teorias sobre a convicção, em que trabalhou afincadamente talvez o melhor filósofo português dos últimos 50 anos e precocemente falecido Fernando Gil (irmão do também filósofo José Gil), voltaram a recentrar a questão: por que motivo duas pessoas com a mesma formação e a mesma vivência geram convicções e comportamentos diferentes? Fernando Gil, com quem tive o privilégio de privar, por via do também já falecido comum amigo José Gabriel Viegas (que foi crítico literário no Expresso), fazia-nos e fazia-se várias vezes esta pergunta. O seu livro a 'A Convicção' (de 2000, infelizmente mais conhecido em França) ensaia também respostas a esta pergunta.


Ora Manuel Maria Carrilho é filósofo, tendo sido aliás colega de Fernando Gil como professor na Universidade Nova e ultimamente adversários no campo das ideias. Carrilho também é doutorado em Filosofia, e como Gil também está traduzido em francês. Vem de famílias com conhecimentos e rendimentos elevados (o seu pai foi Governador Civil de Viseu e Presidente da Câmara da cidade). É um favorecido. Conhece o bem e o mal, há muito que deveria estar num estado civilizacional avançado. E, no entanto, as coisas que vai dizendo da sua ex-mulher Bárbara Guimarães (independentemente das razões que possam assistir a qualquer dos lados) são próprias de um primitivo ignaro. São lamentáveis.


Qualquer casal desavindo tem os seus exageros, mas ninguém tem o direito de arrastar publicamente o nome do outro (dos pais do outro - avós de seus próprios filhos) pela lama. Ninguém tem o direito de dizer o que ele disse sobre a vida íntima da ex-mulher. E ele, filósofo, ex-deputado, ex-ministro da Cultura, ex-embaixador, sabe bem a distinção entre o bem e o mal. Opta pelo mal, provando que este também é banal, demonstrando que existe a possibilidade de ele se inscrever em pessoas por mais demãos de camadas de verniz tenham em cima. A lição de Filosofia de Carrilho é que os nossos antepassados podem estar errados. Podem não bastar a civilização e o conhecimento para um homem (ou uma sociedade) praticar o bem.


Cada ser tem as suas possibilidades abertas e o livre arbítrio de escolher um caminho. O caminho de Carrilho, mais do que condenável é lastimoso. Apenas merece aquela compaixão devida aos que já estão condenados por crimes graves.







10 comentários:

  1. O iluminismo, ainda que muito sedutor para os livres-pensadores (não confundir com pensadores livres), nunca foi uma filosofia bem justificada pela História (por ex, as maiores barbaridades do séc. XX terão sido cometidas no mais ilustrado e melhor espaço civilizacional da Europa). E se esta constatação não pode ser uma legitimação póstuma de algum anti-iluminismo do Estado Novo, pode ser um alerta para quem faz da educação (formal) condição suficiente do progresso (ético e político).

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  2. Talvez por isso insistamos tanto na ideia de sociedade presente na educação. Enfim.

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  3. Sinceramente, não percebo a necessidade do arrazoado dos dois primeiros parágrafos sobre a natureza do mal (onde são expendidas umas tintas filosóficas, certeiras mas de pacotilha), para se entrar na denúncia do crime de Carrilho andar a lançar lama na praça pública sobre a mulher. Cheira-me a moralismo inconsequente, desnecessário para ser exibido publicamente, embora cada um possa fazer o juízo que bem entender sobre o caso e discuti-lo com os amigos, isso sim. A conclusão do artigo é deplorável e temerária: condena, sem apelo nem agravo aquela conduta e pronto, mas ainda assim com um assomo de "compaixão. Seria melhor que deixasse o julgamento da conduta de Carrilho à competência pública de quem a tem: o tribunal. E já assim, senhor jornalista, a crença do valor da educação como antídoto contra a moralidade já é muito mais velha do que afirma, baste que pensemos no caso de Rousseau séc.XVIII ), que já sabia que a moralidade não é uma consequência necessária da educação. Esta pode prevenir, mas não impede que o mal moral possa, em dadas situações emergir. O nazismo, gente culta, é o mais emblemático exemplo histórico disso mesmo.

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  4. (Por ter feito um erro no comentário anterior, venho retificá-lo)
    Sinceramente, não percebo a necessidade do arrazoado dos dois primeiros parágrafos sobre a natureza do mal (onde são expendidas umas tintas filosóficas, certeiras mas de pacotilha), para se entrar na denúncia do crime de Carrilho andar a lançar lama na praça pública sobre a mulher. Cheira-me a moralismo inconsequente, desnecessário para ser exibido publicamente, embora cada um possa fazer o juízo que bem entender sobre o caso e discuti-lo com os amigos, isso sim. A conclusão do artigo é deplorável e temerária: condena, sem apelo nem agravo aquela conduta e pronto, mas ainda assim com um assomo de "compaixão. Seria melhor que deixasse o julgamento da conduta de Carrilho à competência pública de quem a tem: o tribunal. E já assim, senhor jornalista, a crença no valor da educação como antídoto contra o mal moral já é muito mais velha do que afirma, baste que pensemos no caso de Rousseau séc.XVIII ), que já sabia que a moralidade não é uma consequência necessária da educação. Esta pode prevenir, mas não impede que o mal moral possa, em dadas situações emergir. O nazismo, onde a clique era gente com alguma cultura e gosto musical, é o mais emblemático exemplo histórico disso mesmo.

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  5. Imagino que já se escreveu bastante sobre este assunto, talvez mais no âmbito das notícias e das entrevistas, e li coisas deploráveis. Li posts no Facebook de arrepiar. No entanto, não li os pormenores. Percebi que Carrilho deu entrevistas a revelar aspectos da sua vida pessoal que me deixaram perplexo. Já me tinha surpreendido quando vendeu as imagens das suas festividades familiares.

    Não fiz qualquer post sobre o assunto, mas confesso a minha perplexidade com o que ia lendo sobre Manuel M. Carrilho. Como sabes Vasco, e sei que partilhas da mesma opinião, MMCarrilho é um pensador que nos habituámos a respeitar. Devo confessar que discordo quase sempre de Henrique Monteiro e só escrevi sobre uma ou outra coisa muito desconhecedora que escreveu sobre Educação. Desconhecedora e tendenciosa.

    Hoje chegou-me este texto via email. Li-o e publiquei porque me pareceu que colocou a discussão noutro nível: mais de interesse público, digamos assim. Considera Carrilho um filósofo, mas deve respeitar o que escreves " Seria melhor que deixasse o julgamento da conduta de Carrilho à competência pública de quem a tem: o tribunal." É evidente que casos destes não são únicos e lá se vão repetindo.

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  6. Não reparei no tal erro, mas voltei a ler o teu certeiro comentário, Vasco, e nem tinha reparado em "O nazismo, onde a clique era gente com alguma cultura e gosto musical, é o mais emblemático exemplo histórico disso mesmo." Exactamente, se me permites. Foi mesmo disso que me lembrei quando decidi publicar este texto.

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  7. Tinha um professor que dizia, volta e meia, isto: "se o disparate pagasse imposto, quando alguém fosse falar pensava sempre duas vezes". Isto a propósito do artigo do jornalista, dos putativos despautérios do Carrilho, e de mais algumas coisitas que andam por aí. Acho que a tudo isso, mais do que calar e passar ao lado, há que lutar, correr o risco de errar, mas não dar paz aos tigres, que são, como dizia o Mao, de papel. Cito o Mao só porque a expressão me apareceu, ressuscitou do antigamente, e tem alguma graça, acho eu cá com os meus botões.

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  8. Não faço a menor ideia sobre se Carrilho se comportou be m ou mal, porquanto nunca dormi debaixo da sua cama, o que me parece ter sido o caso dos que o condenam antecipadamente e, se tal lhes fosse permitido, assumiriam, eles também, o papel de carrasco! Carrilho tem contra ele o que de pior existe na sociedade portuguesa, aquilo que foi uma criação salazarenta: o corporativismo. Bárbara Guimarães é do meio, da Sic e do Expresso, mais as revistas cor de rosa cá da aldeia. Carrilho tem contra ele toda essa fauna que todos os dias nos enjoa, e já está condenado desde há muito. Haja paciência.

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