"A máquina dos exames está ponta", sentenciou Nuno Crato na abertura de um telejornal que antecedeu a célebre greve ao exame do 12º ano de 17 de Junho de 2013 e depois de uma inenarrável trapalhada com o ministro aos papéis nas negociações com os sindicatos de professores. Terminou a sua declaração daquele modo e não me surpreendeu. Aquilo a que Nuno Crato chama máquina é um monumental edifício burocrático que engole o esforço de milhares de professores, dos secretariados de exames aos correctores e vigilantes, comandados por uma estrutura central sediada no MEC e que é o exemplo mais acabado dos procedimentos que devem ser implodidos e que está o mais distanciada possível das salas de aula.
Abrir telejornais com resultados de exames é próprio de sociedades ausentes e imaturas, onde esse basal exercício docimológico, testar aprendizagens, adquire estatuto de arremesso político.
Como o Paulo Guinote descreveu aqui, a máquina dos exames avolumou-se com Nuno Crato e soma requintes como os descritos no parágrafo que se segue:
"(...)Basta um aluno requerer a realização de provas de equivalência à frequência por ter faltado quase todo o 6º ano e ter anulado a matrícula e é colocada em movimento uma máquina trituradora de tempo e recursos: pelo menos 2 professores por disciplina para produzir cada prova a nível de escola e, no dia da realização, 3 a 5 pessoas do secretariado, 2 vigilantes e 1 coadjuvante, mais uma dose industrial de registos a assinar para comprovar que todos estiveram lá à entrada e à saída, não esquecendo ainda 1 ou 2 professores para a classificação da prova escrita e parafernália equivalente se existir prova oral.(...)"
Alunos e professores olham incrédulos para a tragédia que se anuncia com os piores resultados de sempre nos exames deste ano como se anuncia aqui ou aqui, Não compreendem tanta surpresa.
Não vou cair na facilidade de agarrar nesses resultados para traçar o plano inclinado que vive o sistema escolar. A uma sociedade já ausente acrescentou-se um terrível empobrecimento e a isso somou-se o aumento do número de alunos por turma, o afunilamento curricular para privilegiar o atávico mais do mesmo, o desespero profissional de todos os professores e o modelo de gestão escolar mais desaconselhado do mundo conhecido.
É evidente que tudo isso empobrece com melhores ou piores resultados num ou noutro exame. E só se faz disto notícia e argumento político porque os ministros da Educação habituaram-se a fazer o exercício contrário quando lhes deu jeito e Nuno Crato não foge a esse facilitismo. Ou seja: Nuno Crato é vítima das suas próprias epifanias, como se previa com facilidade e desgraçadamente para o sistema escolar. E o que mais custa é ouvir o mainstream a esquecer-se de tudo o que foi dito para apontar o dedo aos do costume.
1ª edição em 16 de Julho de 2013.
Era bom começar por...reduzir o número de alunos por turma, parar com as constantes alterações aos programas, metas...proporcionar horários adequados. São apenas algumas sugestões para aqueles que pensam...pensam e pensam (muito mal) sobre a educação. Se os grandes teóricos da educação não adquiriram competências para pensar e decidir bem, como poderão os alunos obter bons resultados nos exames?
ResponderEliminarA. Alves.
A culpa dos maus resultados não é das greves, mas sim dos programas das disciplinas, da carga horária. Ai há maus resultados? Então toca de aumentar a carga horária de disciplina X ou Y, eliminar disciplina K. Depois é dado tudo a eito porque a matéria a ser lecionada é muita e com isso os cachopos ou percebem à primeira ou pagam a explicadores. O ensino é um pouco como a nossa economia, o método de resolução de problemas é igual.
ResponderEliminarMuito bem, se me permites Paulo Prudêncio.
ResponderEliminarEntretanto as mediocridades vão devorando tudo o que de bom ainda vai mexendo...
Enfim.
ResponderEliminarObrigado Carlos.
ResponderEliminarExacto, se me permites.
Se bem me lembro foi, exactamente, este ministro que disse: " ...vamos fazer mais com menos..." .
ResponderEliminarNão nos surpreendem os resultados catastróficos. Enfim
Um abraço.
Caro Paulo
ResponderEliminarConcordando com quase todos os teus posts, não quero deixar de expressar a minha discordância com o que dizes relativamente às questões de logística para os exames, tratadas pelos organismos centrais e regionais do ministério. Como achas que as coisas se processariam sem estes serviços?
Posso garantir-te que haveria muitos alunos que ficariam sem fazer exame.
E é sinal que tens boa memória Isabel :) Abraço também.
ResponderEliminarViva.
ResponderEliminarNão me expliquei bem ou não estou a perceber a discordância. O post é sobre a desconfiança nos professores que exige detalhes burocráticos quase insanos e por isso usei aquele exemplo do Guinote.
Nos países em que se confia nos professores há menos exames; muito menos. Mas há exames nacionais, decerto. Só que com muito menos burocracia e com muito menos pessoas envolvidas.
É evidente que exames nacionais exigem uma logística que decorre com o profissionalismo de muitos mas com um longo caminho ainda a percorrer na construção de um sistema de informação que sirva o quotidiano das escolas, do MEC e dos exames ou de outra qualquer actividade nacional, regional ou local.
Espero ter respondido à questão.
Caro Paulo
ResponderEliminarPosso garantir-te que muitas escolas se esquecem de indicar o número de alunos que têm para exame, a localização da própria escola, as escolas do agrupamento onde vão ser realizados exames... ao nível de estabelecimentos privados, muitas só se lembram que têm alunos para exame nas vésperas... outras não sabiam que era necessário indicar os alunos que têm para exame...
Quem resolveria estes problemas se não existissem os organismos centrais e regionais?
Sem dúvida que nada substitui o trabalho das escolas. Mas se fosse cada escola a tratar os assuntos... com quem o faria? Com a imprensa do ministério? Com a polícia? E estas teriam capacidade para tratar diretamente com milhares de escolas?
Caro Paulo.
ResponderEliminarEm governo cabe tudo. Serviços centrais, regionais e locais. Eu acho que a rede escolar, por exemplo, deve ser tratada a nível local e regional.
Acho que tal como toda a gente tem a mania que é especialista em educação, também há muita gente na educação que, desconhecendo o que é feito nos organismos centrais e regionais, tem a mania de dizer que são desnecessários. Ao fim e ao cabo, partilham da ideia de Nuno Crato, que resolveu implodir o ministério e com isso está a destruir todo o sistema educativo.
Sim, concordo.
ResponderEliminarA rede escolar, como qualquer rede da administração pública, deve ter esses patamares de planeamento; concordo também.
Sim, sei disso. Não sei se quem me escreve exerce funções por aí, mas estive alguns anos na gestão ao nível de CAE com competêcias na organização de actividades aos nível regional e central e percebo o que escreve. Mas há um centralismo no estado que é nefasto e isso dava para um conversa longa. Tenho muitos posts sobre o assunto e podem ser consultados a partir das etiquetas na coluna esquerda do blogue.
Mais um detalhe que pode ajudar.
ResponderEliminarSe me permite, as reformas nas organizações devem obedecer ao equilíbrio e com respeito pela história e pelo que existe. É possível fazer mudanças profundas com sensatez. É preciso definir bem onde se quer chegar e depois percorrer o caminho com determinação e de forma sistemática, com alterações mais ou menos inovadoras e sempre com o cuidado de ouvir, explicar e mobilizar. Deve eliminar-se, aí sem tibiezas, as inutilidades onde se incluem as informações que não são fornecidas em tempo real ou que não produzem conhecimento que suporte a tomada de decisões.