Já tropeçamos com o uso inchado da designação Top Performers (melhores desempenhos) e o futuro da classificação parece arrebatador como selo de qualidade infinita. Ainda há meses, e a propósito da subida de Portugal no PISA, um dos SE do MEC referia a obra dos nossos Top Performers que nos colocava algures no anelar Saturno.
Os Top Perfomers com significado no mercado total (TPSMT) fazem constar que dedicam horas e exclusividade ao treino intensivíssimo de operações lógicas: chegar vertiginosamente ao resultado é o desafio da vida. Há já quem associe o brutal preço da desigualdade ao desempenho insensível e de casino a um género de TPSMT como produto do mercado e da meritocracia (e, obviamente, também da falsificação), outrora os supra dos TPSMT; e não há na crítica qualquer menosprezo pelo esforço e pelo estudo livre e empenhado, apenas se olha para o estado do mundo e para a importância da insubstituível dimensão plural da humanidade.
O fim-de-semana encheu as primeiras páginas dos jornais com a batota dos privados nas notas de acesso ao ensino superior. Há quem advogue a escolha dos alunos pelas escolas do ensino superior (talvez agora, e com a ubiquidade da crise, os superiores se dêem ao trabalho) e se atenue a prevalência do mercado neste domínio tão determinante para as desigualdades.
Quem anda no terreno não se surpreendeu com as conclusões do estudo. São conhecidas e inúmeras as ficções. É conhecida a história do jovem que não aguentou e desabafou junto da antiga professora da escola pública: "O meu 20 a matemática no exame do 12º ano feito no colégio estava todo no quadro. Por favor, nunca diga que fui eu quem contou". É uma história arrepiante, relativamente recente e que compromete uma série de actores; o peso na consciência do infractor deixa marcas. Ficção ou não, este género de narrativa é vulgar. É todo um estado a que chegámos, que não pode ser ignorado e que exige medidas.
Estamos cansados de ouvir que "dos fracos não reza a história" como caminho para a meritocracia aplicada aos filhos dos outros. Este anuncio do fim da história é pouco rigoroso. Até na selva, e mesmo considerando as necessidades da cadeia alimentar, a cooperação é um valor precioso para a sobrevivência, para a superação do mal e para a felicidade da espécie.
Primeira página do Expresso.
Primeira página do Público.
Os colégios sempre inflacionaram as notas, é a sua imagem de marca para atrair clientes, Se os professores não alinharem vão para o olho da rua. Por isso é que eles têm muita clientela e ainda vamos ver os filhos da gente do poder com cheque-ensino.
ResponderEliminarToda a gente sabe disto há muitos anos! Estes investigadores descobriram a "pólvora seca". Há outra forma de acabar com estas injustiças. Haja coragem. É só contar com as notas dos exames nacionais para o ingresso à faculdade. O problema é que os filhos e netos dos ministros, presidente da república, secretários de estado e afins andam todos em escolas privadas. Por isso, levam todos 20 e depois chegam aos exames e se tirarem uns 12 ou 13 é uma sorte! E é assim! Este mundo é dos espertos e, já agora, dos ricos! Será que ainda não perceberam?
ResponderEliminarEnfim.
ResponderEliminarEnfim.
ResponderEliminarPode dar-se o caso, também, de as escolas públicas (algumas, pelo menos, e não necessariamente as piores) serem míseras nas atribuição de classificações internas, prejudicando assim, objectivamente, os seus próprios alunos na candidatura aos cursos superiores mais exigentes (ainda que com melhor preparação - mas de que vale esta se se fica de fora?).
ResponderEliminarUm critério "justo" será uma utopia; mas a actual seriação dos candidatos é uma batata.
Esse critério resolveria o problema que o estudo levanta (...e que já toda a gente conhecia), mas poderia colocar outro: um excelente e meritório aluno pode "ser infeliz" durante duas horas (nem todos os dias da nossa vida são por nós controláveis; acontece, por exemplo, estarmos com dor de dentes). Por outro lado, pode potenciar o "relaxe" na prestação anual (ou plurianual) com efeitos perversos para o próprio ensino e para o trabalho dos professores - "Para quê estudar e trabalhar durante 10 meses se posso resolver (... ou perder) tudo em duas horas?".
ResponderEliminarEm todo o caso, as universidades deveriam introduzir um elemento de ponderação que elas próprias controlassem. Prova interna de acesso? Talvez, ainda que logisticamente muito complicado. Também as fiz; eram três - mas numa década em que os candidatos eram bem menos que agora, reconheço.
Concordo. Contar apenas a nota do exame é ainda mais injusto. Há imensos países onde são as universidades que escolhem os alunos.
ResponderEliminarExacto Lúcio "Um critério "justo" será uma utopia; mas a actual seriação dos candidatos é uma batata."
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