Os excessos de normalização no ensino que se traduzem nas metas curriculares levadas ao cume, na estandardização dos diversos procedimentos didácticos, na uniformização das provas de avaliação e na sua calendarização comum voltam, naturalmente, a aproximar-se de um fim de ciclo.
É evidente que a história da docimologia já assistiu a momentos parecidos, mas o capitalismo selvagem como fim da história levou os excessos ao domínio do inumano.
Há escolas, quiçá imbuídas de uma qualquer metrologia impensada tão do agrado do senso comum, que aplicaram alguns princípios: data, hora e prova comuns para todos os testes de todas disciplinas. A importância dos ritmos individualizados e da condução de pequenos ou grandes grupos, que é o lado mais misterioso da aprendizagem (António Damásio, ainda há dias, reafirmou o óbvio: "o que sabemos sobre como cada um aprende continua muito mais perto da ignorância do que do conhecimento"), é obliterado para dar lugar às teses Hanushekianas, tão do agrado de Nuno Crato, que também predizem 30 a 50 alunos por turma e, a prazo, o regresso paulatino a uma espécie de telescola em que os precarizados professores terão um papel de vigilante-tira-dúvidas. Sejamos objectivos: a desautorização do professor esteve na base da engenharia social e financeira que os ultraliberais desenharam e que sociais-democratas e socialistas da terceira via aplicaram.
É o modelo que parecem reconhecer em democracias musculadas lá para as latitudes asiáticas e é também evidente que as escolas dos filhos dos ricos ficaram a salvo dos impetuosos ventos pós-modernos.
Se considerarmos a lógica de mercado total em que vivemos, é óbvio que há neste assunto um efeito offshore. Ou seja, não basta que uma escola faça diferente é necessário que um sistema escolar se desamarre das correntes ultraliberais que o desumanizam e que elevam o preço da desigualdade a um patamar de todo imprevisto.
Caro Paulo,
ResponderEliminar"data, hora e prova comuns para todas disciplinas" como medida isolada pouco ou nada adianta, será certo! Agora se a considerarmos, a partir de um determinado ano de escolaridade, num contexto associado a outras medidas no sentido de familiarizar os alunos com o momento e o modo como serão avaliados em exame é uma medida positiva que não se deve confundir com o ser a favor ou contra exames, pois isso é outro assunto. E ainda acrescento que se as provas fossem corrigidas por outro professor que não o da turma não me chocava nada, desde que este tivesse acesso à grelha com a cotação atribuída pergunta a pergunta e aluno a aluno para que pudesse servir-se dela para trabalhar. Claro está que defender a implementação de uma medida destas na generalidade das escolas seria como plantar milho no deserto!
Um abraço.
Viva Caro Nuno.
ResponderEliminarClaro. Provas globais sempre existiram e sempre existirão. A esta ou aquele disciplina e neste ou naquele momento. É como os exames e os estudos comparados. Não é o instrumento científico que está em causa mas as cabeças que o utilizam. Estou a referir-me aos exageros normativos que levaram a "(...)Esta negação dos ritmos individualizados e da condução de pequenos ou grandes grupos, que é o lado mais misterioso da aprendizagem (António Damásio, ainda há dias, reafirmou o óbvio: o que sabemos sobre como cada um aprende continua muito mais perto da ignorância do que do conhecimento), é obliterado para dar lugar às teses Hanushekianas, tão do agrado de Nuno Crato, que também predizem 30 a 50 alunos por turma e, a prazo, o regresso paulatino a uma espécie de telescola em que os precarizados professores teriam um papel de vigilante-tira-dúvidas. Sejamos objectivos: a desautorização do professor esteve na base da engenharia social e financeira que os ultraliberais desenharam e que sociais-democratas e socialista da terceira via aplicaram.(...)" e por aí fora.
Isso vai mesmo?
Um abraço também.
Relativamente ao que citaste: nada contra! Quanto aos testes comuns em cada escola por disciplina com a mesma data e hora até podemos considerar que tal prática tiraria protagonismo aos testes intermédios, esses sim uma verdadeira negação de ritmos individualizados e que têm por base um princípio que nada tem a ver com o seu fim, assim a modos que uma "euroPACC".
ResponderEliminarIrá, assim espero...
Aquele abraço.
Aquele abraço Nuno.
ResponderEliminarCaro Nuno
ResponderEliminarE "testes comuns em cada escola por disciplina com a mesma data e hora" não serão também "uma verdadeira negação de ritmos individualizados"? Ou o ser humano anda todo a toque de caixa? Somos tod@s iguais, chapa 25? O que entende por ritmoS de aprendizagem? Se só existisse um, não seria necessário o plural, certo?
Conhece aquela história dos diferentes animais da floresta que tinham de fazer a mesma atividade partindo de habilidades e estrutura física diferentes?
Faz-me lembrar a anedota que termina com os animais de boca grande (hipopótamos, p. ex.) a dizer, com a boca muito fechadinha "Ai, coitadinho do crocodilo!"
Fique bem e, embora não o conheça, espero que não tenha de andar a toque de caixa, mas ao seu ritmo!
AC, concordaria consigo se não existisse a tal floresta que usa como figura, mas como essa floresta de exames existe, não considero que seja andar a toque de caixa realizar testes comuns com os meus pares e aplicá-los aos meus alunos, tirando partido de poder aproximar mais os alunos da realidade com que se deparam no final do ano com exames cada vez em maior número e dos quais muito fazem depender o futuro de muitos alunos. Claro que, como já disse antes, esta preocupação avulsa com os exames de nada vale se não estiver enquadrada com outras medidas pedagógicas. Um abraço.
ResponderEliminarHello! Eartth!
ResponderEliminarO Nuno existe ou é um avatar?
Hugs
Enfim! Quantos exemplos quer? É por causa destas e de outras...
ResponderEliminarViva aos dois.
ResponderEliminarÉ interessante a vossa discussão, mas recordo o post e a questão que coloquei que vai muito para além de provas globais aqui ou ali ou exames a esta ou aquela disciplina:
Repito :) "(...)Há escolas, quiçá imbuídas de uma qualquer metrologia impensada tão do agrado do senso comum, que aplicaram alguns princípios: data, hora e prova comuns para todos os testes de todas disciplinas. A importância dos ritmos individualizados e da condução de pequenos ou grandes grupos, que é o lado mais misterioso da aprendizagem (António Damásio, ainda há dias, reafirmou o óbvio: "o que sabemos sobre como cada um aprende continua muito mais perto da ignorância do que do conhecimento"), é obliterado para dar lugar às teses Hanushekianas, tão do agrado de Nuno Crato, que também predizem 30 a 50 alunos por turma e, a prazo, o regresso paulatino a uma espécie de telescola em que os precarizados professores terão um papel de vigilante-tira-dúvidas. Sejamos objectivos: a desautorização do professor esteve na base da engenharia social e financeira que os ultraliberais desenharam e que sociais-democratas e socialistas da terceira via aplicaram.(...)"
E o resto do post :)
Abraço aos dois.
Viva.
ResponderEliminarTem sido assim, realmente. Por acaso, já tinha lido.
Obrigado.