terça-feira, 27 de janeiro de 2015

dívida, alemães e holocausto

 


 


 


 


Texto de Pedro Bidarra.


 


 


 



Holocausto, dívida e alemães



 



"Quis o destino que eu lesse, na semana passada, dois textos sobre o mesmo assunto. Textos que junto aqui porque foram feitos um para o outro. Se acharem demagogia ou mau gosto juntar holocausto e economia, culpem o destino que os emparelhou no meu stream noticioso.



 



Um li no Público, “Milagre económico alemão teve ajuda de perdão de dívida”, o outro no New York Times, “The Holocaust just got more shocking”. O Público relembra-nos que, em 1953, setenta países perdoaram a dívida alemã acumulada antes e depois da guerra – e que ajudou a financiar. O montante do perdão equivaleu a 62,6% da dívida, tendo sido também acordados valores de juro abaixo do mercado e uma amortização, da dívida e do juro, limitada a 5% do valor das exportações.


(Espero que estes valores, que li no Público, estejam certos que eu é mais Ciências Sociais e História).


Para conseguir este perdão, continua o artigo, foi decisiva a pressão dos EUA e o assentimento dos outros dois membros da troika da altura: França e Inglaterra.


Já o New York Times dá conta de outros números e de uma contabilidade mais negra. Os números são apresentados pelos investigadores e historiadores do Holocaust Memorial Museum. Segundo eles, durante o reino de terror nazi, de 1933 a 1945, os alemães implementaram, da França à Rússia, uma rede de 42.500 campos de terror. Quando esta investigação começou, no ano 2000, estimava-se que o número andasse pelos 7 mil, mas a História veio a revelar-se seis vezes mais negra. A contabilidade é esta: 30 mil campos de trabalho escravo, 1150 guetos judaicos, 1000 campos de prisioneiros de guerra, 980 campos de concentração, 500 bordéis de escravatura sexual e mais uns milhares de sítios dedicados à eutanásia de velhos e doentes e à prática de abortos forçados.


O curioso é que, apenas oito anos depois de toda esta germânica atrocidade, setenta países, encabeçados por uma troika deles, resolveram perdoar 62,6% dívida alemã, reconhecendo que, se assim não fosse, Berlim nunca recuperaria e todos tinham a perder ainda mais.


Talvez a explicação esteja no ensaio “Morale and National Character”, escrito pelo antropólogo G. Bateson em 1942, sobre americanos, ingleses e alemães. Diz ele que americanos e ingleses, mais dados a padrões de relacionamento simétricos – um cresce quando o outro cresce e um relaxa quando o outro relaxa – não têm normalmente estômago para “bater em quem já está no chão”; ao contrário dos alemães, mais dados a relacionamentos complementares, do tipo dominação/submissão – quando mais fraco te sentes mais forte me sinto. Segundo escreveu, impor punições à Alemanha implicaria uma dominação constante dos vencedores o que, a médio prazo, resultaria num abrandamento e numa nova escalada alemã.


Em 1953, por muitas razões, fez-se o que estava certo. Perdoou-se. Perdoou-se, ao povo que implementou 42.500 campos de terror, o dinheiro que deviam e que tinha sido usado (também) para os financiar.


O perdão é a dívida da Alemanha. É bom lembrar e, já agora, cobrar."



 


 


Publicitário, psicossociólogo e autor
Escreve à sexta-feira
Escreve de acordo com a antiga ortografia


 


 


 


 

14 comentários:

  1. Que salada mais bizarra! "Culpa" e economia não têm de combinar ou descombinar - nem para num publicitário "mais Ciências Sociais e História".
    Fazer os actuais alemães perenes reféns morais de atrocidades cometidas (ou impostas) por meia dúzia de atrasados mentais (ainda que seus pais ou avós), um deles, o principal, austríaco, é injusto e mesquinho.

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  2. Recebi o link para divulgação. O link não está activo e encontrei o texto aqui no correntes com data de Março de 2013. O motivo é a libertação de Auschwitz. Vpu meter um vídeo.

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  3. Falar do regime nazi como um “pequeno grupo” não representativo que obrigou os alemães a agir de determinada forma é querer tapar o sol com a peneira.

    Eram de facto representativos. Ganharam eleições. Os seus preconceitos genocidas eram de facto partilhados. O silêncio imperou porque havia uma larga base de acordo social… Mantiveram-se no poder mesmo quando era claro que o apocalipse ia descender sobre a Alemanha. O “austríaco” teve que estar morto e o seu corpo carbonizado para aceitarem uma rendição.

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  4. Como para a generalidade dos seres humanos também para as nações a gratidão é algo passageiro.

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  5. Sim, ao contrário do ressentimento (para não dizer inveja) ante o mérito.

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  6. Em relações internacionais o “mérito” tem um nome: “realpolitik” (curiosamente o termo é de origem alemã …) que visa dar algum verniz intelectual uma ideia muito simples e brutal, os fortes reinam e os fracos perecem. O que me venderam, e continuam a vender, a mim como eleitor português era que a União Europeia não seria isso.

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  7. Exacto. Estou desde ontem meio KO com uma gripe, mas concordo com a ideia que nos venderam uma Europa inclusiva. A inveja existe e, nalguns casos, tem uma qualquer relação com o mérito. É precipitado transportar o que acabei de escrever para a diplomacia internacional ( realpolitik ): aí existem as variáveis da lei da força e da capacidade negocial e os tais factores da oportunidade histórica: Grécia Antiga, Império Romano, Domínio Árabe, domínio maritimo de portugueses e espanhóis e estaríamos aqui o dia todo: o domínio não é eterno. A meritocracia é, na maior parte das vezes, falaciosa e injusta na aplicação. O que estamos viver, e a história o dirá, é uma era com dominadores identificados e com actores emergentes que querem dominar. Há, sem dúvida, pouca solidariedade e muita informação tendenciosa.

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  8. Pois, venderam-nos outra coisa: que viveríamos todos como alemães - mesmo produzindo como marroquinos. Curiosamente, os vendedores eram portugueses, não alemães (destes sempre esperámos que pagassem; afinal, não perderam a Guerra?). Um deles, agora um ancião pouco venerável, insistia mesmo que o importante era "sacar".

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  9. Percebo. Mas os alemães também já produziram menos que "marroquinos" e é conhecida a sua veia para a grande corrupção: negoceiam bem na política internacional, como se viu nas últimas décadas. Já agora: em Berlim tropeçamos com "alemães marroquinos".

    Ouvi outro dia uma tese interessante: os sindicatos são membros das administrações das empresas alemãs e é tudo bem partilhado...

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  10. Rui Ramos di-lo bem melhor que eu, obviamente.

    "A nova oligarquia grega resolveu, astutamente, tentar focar as atenções na questão da “reestruturação” da dívida. Alguns evocam até precedentes de solidariedade europeia, como o perdão da dívida alemã em 1953 (de facto, esse perdão só abrangeu na prática as penalidades impostas pelos vencedores da I Guerra Mundial, mas não os créditos contraídos pela Alemanha). Acontece que a verdadeira questão grega não tem tanto a ver com a dívida, que já foi parcialmente perdoada, mas com as chamadas “reformas” que desde 2010 a troika tentou negociar com os governos de Atenas em troca de assistência financeira. O que todos descobriram entretanto é que essas reformas são incompatíveis com o regime grego. (...) Só visto do sul é que o “domínio alemão” existe, porque se confunde “domínio” com a relutância alemã em despejar dinheiro no sul do continente, a não ser no quadro de uma adaptação das suas sociedades e economias aos padrões nórdicos. Do ponto de vista germânico, a história dos últimos anos é uma longa cadeia de derrotas e de submissões: os alemães não queriam o euro, e tiveram o euro; não queriam resgates, e tiveram resgates; não queriam o BCE a imprimir dinheiro para financiar défices, e têm o BCE a imprimir dinheiro para financiar défices. Será fácil convencer o eleitorado alemão de que também ele merece ser “independente”. Já não vale a pena fingir: estamos a viver um momento histórico, em que os caminhos na Europa finalmente se bifurcaram." (Rui Ramos, in "Observador", 2.2.2015)

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  11. A nova oligarquia grega? Nova?

    É, se me permitem, uma boa análise. Já li coisas de bradar de Rui Ramos sobre Educação.

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