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domingo, 23 de junho de 2024

Terrorismo burocrático - Texto de Mário Silva

 



"Terrorismo burocrático.

 

Num guião de 9 páginas para orientação da reunião de avaliação, contabilizei:

10 a 15 relatórios a enviar à DT + DT avaliar cada estudante no projeto interdisciplinar (dac) + grelha de avaliação de cada disciplina + para cada estudante com nível 2 ou <10, um documento com os domínios que necessita de recuperar aprendizagens e as medidas que irão ser mobilizadas para o ajudar a consolidar aprendizagens + apreciação global de cada estudante + apreciação na turma para menção de mérito académico, conduta exemplar, mérito desportivo + Plano de Acompanhamento na Recuperação de Aprendizagens + balanço da eficácia das medidas seletivas ou adicionais + ponderar a necessidade de mobilização de medidas de apoio e suporte à aprendizagem aos alunos de Português Língua Não Materna revelaram dificuldades de aprendizagem + Balanço das aulas de apoio para a Prova Final + Relatório Individual das Modalidades de Apoio para alunos com RTP + Plano Curricular de Turma (balanço do plano de ação e sua atualização para o próximo ano letivo, balanço das atividades realizadas, balanço das atividades desenvolvidas no âmbito do plano de Cidadania e Desenvolvimento)


Numa AR em que os deputados não fazem atas nem preenchem documentação porque contratam para o fazer, seria expectável que não tenham sensibilidade para compreender a revolta docente de se sujeitar a uma ignóbil e inútil avalanche burocrática documental para cumprimento da legislação; se fossem sujeitos a este terrorismo burocrático, veríamos quantas abstenções e votos contra apareceriam...



Se querem desincentivar futuros candidatos à profissão docente, basta divulgarem esta lista com o procedimento burocrático a que se sujeitam ao longo do ano...


Mário Silva."


sexta-feira, 7 de junho de 2024

Opinião - Mário Silva

 



"Fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas


 


A manifestação pública de regojizo da recuperação do tempo de serviço, revela um ganho relativo. Fazendo contas, a recuperação total não ocorre:


1- assumir o perfil mais comum de docente com 55 anos no 6º escalão em 2024.


2- com a recuperação faseada proposta, com 62 anos estará a progredir para o 10º escalão. Estará 4 a 6 anos, contribuindo pouco para o valor da pensão de reforma.


3- sem recuperação terminaria a carreira no 8º-9º escalão.


4- com a recuperação de ser colocado no escalão correspondente ao seu tempo de serviço, progredia para 0 2º ano do 9º escalão em 2024. Com 57 anos, entraria no 10º escalão.


5- entretanto, tudo o resto que funciona mal, não é alterado e pode ser impactante no salário (componente não letiva abusiva, número excessivo de turmas a lecionar, colocação morosa no QA/QE da zona de residência, ser enviado para horário composto com 2 agrupamentos em concelhos diferentes, carga documental brutal no processo de avaliação sumativa, fragilidade na autoridade docente que incute sentimento de impunidade discente que destrói ambiente de aprendizagem na sala de aula, ausência de compensação no trabalho de correção da avaliação externa; etc.)


6- os que estão entre 8º e 9º recuperam menos e os do 10º já não usam o tempo a recuperar.


Será que há motivo para tanto festejo?…


Mário Silva"


sexta-feira, 22 de maio de 2020

"Temos de Parar Para Pensar"

Sugestão de Carlos Vieira de Castro.


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TEMOS DE PARAR PARA PENSAR


"Mais do que os receios que, naturalmente, poderiam assaltar-me nesta situação de grave pandemia que estamos a viver, em que os meus quase 89 anos de idade e um historial clínico pouco risonho, me põem no grupo dos de máximo risco, mais do que esses receios, dou por mim com este pensamento quase obsessivo:


«Temos de parar para pensar».


As imagens filmadas, creio que por “drone”, de Lisboa e de muitas outras grande cidades dramaticamente desertas, recordando Chernobyl na sequência da explosão do reactor nuclear em 1986, têm o sabor da tragédia que se poderá abater sobre a humanidade.


No passado dia 27, escrevi o que então me veio ao pensamento:
Uma “coisa” que nem tamanho tem, (como aqui escrevi há dias) feita de meia dúzia de moléculas à base de oxigénio, hidrogénio, carbono e umas pitadas de fósforo, ultramicroscópica, a meio caminho entre o inerte e a vida ou, como alguém disse, entre a química e a biologia, está a pôr em causa a hegemonia mundial dos EUA e a mostrar que todo o seu enorme poderio militar nada vale face à deliberada inexistência de um serviço nacional de saúde. Está a abanar a já de si frágil coesão da União Europeia, a revelar quão vãs foram as esperanças de Jean Monnet, Willy Brandt e Mário Soares e a dar voz aos partidos antieuropeístas. Está a desacreditar governantes irresponsáveis e populistas como Trump, Bolsonaro e Boris Johnson, a revelar uma Rússia em aproximação à Europa e uma China ambicionando ser a futura primeira potência mundial. Neste quadro, pode perguntar-se «de que vale, daqui para a frente, uma organização militar como a Nato»?
À margem do terramoto no mundo da política, da economia e das finanças, que julgo poder antever-se, assiste-se a uma notada melhoria em alguns aspectos do ambiente natural, nomeadamente e à vista de todos, na poluição atmosférica, dando plena razão à jovem sueca, tão mal e estupidamente tratada por alguns dos nossos comentadores de sofá.


Estas e mais do que evidentes reflexões são suficientes para, em meu modesto entender, que nada sei de ciências sociais e políticas, estar convicto de que


«temos de parar para pensar».


Na realidade, nós e todos os países ditos desenvolvidos, com milhões e milhões de habitantes concentrados em enormíssimas cidades, já estamos parados em múltiplos aspectos das nossas vidas. É nas escolas e nas universidades, na indústria e no comércio, no teatro, no cinema e nos concertos, nos museus e, até, no futebol. Estamos, por assim dizer, fechados em casa, uns porque têm consciência das vantagens dessa atitude, outros porque a isso se sentem obrigados. Uma recomendação que, diga-se, está a ser amplamente respeitada, praticamente sem necessidade de lhe dar o carácter de imposição subjacente à situação de Estado de Emergência decretado no passado dia 18.


Todos sabemos quais os sectores da sociedade que, numa situação como esta, não só não param como multiplicam os seus esforços ao limite das suas forças físicas e emocionais. São os da saúde, dos médicos e enfermeiros ao mais modestos operacionais, são os bombeiros, as forças de segurança e os militares, os farmacêuticos e todos os que nos continuam a assegurar os bens de primeira necessidade e os serviços essenciais. São, ainda, não esqueçamos, os cientistas e os técnicos que, neste momento, estão a dar o seu melhor na luta contra esta pandemia.


Estou convicto de que, quando esta contrariedade passar, muita coisa vai mudar, quer nas relações internacionais quer nas políticas internas dos países. Não estou a falar dos aspectos partidários, mas sim dos da administração, como por exemplo, a das dotações orçamentais para a saúde, as do ambiente natural, as da ciência, da educação e da cultura, as das opções económicas e financeiras, as das relações de trabalho e outras.
Especificando um pouco na área da educação (leia-se ensino) em que, como é esperável, terei algo a dizer e que, no que se reporta ao nosso país, mais me preocupa neste momento,
Começo por recordar uma afirmação do Primeiro Mministro António Costa na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, em 2016:


“De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.


Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior, em todas as áreas do conhecimento, está ao nível do que caracteriza os países mais avançados, é confrangedor assistir à generalizada iliteracia dos portugueses, incluindo muitos dos nossos quadros superiores, intelectuais de serviço e políticos de profissão que, embora conhecedores dos domínios em que se movimentam, são falhos de outras culturas, em particular da científica, que a escola deveria dar mas não deu e continua a não dar, como está implícito nas palavras do Primeiro Ministro.


É minha convicção que grande parte desta a situação, vinda bem ao de cima na citada afirmação do Primeiro Ministro, que não mais esqueci, radica, desde há muito e em grande parte, na “máquina pedagógica” do Ministério da Educação. Já aqui escrevi e volto a escrever que os ministros e secretários de estado da tutela, uns com ideias, outros sem elas, têm-se sucedido ao sabor das legislaturas e das remodelações. Foram, entrando, ignorando muitas das disposições dos que os antecederam, criando outras e desaparecendo de cena, dando lugar a novos outros, em repetição deste desgraçado ciclo. Outra parte da responsabilidade desta triste e lamentável situação cabe aos sucessivos chefes de governo que, mais preocupados com outros sectores da administração, dividendos políticos e outras aberrações dos aparelhos partidários instalados, têm descurado este gravíssimo problema, bem expresso nas ditas palavras do Primeiro Ministro: “défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.


Temos, pois, de parar para pensar.


Pensar que é preciso vontade política para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação das políticas do Ministério da Educação, em particular as pedagógicas e administrativas.


Pensar, face às extraordinárias capacidades das tecnologias informáticas no mundo globalizado dos dias de hoje, nas vantagens e desvantagens dos ensinos presencial e à distância, incluindo o ensino superior.


Pensar no sentido de fazer com que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos respectivos titulares, como nas dotações orçamentas que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho e de relativa autonomia e, aos professores, a dignidade compatível com o importantíssimo papel que representam na sociedade, a começar pelos respectivos vencimentos, colocações e estabilidade.


Pensar na profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino básico e secundário, a começar na conveniente e eficaz formação e avaliação de professores, reformulação de programas passando pelos livros e outros manuais de ensino (que envolvem interesses instalados) com discursos estereotipados que se repetem acriticamente em obediência a esses programas, levando ou, melhor, obrigando os professores, não a ensinar e formar cidadãos, mas a “amestrar” alunos a acertar nos questionários de exames, por vezes, autênticas charadas.


Pensar que o professor não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, insisto em dizer, estereotipadas e acríticas dos manuais de ensino. Sempre disse e insisto em dizer que o professor deve saber muito, mas “muito mais” do que o estipulado no programa da disciplina que deve ter por missão ensinar. Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que a situação que se vive nas nossas escolas lhes não dá. Há que libertá-los de, praticamente, todas as tarefas que não sejam as de ensinar. Há que resolver o problema das suas colocações, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias.
.
Pensar no papel importantíssimo dos sindicatos, não só relativamente aos problemas laborais, mas aos de natureza pedagógica que eventualmente ao aflijam.


Pensar em intervir no sentido de alterar o social e político dominante na sociedade economicista que domina na União Europeia e que, evidentemente nos envolve, continuando a promover e alargar o fosso entre os que estudam, e assim aspiram e conquistam o direito à cidadania, e os outros."


domingo, 10 de maio de 2020

"Será eticamente aceitável retomar aulas como parece estar previsto? – Uma alternativa" por João Paulo Maia


Texto de João Paulo Maia


"Será eticamente aceitável retomar aulas como parece estar previsto? – Uma alternativa."


"A pergunta ética crucial é: o que devemos fazer? Neste caso, o que devemos fazer quanto ao retomar ou não de aulas no ensino secundário, tal como parece estar previsto para breve, a 18 de Maio.


Manifesto a minha perplexidade e preocupação pela decisão desta retoma nas condições que são do conhecimento público, tanto quanto se pode ajuizar pela informação disponível até à data, dado o risco para a saúde pública que é expectável esta decisão implicar, sem que nada de substantivamente equivalente ou mesmo superior se lhe possa contrapor. Isto para já não referir os inúmeros obstáculos “técnicos” que esta decisão levanta. Comece-se por estes últimos – (1) e (2).  


(1) Se (i) as orientações emanadas do Ministério da Educação (via Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares) para o recomeço das aulas presenciais não determinam um número específico de alunos por sala, já (ii) a Resolução do Conselho de Ministros n.º 33-A/2020, no seu artº 10º, alínea a), especifica uma ocupação máxima por m2, a saber, 0,05[1], o que implica a ocupação, num espaço fechado, de uma pessoa por cada 20 m2.. Se assim for, uma sala com 100 m2 só poderia ser ocupada por 6 pessoas (supostamente 5 alunos e 1 professor, visto a Resolução referir que prestadores de serviços não contam; mas assuma-se que professores e alunos contam como pessoas...)[2]. Porém, este estado de coisas naturalmente levanta sérios problemas quanto à operacionalização de aulas presenciais.


(2) A Resolução em causa também determina a distância mínima a observar entre pessoas: no referido art.º 10º, b), lê-se: “A adoção de medidas que assegurem uma distância mínima de dois metros entre as pessoas, incluindo aquelas que estão efetivamente a adquirir o produto ou a receber o serviço, podendo, se necessário, determinar-se a não utilização de todos os postos de atendimento ou de prestação do serviço”. Ora, este último tópico parece enquadrar o caso de atividades letivas presenciais, pois os docentes são prestadores de serviços. Porém, nas Orientações do Ministério apenas se refere a distribuição de um aluno por secretária ou mesa. Se isto assim for, teremos de afastar secretárias ou mesas para que essa distância seja respeitada entre alunos e entre estes e o professor, o que coloca novamente em jogo os problemas de operacionalização supracitados (a “extensibilidade das salas de aulas” assume limites aquitectónicos bem objectivos). 


(3) Para além destas anomalias difíceis de ultrapassar, o que se obteria no plano ético? Fazer regressar agora à escola alunos que tipicamente mantêm um número considerável de interacções sociais, incluindo não apenas alunos das disciplinas dos anos sujeitos a exame nacional (mesmo aqueles que os não irão realizar), mas também ao que parece alguns alunos dos cursos profissionais (e aqui a incerteza prevalece), parece ser uma decisão irresponsável porque todos estes alunos iriam estar em contacto com uma faixa etária de professores e funcionários, muitos dos quais acima dos 50 anos, alguns com 60 ou mais anos, e alguns com comorbilidades. Isto para além de tais alunos contactarem com pais, encarregados de educação e alguns parentes da faixa etária acima dos 70, havendo ainda comorbilidades que não devem ser, sem mais, lançadas para o conjunto vazio. Logo, se esta decisão parece irresponsável no plano da saúde pública, será também uma decisão que fere a ética, pois previsivelmente coloca em risco a vida de pessoas inocentes. E aqui de pouco serve argumentar a favor da ideia de que esse poderá ser um efeito meramente colateral, mas não pretendido, apesar de expectável.


(4) Um recente estudo da Fundação Champalimaud, envolvendo testes serológicos –  


https://www.publico.pt/2020/05/07/sociedade/noticia/covid19-estudo-revela-taxa-infeccao-loule-14-vezes-maior-testes-diagnostico-1915624 – reforça a ideia de que o número de infectados activos, logo, potencialmente contagiosos, e muitos deles assintomáticos, pode ser muito elevado. Dada a amostra – 1235 pessoas –, e mesmo tendo em conta o universo em causa, o resultado obtido foi 14 vezes superior ao que teria sido detectado em testes PCR, para a população testada do mesmo Concelho de Loulé. Ora, isto é um forte indício que apoia a ideia de que este regresso às aulas presenciais, nestas circunstâncias, parece ser de enorme leviandade e, consequentemente, um erro ético que não deve passar em claro.


(5) Como professor do ensino secundário público, estou pronto para assumir as minhas responsabilidades e, creio, muitos professores, dentro e fora de Conselhos Pedagógicos e de Conselhos Gerais, dentro e fora de Sindicatos, estarão também prontos para assumir as suas, tal como muitos pais e encarregados de educação – parece tratar-se da observação de princípios éticos inescapáveis, na defesa do interesse comum: minimizando estragos que esta pandemia tem provocado e tentado optimizar o ensino e as aprendizagens com os recursos que estão ao nosso alcance.


(6) Mas haverá alguma alternativa credível ao que nos é ministerialmente “proposto”? É que a ética não deve ser advogada tendo por suposto a inexistência de algo fisicamente acessível em termos de melhores alternativas, ou no mínimo menos más, para os agentes implicados nestas tomadas de decisão. Ora, parece-me que a resposta para aquela pergunta é afirmativa, por exemplo, defendendo globalmente as soluções expressas publicamente pelos subscritores de Por que não devem reabrir as escolas para o ensino secundário que, neste momento, se constitui como petição que pode ser assinada no site do Parlamento nacional – ver: https://participacao.parlamento.pt/initiatives/1263


(7) Ora, se há melhores alternativas – pelo menos uma! –, e que em nada hipotecam a equidade que deve prevalecer, nomeadamente no acesso de alunos ao ensino superior, por que razão persistir num erro que pode custar o sofrimento de vidas inocentes que poderiam não ser sacrificadas, caso se mantivesse o actual regime de Ensino Remoto de Emergência que, não negligenciando óbvias dificuldades, até se tem comportado com razoabilidade? Só porque tecnicamente já não estamos em estado de emergência? Isso é, para já, seguro. Mas também será muito provável que decisões irresponsáveis possam vir a assumir-se como calamitosas, esteja ou não legalmente decretado o estado que esteja.


João Paulo Maia, professor da Escola Secundária Cacilhas-Tejo


Almada, 7 de Maio de 2020


[1] “Artigo 10.º – Regras de ocupação, permanência e distanciamento físico


1 — Em todos os locais onde são exercidas atividades de comércio e de serviços nos termos do presente regime, sejam estabelecimentos de comércio, por grosso ou a retalho, ou grandes superfícies comerciais, conjuntos comerciais, mercados, lotas ou estabelecimentos de prestação de serviços, devem ser observadas as seguintes regras de ocupação, permanência e distanciamento social:


1. a) A afetação dos espaços acessíveis ao público deve observar regra de ocupação máxima indicativa de 0,05 pessoas por metro quadrado de área; (...)”.


[2] Com efeito, pode ler-se no mesmo artº 10:


“2 — Para efeitos do disposto na alínea a) do número anterior:
a) Entende -se por «área», a área destinada ao público, incluindo as áreas de uso coletivo ou de circulação, à exceção das zonas reservadas a parqueamento de veículos;


1. b) Os limites previstos de ocupação máxima por pessoa não incluem os funcionários e prestadores de serviços que se encontrem a exercer funções nos espaços em causa.”, o que parece incluir, se se for consistente, professores.



 

sábado, 18 de maio de 2019

"A Hostilidade Aos Professores"

 


 


A hostilidade aos professores


(José Pacheco Pereira. Público.18/05/2019)


 



"A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.


Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da igreja, que tinha o monopólio do ensino.


Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia, de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.


Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudo-cíentifica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neo-malthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.


Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.


Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado, que também existem como é obvio, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.


Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias.


O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.


Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre Dame com aviões tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.


Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e depois queixem-se."


segunda-feira, 2 de julho de 2018

"A má vontade mal resolvida contra os professores comporta vários fatores"

 


 


 


Contributo de Maria Silva (um comentário que passei a post).


 



"A má vontade mal resolvida contra os professores comporta vários fatores:



1- Um imaginário limitado em relação à importância da cultura e do saber, enformado por uma sociedade cujo perfil, no momento em que acontece o 25 de abril, apresenta a mais alta taxa de analfabetismo da Europa, situação que não foi resolvida, como deveria, com uma revolução cultural, mas que foi varrida para debaixo do tapete com a massificação da escola. Assim a massificação de diplomados que é hoje constituída por decisores e “opinion makers” deste país é oriunda deste perfil social e reconhece mais valor ao futebol do que ao teatro, por exemplo.
2- O facto da expetativa em relação à escola ser irrealista, de se atribuírem à escola missões impossíveis que obviamente só pode falhar. Por exemplo, espera-se da escola que descubra o brilhantismo oculto que existe em cada um nós, antes mesmo de que ele seja revelado perante o próprio. O professor tem o ónus de modelar mentes e vontades até ao infinito, tarefa que não se espera de psicólogos e psiquiatras que são especialistas na mente humana. A indefinição clara das incumbências da escola e das limitações da sua ação, servem a correlativa indefinição acusatória que flutua contra a escola e contra os seus agentes, os professores.
3- A assimetria social, não existem quotas de género para o grupo profissional dos professores, predominantemente constituído por indivíduos do sexo feminino. Esta situação é afetada por alguma simbologia social. O facto da sua imagem social não ser representada por executivos de fato e gravata, com um ar grave, influencia o estatuto social do grupo profissional dos professores, que são tuteados na praça pública com a familiaridade de quem vive na porta ao lado, sem se vislumbrar que a educação é um sector tão estratégico como as finanças, uma vez que a principal riqueza que este país possui são os recursos humanos, e todos: juízes, políticos, artistas, cientistas, metalúrgicos etc. são formados na escola.
A nossa sociedade atribui ao grupo profissional dos professores (apesar da exigente tarefa que lhe cobra) um estatuto remuneratório inferior ao de outros grupos profissionais com graus académicos equivalentes, porque aceita que o contributo para o orçamento familiar da mulher seja secundário em relação ao do homem.
O tradicional espírito de entrega e de sacrifício das mulheres e a sua capacidade de multitarefas, paradoxalmente, não ajuda ao seu reconhecimento."


 


Maria Silva.


segunda-feira, 25 de junho de 2018

Opinião de Mário Silva sobre os exames

 


 


 


Contributo de Mário Silva.


 



"O próximo ataque do ME à reputação dos docentes.


 


Através do ‘Iavé’, o ME vai atacar a reputação dos professores no próximo mês de julho. Como? Quem acompanha os exames nacionais, detetou que houve alterações na estrutura deles e nas cotações (aumentaram nas questões de escolha múltipla). Estas alterações têm potencial para piorar as classificações dos exames e obviamente que isso será usado para atacar os professores com a falácia ‘estão-a-ver-esta-gente-a-reivindicar-que-lhes-paguem-as-progressões-e-afinal-os resultados-foram-piores’.


O ME que se arvora o protetor dos ‘coitadinhos-dos-estudantes-que-são-prejudicados-pelos-professores’, depois insidiosamente promove ações que prejudicam os mesmos estudantes nas suas médias de classificação final, usando subrepticiamente como ‘bode expiatório’ a classe docente; nem Maquiavel conseguia ser mais ignóbil…


“Os alunos concordaram que a derradeira questão da prova era a mais complicada e estavam também alinhados no principal assunto de quase todas as conversas: a estrutura do exame deste ano. Ao contrário do que vinha sendo habitual nos anos anteriores, o exame nacional de Matemática A foi dividido em dois cadernos.


«Nós somos sempre as cobaias do Iave», queixa-se Ana, já fora da escola. «Se quisesse voltar atrás a alguma das perguntas do 1.º caderno, não podia», explica.


 


Jornal Público (25/06/2018)


quinta-feira, 21 de junho de 2018

dos políticos e da carreira dos professores

 


 


 


É um bom exercício comparar o muito bom vídeo de Joana Mortágua (JM), que está mais abaixo, com "o texto de opinião" de Alexandra Leitão (AL) hoje no Público. Duas políticas jovens que pertencem à maioria que apoia o Governo. Espera-se que remem para o mesmo lado, embora devam discordar para que se iluminem. A 1ª informa. A 2ª desinforma. A 1ª é imparcial. A 2ª não o consegue e constrói os argumentos de modo a manipular quem a leia sem informação. Aliás, basta ver o vídeo de JM e ler de seguida o texto de AL. Serão 5 a 6 minutos elucidativos e é pena que assim seja.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"Jornalistas e Professores"

 


 


 


É um facto: os professores venceram muitas batalhas, mas perderam a principal. Mas leia e continue na ligação que vale a pena.


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"Não há nenhuma classe profissional tão hostilizada nos jornais como os professores. De um modo geral, todas as reivindicações dos professores são consideradas ilegítimas e a classe profissional é vista como detentora de uma força sindical da qual faz um uso abusivo. Diga-se, em boa verdade, que antes de enfrentar a hostilidade do jornalismo, os professores tiveram de enfrentar as hostilidades do modelo de gestão da escola e do ensino, numa guerra da qual saíram vencidos. Foi-se reduzindo progressivamente o tempo de trabalho autónomo, que era uma parte importante do tempo de trabalho de um professor (porque se entendia que o saber – manual ou intelectual, técnico ou teórico, académico ou não — é um direito à autonomia) e aumentando o tempo de trabalho controlado, que é hoje a quase totalidade do trabalho docente. O professor ficou assim submetido ao trabalho das classes proletárias, mas continua a recair sobre ele a imagem de que é um animal de luxo. E aí começa a caça ao professor. Há já algum tempo que começou a prosperar, por todo o lado, uma bibliografia que consiste em testemunhos desencantados de professores e ex-professores.(...)"


sábado, 28 de outubro de 2017

"Um país sem Estado e apenas com impostos"

 


 


 


"Um país sem Estado e apenas com impostos" é um texto de opinião de José Pacheco Pereira.


 


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Nota: para os OCS parece que ontem não houve greve. Nas escolas, e apesar de se prever o encerramento com a greve de outros profissionais, a adesão dos professores foi elevada, com números semelhantes a 2013 e com sinais de que a contestação continuará.



 

sábado, 6 de maio de 2017

"Há algum outro bom momento para discutir a dívida pública e externa?"

 


 


 


Claro que há todo um poderoso spin que considerará a dívida pública e externa intocável e que encherá a agenda mediática com o anúncio do caos se um Governo europeu pensar em recuperar direitos dos cidadãos. Para esse spin, só há uma cartilha: cortar a eito nos 99%.


É importante que grupos de economistas lancem a discussão. Aconteceu nas últimas semanas em Portugal. A discussão continua com o seguinte texto de opinião: "Há algum outro bom momento para discutir a dívida pública e externa?" Tem um subtítulo lapidar: "As instituições (BCE, MEE, etc.) e as pessoas que as dirigem deverão ser capazes de responder às críticas ou começar a trabalhar para as alterar."