Maputo, 7 de Setembro de 1974.
Encontrei a imagem aqui.
O meu vizinho era em tudo insuportável: racista, machista, fascista, mal-educado, brejeiro e por aí fora. Tinha três filhos: um da minha idade, outro dois anos mais novo e um terceiro uns quatro anos mais velho e um verdadeiro fora-da-lei. Das raras vezes que entrei na casa dele saí com a convicção de que não voltaria. Os filhos eram meus amigos, principalmente o da minha idade.
Estávamos em Setembro de 1974 e a Frelimo tinha iniciado pelo norte a jornada do "Rovuma ao Maputo (a capital, bem a sul)" que finalizaria o poder português através de um Governo provisório que prepararia a independência em Junho de 1975. Tinha uns 16 anos e despertava para o tema de todas as horas e discussões: a política. Nessa altura, o exército português depôs as armas e iniciou com os guerrilheiros da Frelimo uma força mista que patrulhava Maputo. As pessoas como o meu vizinho detestavam a mistura.
Em 7 de Setembro de 1974 a baixa da cidade estava cheia. Ao que confirmei depois, um automóvel passeava pelas ruas arrastando uma bandeira portuguesa. Gerou-se um tumulto que originou o "Movimento Moçambique Livre". Foram tomados o Jornal de Notícias e a Rádio Clube de Moçambique. Durante dois a três dias transmitiram-se comunicados a favor do movimento e contra a Frelimo. Instalou-se a violência. As populações moçambicanas dos subúrbios viraram e queimaram carros com pessoas lá dentro e invadiram as ruas da capital armadas com catanas. Alguns portugueses agiram como snipers e atingiram os "invasores". Foram dias de terror. Fiz três coisas de que me recordo bem: morava perto do hospital e assisti à chegada de várias camionetas de caixa aberta com cadáveres, refugiei-me em casa e, no segundo dia, fui com os meus pais ver o que se passava na Rádio Clube de Moçambique. Vi aí um dos chefes do movimento a discursar e a ser fortemente aplaudido: era o meu vizinho.
Dito tudo isto para relembrar uma coisa óbvia: da rua só saíram ditaduras.
Vi isso naquela altura (embora aquele movimento tenha durado três dias), já o tinha lido na História e confirmei-o ao longo dos anos com tantos lutadores a estalarem o verniz por coisas que "nada" tinham a ver com política.
Como fazer então a "revolução" sem ser a partir da rua (ou antes que parta da rua) é o grande desafio da sociedade portuguesa.
1ª edição em 28 de Outubro de 2013.
Também em Luanda durante a descolonização houve um défice de diálogo entre as forças em presença, por isso deu no que deu... DITA DURA DURA DURA.
ResponderEliminarPor cá a história repete-se, há muita desinformação e continuamos a demonstrar um grande défice democrático e cultural.
A memória é curta e a DITA está à espreita de uma oportunidade.
Os extremos tocam-se e chocam-se! Depois entram em acção os partidos do arco da governação com pele de cordeiro e falinhas mansas, e por fim quem se lixa é o povão .
ResponderEliminarOs do arco da governação com a oposição estruturante como se vê por essas autarquias com as coligações do PSD com a CDU... Até o dinossauro das Caldas se coligou com a CDU em Loures... porca miséria...
ResponderEliminarPaulo
ResponderEliminarÉ pena sabermos tão pouco de Moçambique, tanto da atualidade (política, económica, social, cultural) como do seu passado. Excepto das trivialidades costumeiras que pouco nos dizem e que pouco ajudam a que dirijamos a nossa atenção para o povo moçambicano. E há os seus escritores, os seus poetas, os seus artistas, que o serviço público poderia tornar mais visível e presente na nossa vida. E há o trabalho de todos os que, no terreno, procuram trazer Moçambique para patamares de mais desenvolvimento social e de crescimento económico.
E quando ouvimos falar do conflito que está sempre latente entre a Renamo e a Frelimo ficamos surpresos, pensando que isso eram águas do passado sem retorno. Mas não. É a minha (nossa?) ignorância que vem à tona. Assim, Paulo: vai falando de Moçambique, que tens na alma, e assim contribui para a sua/nossa descoberta.
«relembrar uma coisa óbvia: da rua só saíram ditaduras»
ResponderEliminarPaulo, presumo que pretendes excluir "desta" rua a manifestação da fonte luminosa, em que Soares se aliou objectivamente a Sá Carneiro e ajudou a engrossar o movimento anticomunista que se expressava "bombisticamente" através do ELP, do MDLP e quejandos.
É que essa foi a rua que conduziu ao "estado a que isto chegou"!
Abraço,
F.
Pois e perante os factos que estamos a assistir e a pouca vergonha que vai nesta nação, só se me oferece fazer um pedido:- PUTIN, vê lá se te decides!
ResponderEliminarA Rua referida no texto é outra, e percebo bem o que o autor do blog quer dizer. Se o povo perde a cabeça não se sabe o que irá acontecer.
Se da rua saem apenas ditaduras é caso para perguntar o que tem saído dos palácios e lugares “civilizados”?
ResponderEliminarA mistificação do carisma é uma arma poderosa no arsenal de todos os regimes burocratizados e empedernidos.
Olá Francisco.
ResponderEliminarO "da rua só saíram ditaduras" é mais para inserir no contexto e atender à situação que vivemos; e não é de agora. Já nem sei que diga mais, sinceramente.
Putin João Santos? Deve ser a brincar.
Abraço aos dois.
Concordo.
ResponderEliminarHá já demasiadas evidências, embora o democracia continue a ser a pior das formas de governo com excepção de todas as outras.
O "da rua só saíram ditaduras" é mais para inserir no contexto, repito, e atender à situação que vivemos; e não é de agora. Já nem sei que diga mais, sinceramente.
Da rua também têm saído movimentos libertadores. É o caso de quase todos os países do bloco comunista.
ResponderEliminarO Diabo é que rapidamente são absorvidos pelos políticos profissionais.
Cumprimentos.
Bem observado, se me permite.
ResponderEliminarCumprimentos também.
Mas o que é que o PCP, ou a manifestação da fonte luminosa têm em comum com o Putin?
ResponderEliminarNão percebo
Também não percebi Francisco.
ResponderEliminarQue saudades eu tenho de África, nomeadamente de Angola . Boa qualidade de vida, clima agradável e espírito de entre-ajuda entre as pessoas. Se não tivesse ocorrido o 25 de Abril, eu lá estaria todo feliz e contente.
ResponderEliminarCompreendem-se as saudades, mas o 25 de Abril era inevitável e incontornável.
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