Moçambique festejou a independência (Junho de 1975) e mudei de nacionalidade por naturalidade (e naturalmente) e residência (sem direito a passaporte). Como constava (já em 1976) que os jovens da minha idade seriam enviados para a URSS, RDA ou Cuba para estudos superiores, a fuga como refugiado era a alternativa. Apesar do risco de denúncia, o passaporte português (ilegal, claro) era a única solução.
A viagem de Maputo para Lisboa tinha escala em Atenas e Geneve, durou bem mais do que o previsto e aterrou também na Beira (os guerrilheiros que entraram no avião para lerem muito devagar os nomes dos denunciados, que seriam enviados para campos de reeducação, demoraram a sair-me da memória), Dar es Salaam, Nairobi, Kampala e Londres.
As peripécias são inesquecíveis, mas fiquemos pelo percurso de madrugada entre Nairobi (Quénia) e Atenas (Grécia) num avião da East African Airlines a desfazer-se: bancos rasgados, barulho ensurdecedor, refeição intragável e humidade insuportável. Muito antes do destino, o avião iniciou uma descida e recebemos o aviso de que íamos aterrar: Entebbe, aeroporto de Kampala (Uganda). A maioria dos passageiros tinha o "estatuto" de refugiado, o Uganda era governado pelo ditador Idi Amin, com fama de antropófago, e uns meses antes tinha ocorrido por ali um raid israelita para resgatar um avião desviado. Temia-se o pior. O edifício do aeroporto era enorme, mas estava literalmente vazio; recordo-me das longas prateleiras sem qualquer objecto. Após horas de impasse, lá embarcámos num voo da British Airwais porque a East African não podia voar em espaço europeu e nós por pouco também não: é que a floresta Zika fica a 20 kms de Kampala.
O meu tio, Adalberto Drummond Martins, e os meus primos, Paulo, Pedro e Sofia, vieram para cá na mesma altura, mas ainda não tinha ouvido comentários de quem era novo nessa altura e o que se passou no regresso a Portugal
ResponderEliminarObrigado, Paulo!
De nada João. Eu é que agradeço o comentário e a atenção.
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