quarta-feira, 22 de abril de 2020

em forma de u e até outro dia

 


 



Não sei se o universo mediático já instituiu o Prémio Covid-19 para o mais eloquente elogio aos professores, mas perante esta torrente laudatória os professores, que são os mesmos de há uns meses e de há uns anos, estarão algo perplexos. E neste sentido, lembrei-me de um texto de 2010 que permite, acho eu, um elenco alargado de conclusões e reflexões. (1ª edição em 10 de Maio de 2010)

 

Talvez tenha sido premonitório, talvez. São dezena e meia de alunos e só um vive com a mãe e com o pai. Nos últimos anos é muito assim: vê-se que os miúdos sofrem com isso, mas não é condição que se manifeste definitivamente trágica.


Chegam do intervalo quase sempre em polvorosa. A média de idades ronda os doze anos, a perturbação emocional de uns quantos é acentuada e a conflitualidade é latente.


No dia do U a informação era decisiva: o intervalo foi ainda mais caótico do que o esperado; merecia um início de aula raro e com resguardo cívico. Os bancos suecos formam a habitual linha recta, mas nessa aula a escolha caiu no tal U.


E de repente, nem houve espaço para o caso em apreço: alguém se justificou, com as lágrimas a jorrarem face abaixo, com a descrição de uma cena caseira violenta na noite anterior. O testemunho cativou uma surpreendente e imparável onda de partilhas. A atmosfera era de uma brutal tranquilidade: não se atropelava a outra comunicação, o ruído era inexistente, a comoção sossegava as almas e os relatos absorviam uma adulta vivência emocional. Que fazer? Os quarenta e cinco minutos protocolados para a aula voaram e a catarse parecia envolta numa penumbra iniciática. Tínhamos meia-hora de intervalo pela frente e aqueles pequenos corpos não podiam regressar à selva sem qualquer analgésico. Mas que grande embaraço.


O U ficou de mãos dadas em junção com o único que usou a cadeira. Foi um recurso inopinado. Uma corrente em busca de uma qualquer transcendência. Para tudo há sempre uma primeira vez, diz-se. Uma força colectiva ajudou a que se enchesse de energia o discurso de circunstância. As lágrimas esconderam-se como se dissessem: até outro dia.

72 comentários:

  1. Lindo! Lindo! Lindo! Obrigada. Muito comovente.

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  2. Chocante. Não consigo mais do que imaginar.

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  3. Muito muito lindo!

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  4. Soberbo, simplesmente soberbo.

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  5. Ser professor é...tb isto. Comovente.

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  6. Brilhante, carago. Rara sensibilidade a tua, meu amigo.

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  7. Sem palavras.

    Os sentimentos são silenciosos...


    Aquele abraço.
    reb

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  8. Sem palavras. Texto enorme

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  9. Excelente texto, Paulo! Esta é, infelizmente, a realidade com que, diariamente, nos confrontamos nas nossas escolas.

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  10. Paulo:
    Este texto não pode morrer, caramba!

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  11. Maravilhoso e triste. Só o Paulo.

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  12. Jorge Correia (professor)27 de abril de 2010 às 23:07

    Subscrevo.

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  13. Joana Ribeiro, Encarregada de Educação27 de abril de 2010 às 23:09

    Sorte do país que tem professores assim.

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  14. Consigo ver a cena...e acredito que esse momento não vai esquecer a nenhum deles. Dói saber que andam por aí tantas crianças anónimas a fervilhar de angústias.

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  15. Excelente texto, Paulo! Vou bem melhor do que entrei :)

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  16. Solução óbvia: nada de aceitar alunos de pais casados. O tempora!

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  17. Miúdos azarados cheios de sorte. Parabéns pela escrita, ideias e sensibilidade.

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  18. Escreves muito bem, Paulinho!
    E se complementasses a tua formação com uma aprendizagem dentro da psicologia?

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  19. paulo guilherme trilho prudêncio28 de abril de 2010 às 13:59

    Viva Margarida.

    Desde já um obrigado a todos pelas vossas palavras.

    Uma saudação especial aqui para a Margarida - tenho ideia que é a primeira vez que insere um comentário - que é uma amiga dos tempos do liceu e que não vejo desde essa altura. Já nem me recordava do Paulinho nesse tom tão agradável.

    O link não abre

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  20. Braga está à tua espera, quando quiseres...
    Bjinhos.
    Guida

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  21. É por causa destes "bocados" de escola que ainda tenho orgulho em ser professora.
    De resto, acho que já disseram tudo. É sempre um prazer vir a este blog.

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  22. Fabuloso, fantástico, maravilhoso...
    Obrigada por partilhares estes pequenos/grandes momentos connosco. Sandra

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  23. Texto deslumbrante. Levo-o comigo. Obrigado.

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  24. Tocante e muito bem relatado. Não me surpreende.

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  25. Muito bonito. Concordo com muitos comentadores: comovente!!!

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  26. Não. Tenho dois irmãos. Não o conheço pessoalmente. Leio muitas vezes o seu correntes mas nunca comentei.

    Este texto é espantoso. Continue. Parabéns.

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  27. Viva miúda.

    Tb sei que não foi aquele dia para ti. És grande, muito grande

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  28. Entre a poesia e a prosa, inscrevem-se duas sensibilidades - a de quem "lê" (entre aspas porque pode ser escuta ou vê) e a de quem a "produz" (escreve, desenha, pinta, oraliza...)... Mas é a realidade que cobre essas sensibilidades... Para a existência destas não há garantia... Para a incontornabilidade da outra não conheço escapatória...
    O "arranjo" deste teu texto, o que tu lhe deste, é "prova provada" de que te inseres no quadro de quem tem as acima alegadas sensibilidades - porque o "produziste" e porque com ele consegues despoletar a reflexão, ainda que mínima seja, sobre a segunda componente - a, por vezes, como parece ser o caso, "malfadada" REALIDADE"...
    []

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  29. Texto belíssimo Paulo. A nossa Santo Onofre magoa com tanto oportunismo. Estão a dar cabo da nossa escola.

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  30. A Ministra da Educação veio pronunciar-se em público sobre o caso concreto do suicídio do professor de Sintra.

    Mesmo estando o processo em segredo e a decorrer.

    Percebe-se agora a vergonhosa posição do psiquiatra de serviço Daniel Sampaio…..

    Se quiserem recorrer para a ministra do arquivamento do caso, já sabem a resposta….

    é tudo farinha do mesmo saco

    às perguntas do DN de hoje a seguir, respondeu a Ministra da Educação:

    Pergunta:
    Essa agressividade tem gerado casos de suicídio como os que foram noticiados nas últimas semanas.

    Resposta:
    Não, isso não é verdade. Eu partilho absolutamente da visão e da análise que o professor Daniel Sampaio tem feito e vindo a publicar. Ele chama a atenção para os casos-limites, como é o caso de um suicídio, e refere que nunca é apenas devido a um factor externo. Nunca é só a profissão, a situação familiar ou a situação amorosa, há uma conjugação de factores que têm a ver com a personalidade das pessoas.

    Pergunta:
    São casos extremos?

    Resposta:
    É um caso extremo. Ainda por cima, a escola não é um local onde se morra. Uma pessoa admite que num hospital possa haver uma fatalidade tremenda, mas quando um jovem ou um adulto jovem morre é tremendo e a escola fica num estado de consternação. O que temos de fazer é dar apoio, é isso que nós temos feito.

    Pergunta:
    O caso do Leandro e o do professor que se atirou da Ponte 25 de Abril colocaram o ministério numa situação complicada?

    Resposta:
    O ministério tem há vários anos um gabinete de segurança escolar e um observatório de segurança escolar exactamente para prevenção dessas situações e para actuar. Evi- dentemente que são circunstâncias trágicas as da morte de uma pessoa numa escola. Nós sofremos, mas não é só por isso que actuamos – é que sabemos que os pais entregam os filhos às escolas para que estejam em segurança.

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  31. Uma história comovente que seria óptimo se não se tivesse que a contar. Infelizmente a realidade da sociedade contemporânea obriga que histórias destas tenham de ser relatadas.

    Em todo o caso é comovente, de facto.

    Excelente Paulo!

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  32. Memorável. Parabéns.

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  33. Amélia Pais, encarregada de educação19 de maio de 2010 às 22:42

    Há algum tempo que não passava pelo seu blog. Enviaram-me a ligação a este texto e guardei-a. Li só agora e comoveu-me. Você é nobre e enaltece a sua profissão. Fraterno abraço.

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  34. paulo guilherme trilho prudêncio20 de maio de 2010 às 09:42

    Viva Amélia.

    Muito obrigado.

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  35. Linda prosa. Surpreendente. O assunto deixa-nos desarmados, como é evidente.

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  36. Excelente texto. Parabéns.

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  37. Excelente texto, mas excelente mesmo.

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  38. Comovente. Parabéns pelo blogue. Vim até aqui pelas sugestões do Público online.

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  39. ... e este também. Parabéns "Paulinho".

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  40. Fausto Viegas (Norte)31 de outubro de 2010 às 15:41

    Disse-o na anterior publicação que este texto está brilhante e que a sensibilidade do escriba não me surpreende, carago -:)

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  41. Texto sensacional e bom blog. Regressarei.

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  42. LINDO!!!! Brutal de sensibilidade.

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  43. U de União. U de Unidade. U de Universalidade.
    Muitas vezes é preciso quebrar rotinas para abrir a mente para escutar o outro e compreender a sua história de vida.
    Este tipo de dinâmicas são muito importantes para facilitar a interação grupal e devem ser feitas desde tenra idade.

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  44. não conhecia... sem palavras...

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  45. É isso mesmo. Cada vez parecemo-nos mais com bombeiros a apagar os fogos dos problemas familiares que afectam os nossos alunos.
    Alguns dirão que tudo vai desabar à escola e, depois, lá temos nós que fazer de psicólogos destes jovens...

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  46. Fabuloso. Que murro no estômago.

    Ricardo Sousa.

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  47. Infelizmente é a realidade do dia a dia.
    Beijinhos

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