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quinta-feira, 20 de julho de 2023

Desafio para quem educa

São três frases sobre a juventude. Convido-o ao seguinte exercício: leia as frases e depois, e só depois, olhe para o nome dos autores:



  • "A nossa juventude é mal educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pelos mais velhos. As nossas crianças de hoje não se levantam quando um ancião entra numa sala, respondem aos pais e tagarelam em vez de trabalhar. São simplesmente más" 


  • "Não tenho nenhuma esperança para o futuro do nosso país, se a juventude de hoje lhe assumir o comando amanhã, porque esta juventude é insuportável, sem compostura, simplesmente terrível"


  • "Esta juventude está corrompida até ao mais profundo do coração. Os jovens são malfeitores preguiçosos. Não serão nunca como a juventude de antigamente. Os de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura".


Vamos lá aos autores:



  • 1ª frase: Sócrates, 470-399 a.c..


  • 2ª frase: Hesíodo, 720 a. c..


  •  3ª frase: escrita num jarro de argila nas ruínas de Babilónia: cerca de 3.000 a.c.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Do Universo das Conclusões Óbvias e Graves

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A adicção tecnológica (“há uma explosão da partilha de conteúdos de pornografia e misoginia”), e recuos civilizacionais como quadros de mérito académico para crianças e jovens, só podia dar nisto. Os professores confirmam estes estudos da OMS ("os adolescentes estão mais nervosos e medicam-se mais") e não se cansam de nomear outro problema grave da desestruturação e "ausência" de sociedade na educação: a escola a tempo inteiro que é tantas vezes a educação a tempo inteiro na escola.



"Um quarto dos adolescentes já se feriu de propósito. E são cada vez mais os que tomam calmantes entre os 11 e os 15 anos. Estudo da Organização Mundial da Saúde sobre comportamentos das crianças e jovens entre os 11 e os 15 anos revela que 28% dos adolescentes portugueses sentem-se infelizes e 9% dizem-se “tão tristes que não aguentam" mais. Pandemia agravou mal-estar psicológico, mas há boas notícias no que respeita à alimentação, atividade física e consumo de álcool e tabaco"


"Portugal é dos países onde mais alunos revelam ter uma má relação com o ensino. Um terço dos jovens não gosta de ir à escola, percentagem que tem vindo a aumentar nos últimos anos, indicam os dados do estudo “Health Behaviour in School-aged Children”. Quase 60% dizem sentir “pressão dos pais” para ter boas notas"


sábado, 10 de setembro de 2022

Da História da Burocracia Escolar


Em Maio de 2008 (fui confirmar no blogue na rubrica "estatuto do aluno") dizia-me um responsável por um sistema de informação escolar: "vou ter um trabalhão; o governo acabou com a distinção entre faltas justificadas e injustificadas no básico e no secundário e tenho de reformular a programação do registo de faltas". Disse-lhe: "não mexia nisso, não leio assim a lei e não tarda dizem que afinal é para fazer como dantes". Demorou dois anos.


É evidente que a minha conclusão foi óbvia para quem conhece a nossa sociedade e as escolas. Nesse dia, fiz um post com o seguinte texto que é sempre actual tal o estado de coisas e tudo o que se foi sucedendo neste domínio:





"E dei comigo a pensar num estatuto do aluno. O que vou escrever a seguir é muito a sério, foi objecto de uma atenta e demorada análise.


Proponho, para o regime de faltas, um estatuto sem preâmbulos e com um único artigo.


Os alunos reprovam se excederem o limite de faltas injustificadas a uma das disciplinas, ou áreas curriculares não disciplinares, que compõem o seu programa de estudos. Entende-se por limite de faltas injustificadas, o produto da multiplicação por três do número de aulas semanais em cada uma das actividades referidas. Compete aos directores de turma o estabelecimento dos critérios que consideram uma falta como justificada."


Ministra vai alterar regime de faltas dos alunos


"A ministra da Educação, Isabel Alçada, anunciou hoje que vai alterar o regime de faltas dos alunos e que voltará a haver distinção entre ausências justificadas e injustificadas. A ministra falava na Assembleia da República, na abertura do debate de urgência pedido pelo CDS-PP sobre violência escolar.(...)"





quinta-feira, 28 de julho de 2022

Um desafio para professores

 


 


 


São três frases sobre a juventude. Convido-o ao seguinte exercício: leia as frases e depois, e só depois, olhe para o nome dos autores:


 



  • "A nossa juventude é mal educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pelos mais velhos. As nossas crianças de hoje não se levantam quando um ancião entra numa sala, respondem aos pais e tagarelam em vez de trabalhar. São simplesmente más" 


  • "Não tenho nenhuma esperança para o futuro do nosso país, se a juventude de hoje lhe assumir o comando amanhã, porque esta juventude é insuportável, sem compostura, simplesmente terrível"


  • "Esta juventude está corrompida até ao mais profundo do coração. Os jovens são malfeitores preguiçosos. Não serão nunca como a juventude de antigamente. Os de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura".


 


Vamos lá aos autores:


 



  • 1ª frase: Sócrates, 470-399 a.c..


  • 2ª frase: Hesíodo, 720 a. c..


  •  3ª frase: escrita num jarro de argila nas ruínas de Babilónia: cerca de 3.000 a.c.



 

sábado, 19 de março de 2022

A Propósito da Onda Mediática da Indisciplina Escolar

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Não se conhecem culpas quando a democracia é empurrada para um degrau inferior. Mas decerto que haverá. A escola, por exemplo, pode dar um importante contributo, em duas ou três gerações, para a consolidação da democracia ou para a sua fragilização. Comprova-se, por muito difíceis que sejam os estudos empíricos, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar dos alunos e a confiança nos professores. E a ambição escolar é tão determinante como as condições sócio-económicas.


Como Portugal tem elevadas taxas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia. Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com quem eliminou o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo e a confiança nos professores é preciosa. É um requisito relacional decisivo para a robustez da democracia. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e "cria" escolas para os "mais informados". E é essa segregação social (porque as escolas têm limites de vagas) que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia (é ler Hannah Arendt).


Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciado pela hiperburocracia, pela avaliação de professores em modo administrativo kafkiano e de farsa "meritocrática", pelo estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) e pelo modelo de gestão escolar (um recuo democrático já desaconselhado no século passado). São instrumentos fundamentais que entraram num caminho disruptivo, contribuindo assim de modo indesculpável para a fragilização da democracia.


Texto reescrito.


1ª edição em 10 de Maio de 2012.


 


Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos",


uma intemporal homenagem à democracia.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

em forma de u e até outro dia

 


 



Não sei se o universo mediático já instituiu o Prémio Covid-19 para o mais eloquente elogio aos professores, mas perante esta torrente laudatória os professores, que são os mesmos de há uns meses e de há uns anos, estarão algo perplexos. E neste sentido, lembrei-me de um texto de 2010 que permite, acho eu, um elenco alargado de conclusões e reflexões. (1ª edição em 10 de Maio de 2010)

 

Talvez tenha sido premonitório, talvez. São dezena e meia de alunos e só um vive com a mãe e com o pai. Nos últimos anos é muito assim: vê-se que os miúdos sofrem com isso, mas não é condição que se manifeste definitivamente trágica.


Chegam do intervalo quase sempre em polvorosa. A média de idades ronda os doze anos, a perturbação emocional de uns quantos é acentuada e a conflitualidade é latente.


No dia do U a informação era decisiva: o intervalo foi ainda mais caótico do que o esperado; merecia um início de aula raro e com resguardo cívico. Os bancos suecos formam a habitual linha recta, mas nessa aula a escolha caiu no tal U.


E de repente, nem houve espaço para o caso em apreço: alguém se justificou, com as lágrimas a jorrarem face abaixo, com a descrição de uma cena caseira violenta na noite anterior. O testemunho cativou uma surpreendente e imparável onda de partilhas. A atmosfera era de uma brutal tranquilidade: não se atropelava a outra comunicação, o ruído era inexistente, a comoção sossegava as almas e os relatos absorviam uma adulta vivência emocional. Que fazer? Os quarenta e cinco minutos protocolados para a aula voaram e a catarse parecia envolta numa penumbra iniciática. Tínhamos meia-hora de intervalo pela frente e aqueles pequenos corpos não podiam regressar à selva sem qualquer analgésico. Mas que grande embaraço.


O U ficou de mãos dadas em junção com o único que usou a cadeira. Foi um recurso inopinado. Uma corrente em busca de uma qualquer transcendência. Para tudo há sempre uma primeira vez, diz-se. Uma força colectiva ajudou a que se enchesse de energia o discurso de circunstância. As lágrimas esconderam-se como se dissessem: até outro dia.

domingo, 10 de novembro de 2019

Do Dever de Indignação

 


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O último "prós e contras" abriu com o testemunho de um professor: "já fui agredido sete vezes". Para além da coragem, não é difícil imaginar a brutalidade que um depoimento destes acarreta. Pelo que percebi, e com excepção da moderadora, não se registou a solidariedade ao agredido que estava presente e que até fez mais do que uma intervenção. Ao que saiba (e é seguro dizê-lo propositadamente quase uma semana depois), o Governo não emitiu uma nota indignada e solidária com o agredido e nem sequer ocorreu uma selfie do PR; e convém recordar o que disse um antigo PR sobre o "direito à indignação": "a indignação pode tornar-se violenta se o Governo ignorar o povo". 


A prevenção da "banalização do mal" - esse lento e eficaz processo de vinculação à indiferença - exige o dever de indignação. A agressão a um professor é intolerável. Não é preciso recuar muito para se perceber que era um escândalo numa comunidade. E importa precisar que não há estudos empíricos que concluam da especial violência de uma dada geração. A propósito, um conferencista inglês lançava frases do género, "esta geração de jovens está perdida", intervaladas pelos aplausos da plateia; datou-as no fim: Grécia Antiga, Antiga Roma, Idade Média, Renascimento, Iluminismo e actualidade.  Para além disso, sempre foi complexo liderar uma sala de aula. A liderança é um misto de factores inatos e adquiridos em percentagens impossíveis de normalizar. Os professores não são todos iguais e exige-se o dever de os alunos os respeitarem. Se se subvaloriza a pequena indisciplina, que exige a indignação imediata de todos (a OCDE concluiu, em 2017, que somos os primeiros nesse parâmetro - e há causas identificadas -), a grande indisciplina tem as portas abertas e não apenas sobre os professores.


 


Imagem: registei esta imagem em Vila Nova de Cerveira, no Minho. É a região onde reside e lecciona o professor que testemunhou no programa.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Motivação e Infantilização

 


Pelo que se vai lendo, os professores do ensino superior queixam-se da infantilização dos alunos na relação com uma ideia: não é o professor que tem de motivar. Dizia-me há dias um colega desse grau de ensino: "tive que pedir desculpa, mas não recebi os encarregados de educação. O aluno tinha 21 anos e frequentava o 3º ano da licenciatura. Confirmei posteriormente o que justificou a recusa e fiquei sem qualquer problema de consciência".


Para este estado de coisas, não será estranho o que escrevi em 2016: ""O director de turma tem três dias úteis para informar o aluno adulto que faltou" era a redacção de um artigo do estatuto do aluno que vigorou em boa parte do que levamos de milénio e que traduzia com eloquência a infantilização da nossa sociedade que transformou o sistema escolar num grande primeiro ciclo."

domingo, 27 de outubro de 2019

A Escola no Limiar da Tempestade

 


Acentua-se a falta de professores e os que existem estão, em regra, descrentes, agastados ou radicalizados. Já "só os alunos dão ânimo aos professores", apesar do ruído relacional quando o smartphone é uma dependência central na vida dos alunos. Para além disso, a sociedade contamina a disciplina escolar porque a mediatização diária dos conflitos educativos é geralmente conduzida por analistas, comentadores e dirigentes políticos que se entretêm a reforçar a sabida aversão aos professores ou a necessidade de mais uma "reforma meritocrática"; e são muitos anos nesta ventania.


Por outro lado, a escola perdeu a gestão de proximidade e a massa crítica. O aumento da escala para mega-agrupamentos eliminou a reflexão essencial à mobilização para qualquer ideia de autonomia com pressupostos modernos e desburocratizados de flexibilidade e inclusão, como se comprovou na anterior tentativa no Governo de Guterres que Crato interrompeu intempestivamente. A origem das nuvens carregadas não é a didáctica do ensino, é a organização doentia que está a montante da sala de aula. Portanto, quando o inverno se impuser, e o cansaço se acumular, o agastamento será a primeira pele. A "fuga" de professores será ainda mais grave porque escasseiam substitutos. É bom que se considere, em sede da anunciada revisão da carreira (onde, legitimamente, se esperam temperaturas muito abaixo de zero), que somos um país pobre (em grande parte por causa da "surpreendente dimensão" da corrupção - palavras da ex-PGR -), com baixos salários e empregos pouco atractivos. Como os jovens têm poucas alternativas internas, ainda existem alguns candidatos ao ensino. Mas o estatuto degradou-se e os professores estão há anos numa revolta contida naturalmente contagiante. Contratar precários (ia a escrever recrutar, como tanto gostam os sábios em colaboradores e recursos humanos que nos últimos quinze anos iam "endireitar" de vez os professores) terá as consequências conhecidas. Aliás, há países europeus, como a chuvosa Inglaterra, que são casos de estudo. Ou seja, não é difícil intuir que a escola está no limiar de uma qualquer tempestade.


Nota: afirma-se o propósito da frequência escolar ser um critério suficiente para a passagem de ano. Percebe-se a ideia, implementada noutras latitudes com outros contextos, mas teme-se que na nossa sociedade tenha efeitos tão desastrosos como a liberalização (que durou apenas dois anos lectivos) do número de negativas para as reprovações.


Imagem: Paresh Nrshinga - Inspired by Mark Rothko


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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A Propósito do Pico Mediático da Indisciplina Escolar

 


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Não se conhecem culpas quando a democracia é empurrada para um degrau inferior. Mas decerto que haverá. A escola, por exemplo, pode dar um importante contributo, em duas ou três gerações, para a consolidação da democracia ou para a sua fragilização. Comprova-se, por muito difíceis que sejam os estudos empíricos, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar dos alunos e a confiança nos professores. E a ambição escolar é tão determinante como as condições sócio-económicas.


Como Portugal tem elevadas taxas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia. Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com quem eliminou o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo e a confiança nos professores é preciosa. É um requisito relacional decisivo para a robustez da democracia. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e "cria" escolas para os "mais informados". E é essa segregação social (porque as escolas têm limites de vagas) que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia (é ler Hannah Arendt).


Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciado pela hiperburocracia, pela avaliação de professores em modo administrativo kafkiano e de farsa "meritocrática", pelo estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) e pelo modelo de gestão escolar (um recuo democrático já desaconselhado no século passado). São instrumentos fundamentais que entraram num caminho disruptivo, contribuindo assim de modo indesculpável para a fragilização da democracia.


Texto reescrito.


1ª edição em 10 de Maio de 2012.


 


Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos",


uma intemporal homenagem à democracia.


 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

"Não Quero Queixas da Professora!"

 


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"“Não quero queixas da professora!” No meu tempo de escola, era isto que ouvia sempre que saía de casa... e, como consequência desta consciência parental, tínhamos escolas com menos indisciplina, crianças mais respeitadoras e conhecedoras dos seus limites. Sabiam, logo que saíam de casa, que os professores eram a autoridade e isso ajudava, e muito, em todo o processo de ensino-aprendizagem.


Todos nos lembramos, sem nenhuma saudade, da autoridade com que muitos professores conduziam as suas aulas e se relacionavam com os seus alunos, usando o medo como “arma” pedagógica. Ninguém lá quer voltar! Será que soubemos fazer a transição entre esses abusos, o laxismo e a indisciplina que nos dias de hoje assolam a Escola Pública?


Havia uma noção social de que a escola era um local sério e de respeito. Os professores tinham uma imagem valorizada e prestigiada socialmente, eram vistos como autoridade, eram respeitados pela maioria e quem não respeitava sentia-se mal por isso porque as suas atitudes eram, a maior parte das vezes, condenadas pelos pares.


Não havia necessidade de ter uma polícia própria para as escolas, a maior parte das vezes as “contínuas”, seguranças e professores punham cobro aos atos de indisciplina sem necessidade de recorrerem ao 115 [hoje, o número de emergência é o 112].


Sempre houve rebeldia entre os adolescentes, sempre houve borderliners, sempre houve aqueles mais indisciplinados, mas eram a minoria... E hoje? Hoje está tudo do avesso!


Os pais começam o dia com mensagens completamente erradas quanto à forma e ao conteúdo, como por exemplo:


“Diz à professora que eu autorizo teres telemóvel na escola”;


“Vê com ela se já viu os testes ou não, já o fizeste há dois dias”;


“Pergunta por que é que ainda não deu a folha com a matéria para o teste”;


“Diz à professora que para te castigar tens os teus pais”;


“Vê se é preciso ir falar com ela e dizer-lhe que o teste está mal corrigido”...


... E muitas outras expressões poderia usar, mas quero que percebam o conteúdo. Um mundo de exigências em que os pais transmitem aos miúdos: “Os professores estão na escola para te servir.” É esta a mensagem!


A autoridade desapareceu em grande parte das escolas, parcialmente em algumas e mantém-se em meia dúzia.


Só quem não estudou pedagogia que pode achar que há processo de ensino-aprendizagem sem regras e disciplina.


Hoje somos bombardeados com notícias de violência escolar entre alunos, entre professores e alunos, entre professores e pais e até entre pais... Não será demais? Perdeu-se o respeito social pela escola, esta deixou de ser um local sério e respeitado para ser um simples lugar de apoio à família, para esta ter onde deixar os filhos! Os professores são verdadeiros “bonecos” nas mãos dos alunos, dos pais, das juntas de freguesia, do Ministério da Educação. Todos opinam sobre as suas vidas, sobre a qual têm pouco controlo.


Hoje aquele que não tem falta disciplinar é o que destoa, e o Escola Segura é pouco para tanta escola em aflição disciplinar. A indisciplina é considerada, por muitos, o “cancro escolar”, mas não há ninguém, nem social, nem politicamente que se solidarize com a causa e tome medidas para a erradicar das escolas! Não deveria ser prioridade governativa e de luta sindical?"


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Ainda há quem se surpreenda com estas notícias?

 


 


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Na sequência de outros estudos com conclusões semelhantes (e muito preocupantes), é factual que os últimos anos acentuaram uma escola excessivamente competitiva. É evidente que o actual acesso ao ensino superior condiona todo o edifício educativo. Para além disso, os alunos perderam os espaços não supervisionados. O "espaço livre para brincar" desapareceu. A sociedade capturou a organização escolar com detalhes elucidativos: eliminação do "furo" escolar, redução de intervalos e supressão de espaços não vigiados. Interroguemos assim: ainda há quem se surpreenda com estas notícias?



"O ensino está todo virado para a nota em vez de para o conhecimento académico e das pessoas. E isto é uma escola muito punitiva. É uma escola que existe para enfardar conhecimento e não para fazer com que as pessoas desabrochem", conclui a investigadora Margarida Gaspar de Matos.




Ainda recentemente, Singapura "aboliu os rankings de escolas pelos resultados dos alunos em exames". O Ministro da Educação, Ong Ye Kung, foi taxativo: “aprender não é uma competição”. Os relatórios deixam de publicar a posição de um aluno em relação à turma ou a qualquer grupo. Mas não é apenas isso. As informações a serem removidas incluem:



média das turmas e dos ciclos; notas mínimas e máximas; médias das notas de qualquer grupo de alunos, o que inclui quadros de honra, de mérito e restantes procedimentos análogos; médias gerais de classificações.



A notícia faz ainda outra referência importante:



"O estudo não permite estabelecer nexos causais. Mas Margarida Gaspar de Matos, que além de investigadora é psicóloga clínica, recorre à sua experiência profissional para arriscar algumas explicações susceptíveis de ajudarem a perceber para o cansaço e a exaustão dos jovens: “O stress por causa das notas, o abuso do ecrã e as poucas horas de sono”.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A confiança nos professores e o que diz a lei

 


 


 


artigo 42º do Estatuto do Aluno é taxativo e devia atenuar, no mínimo isso, o inferno de invenções burocráticas (incluindo a digital) que alimenta a cultura organizacional de muitas escolas estimulada, em grande parte, pelos serviços centrais do respectivo ministério.


 


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domingo, 28 de outubro de 2018

A escola e a fragilização da democracia

 


 


 


Não se conhece uma assumpção de culpa quando a democracia é empurrada para um degrau inferior. Mas decerto que há justificações. A escola pode dar um importante contributo, em duas ou três gerações, para a consolidação da democracia ou para a sua fragilização. Comprova-se, por exemplo, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar dos alunos e a confiança nos professores, por muito difíceis que sejam esses estudos empíricos. E a ambição escolar é tão determinante como as condições socioeconómicas.


Como Portugal tem elevadas taxas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia. Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com quem eliminou o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo e a confiança nos professores é preciosa. É um requisito relacional decisivo para a robustez da democracia. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e "cria" escolas para os "mais informados". E é essa segregação social (porque as escolas têm limites de vagas) que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia (é ler Hannah Arendt).


Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciada, desde logo, pela hiperburocracia, pela avaliação de professores (a farsa "meritocrática"), pelo estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) e pelo modelo de gestão escolar (um recuo democrático já desaconselhado no século passado). São instrumentos fundamentais que entraram num caminho disruptivo, e em que a actual maioria estranhamente não toca, contribuindo assim de modo indesculpável para a fragilização da democracia (e, depois, admiramo-nos).


 


Reescrito.


1ª edição em 10 de Maio de 2012.


 


 


Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos",


uma intemporal homenagem à democracia.


 


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sábado, 27 de outubro de 2018

A ambição escolar, o curto prazo e a confiança nos professores

 


 


 


 


A relação entre a qualidade da escola e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora sejam difíceis os estudos empíricos num assunto que exige modelos consolidados, é seguro afirmar que os alunos são decisivos. 


A ambição escolar é tão determinante como as condições socioeconómicas. Como Portugal apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia.


Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo. É possível, por exemplo, erguer algo de significativo em meia dúzia de anos, numa escola ou num sistema escolar, ou destruir o que levou anos a construir.


E é também por isso que a confiança nos professores é tão determinante e preciosa como a ambição escolar dos alunos. É um requisito relacional decisivo. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha da escola pelos "mais informados". E é essa inaceitável segregação social que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.


Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciada, desde logo, pela hiperburocracia. Se a avaliação de professores (uma falsa "meritocracia") e o estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) estão na memória colectiva com efeitos negativos comprovados, o modelo de gestão escolar (um recuo já desaconselhado no século passado e que até os mentores mais optimistas reconhecem na aplicação a fragilização preocupante da atmosfera democrática) segue o mesmo caminho disruptivo; apesar de mais silencioso e menos mediatizado. São instrumentos fundamentais em que a actual maioria estranhamente não toca.


 


1ª edição em 10 de Maio de 2012.


Reescrito e em actualização.


 


Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos"


 


 


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sábado, 24 de fevereiro de 2018

O não na agenda educativa

 


 


 


"A formação da personalidade apoia-se na sua negação", é uma verdade educativa intemporal. Por mais que os destinatários reajam (e é bom que o façam), o "não" é desejado, necessário e útil.


Outra verdade prende-se com a necessidade do "não" escolar aos encarregados de educação (não educacional, organizacional e curricular, obviamente) e que a lógica do "cliente tem sempre razão" tem eliminado. É evidente que haverá encarregados de educação mais "tudólogos" ou necessitados da sensatez do não escolar, que confundem o "outro" com o "igual" na educação das crianças e jovens e que desvalorizam a importância destas questões para a saúde da democracia como sublinharam Hannah Arendt e muitos outros. A gravidade acentua-se se a desinformação atingir autoridades escolares.


 


3ª edição.


 


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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

da democracia na escola: entre o passado e o futuro

 


 


 


 


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A confiança nos professores, e na sua autoridade enquanto educadores que transportam saberes nucleares, tem um relação decisiva com o futuro da democracia e com as boas aprendizagens dos alunos. A liberdade de aprender e ensinar é um direito inalienável para alunos e professores e há história suficiente para eliminar equívocos quanto aos efeitos. Há um património docimológico com exigências democráticas. É surpreendente que, na ânsia do controlo das salas de aula e num exercício de nivelamento por baixo (ou seja, constroem-se procedimentos centrados na "caça aos desvios", arrasta-se a organização para esse nível e elimina-se a ousadia), sejam os professores a dar corpo à conjugação obsessiva de verbos destinados ao controle burocrático e à consequente crise através do clima de faz de conta.



“(...)uma crise na educação suscitaria sempre graves problemas mesmo se não fosse, como no caso presente, o reflexo de uma crise muito mais geral e da instabilidade da sociedade moderna.(...)”.




Arendt, H. (2006:195).


Entre o passado e o futuro.


Oito exercícios sobre o pensamento político.


Lisboa: Relógio D´Água.


domingo, 12 de novembro de 2017

do contra-ciclo escolar com a Europa

 


 


 


 


Reduzimos o abandono escolar em contra-ciclo com a (reconfigurada; e decadente?) Europa e confirmamos que o aumento da escolarização das sociedades influencia em quase 70% as taxas de frequência e os resultados das aprendizagens. Portugal reforça as conclusões ao atenuar, neste indicador, a influência da delapidação dos determinantes 30% da organização escolar por razões financeiras. "Não há vida escolar para além do défice", explica parte da imobilidade governativa. Há tantas epifanias - que a conjuntura simulou como estruturais - que tardam a mudar, que cresce a apreensão: o Governo revê-se nas políticas escolares do primeiro governo de Sócrates? 


"O director de turma deve ser avaliado, com pontuação rigorosa e quotas, pelo abandono escolar dos alunos". A frase que escolhi (não excessivamente técnica), dita com convicção por Lurdes Rodrigues, sintetizou um conjunto neoliberal de "Novas Políticas de Gestão Pública" que degradaram a organização escolar.


A desconstrução da frase encontra a desresponsabilização da sociedade, as crianças-agenda, os jovens-vigiados, o "aluno-rei", os professores "agentes recreativos e multi-profissão" e o modelo taylorista de escola com primazia da lógica, "impensada" em educação, do "cliente-tem-sempre-razão".


Insatisfeita, a PàF acrescentou: alunos por turma, turmas por professor, indústria da medição alargada aos mais pequenos e disciplinas hierarquizadas (dito assim como eufemismo).


Com uma década assim, não faltam, portanto, pontos fundamentais para agendar se o Governo recusar a interrogação do primeiro parágrafo e olhar para o futuro.


 


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Algures no Oeste de Portugal.


Novembro de 2017.

sábado, 5 de agosto de 2017

do não na agenda escolar

 


 


 


"A formação da personalidade apoia-se na sua negação", é uma verdade educativa intemporal. Por mais que os destinatários reajam (e é bom que o façam), o "não" é desejado, e inconfessado, pelos educandos, necessário e útil.


Outra verdade é a necessidade do "não" escolar aos encarregados de educação (não organizacional e curricular, obviamente) que a lógica do "cliente tem sempre razão" tem eliminado. Há encarregados de educação mais "tudólogos", ou necessitados da sensatez do não escolar, que confundem o "outro" com o "igual" na relação com os educandos e que desvalorizam a importância destas questões para a saúde da democracia como sublinharam Hannah Arendt e muitos outros. A gravidade acentua-se se a desinformação atinge agentes escolares.


 


3ª edição.


 


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