Talvez tenha sido premonitório, talvez. São dezena e meia de alunos e só um vive com a mãe e com o pai. Nos últimos anos é muito assim: vê-se que os miúdos sofrem com isso, mas não é condição que se manifeste definitivamente trágica.
Chegam do intervalo quase sempre em polvorosa. A média de idades ronda os doze anos, a perturbação emocional de uns quantos é acentuada e a conflitualidade é latente.
No dia do U a informação era decisiva: o intervalo foi ainda mais caótico do que o esperado; merecia um início de aula raro e com resguardo cívico. Os bancos suecos formam a habitual linha recta, mas nessa aula a escolha caiu no tal U.
E de repente, nem houve espaço para o caso em apreço: alguém se justificou, com as lágrimas a jorrarem face abaixo, com a descrição de uma cena caseira violenta na noite anterior. O testemunho cativou uma surpreendente e imparável onda de partilhas. A atmosfera era de uma brutal tranquilidade: não se atropelava a outra comunicação, o ruído era inexistente, a comoção sossegava as almas e os relatos absorviam uma adulta vivência emocional. Que fazer? Os quarenta e cinco minutos protocolados para a aula voaram e a catarse parecia envolta numa penumbra iniciática. Tínhamos meia-hora de intervalo pela frente e aqueles pequenos corpos não podiam regressar à selva sem qualquer analgésico. Mas que grande embaraço.
O U ficou de mãos dadas em junção com o único que usou a cadeira. Foi um recurso inopinado. Uma corrente em busca de uma qualquer transcendência. Para tudo há sempre uma primeira vez, diz-se. Uma força colectiva ajudou a que se enchesse de energia o discurso de circunstância. As lágrimas esconderam-se como se dissessem: até outro dia.
Só tu!!!
ResponderEliminarLindo! Lindo! Lindo! Obrigada. Muito comovente.
ResponderEliminarChocante. Não consigo mais do que imaginar.
ResponderEliminarMuito muito lindo!
ResponderEliminarSoberbo, simplesmente soberbo.
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ResponderEliminarSer professor é...tb isto. Comovente.
Brilhante, carago. Rara sensibilidade a tua, meu amigo.
ResponderEliminarSem palavras.
ResponderEliminarOs sentimentos são silenciosos...
Aquele abraço.
reb
Comovente, Paulo.
ResponderEliminarBjo
Sem palavras. Texto enorme
ResponderEliminarExcelente texto, Paulo! Esta é, infelizmente, a realidade com que, diariamente, nos confrontamos nas nossas escolas.
ResponderEliminarPaulo:
ResponderEliminarEste texto não pode morrer, caramba!
Lindo! Lindo! Lindo!
ResponderEliminarMaravilhoso e triste. Só o Paulo.
ResponderEliminarSubscrevo.
ResponderEliminarSorte do país que tem professores assim.
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ResponderEliminarConsigo ver a cena...e acredito que esse momento não vai esquecer a nenhum deles. Dói saber que andam por aí tantas crianças anónimas a fervilhar de angústias.
Excelente texto, Paulo! Vou bem melhor do que entrei :)
ResponderEliminarSolução óbvia: nada de aceitar alunos de pais casados. O tempora!
ResponderEliminarMagnífico texto.
ResponderEliminarMiúdos azarados cheios de sorte. Parabéns pela escrita, ideias e sensibilidade.
ResponderEliminarEscreves muito bem, Paulinho!
ResponderEliminarE se complementasses a tua formação com uma aprendizagem dentro da psicologia?
Viva Margarida.
ResponderEliminarDesde já um obrigado a todos pelas vossas palavras.
Uma saudação especial aqui para a Margarida - tenho ideia que é a primeira vez que insere um comentário - que é uma amiga dos tempos do liceu e que não vejo desde essa altura. Já nem me recordava do Paulinho nesse tom tão agradável.
O link não abre
Braga está à tua espera, quando quiseres...
ResponderEliminarBjinhos.
Guida
É por causa destes "bocados" de escola que ainda tenho orgulho em ser professora.
ResponderEliminarDe resto, acho que já disseram tudo. É sempre um prazer vir a este blog.
Fabuloso, fantástico, maravilhoso...
ResponderEliminarObrigada por partilhares estes pequenos/grandes momentos connosco. Sandra
Texto deslumbrante. Levo-o comigo. Obrigado.
ResponderEliminarSem palavras...
ResponderEliminarTocante e muito bem relatado. Não me surpreende.
ResponderEliminarViva Abel.
ResponderEliminarIrmão da Guida?
ResponderEliminarMuito bonito. Concordo com muitos comentadores: comovente!!!
Não. Tenho dois irmãos. Não o conheço pessoalmente. Leio muitas vezes o seu correntes mas nunca comentei.
ResponderEliminarEste texto é espantoso. Continue. Parabéns.
Viva.
ResponderEliminarObrigado.
Beijo a todos por aí
Viva miúda.
ResponderEliminarTb sei que não foi aquele dia para ti. És grande, muito grande
Entre a poesia e a prosa, inscrevem-se duas sensibilidades - a de quem "lê" (entre aspas porque pode ser escuta ou vê) e a de quem a "produz" (escreve, desenha, pinta, oraliza...)... Mas é a realidade que cobre essas sensibilidades... Para a existência destas não há garantia... Para a incontornabilidade da outra não conheço escapatória...
ResponderEliminarO "arranjo" deste teu texto, o que tu lhe deste, é "prova provada" de que te inseres no quadro de quem tem as acima alegadas sensibilidades - porque o "produziste" e porque com ele consegues despoletar a reflexão, ainda que mínima seja, sobre a segunda componente - a, por vezes, como parece ser o caso, "malfadada" REALIDADE"...
[]
Texto belíssimo Paulo. A nossa Santo Onofre magoa com tanto oportunismo. Estão a dar cabo da nossa escola.
ResponderEliminarA Ministra da Educação veio pronunciar-se em público sobre o caso concreto do suicídio do professor de Sintra.
ResponderEliminarMesmo estando o processo em segredo e a decorrer.
Percebe-se agora a vergonhosa posição do psiquiatra de serviço Daniel Sampaio…..
Se quiserem recorrer para a ministra do arquivamento do caso, já sabem a resposta….
é tudo farinha do mesmo saco
às perguntas do DN de hoje a seguir, respondeu a Ministra da Educação:
Pergunta:
Essa agressividade tem gerado casos de suicídio como os que foram noticiados nas últimas semanas.
Resposta:
Não, isso não é verdade. Eu partilho absolutamente da visão e da análise que o professor Daniel Sampaio tem feito e vindo a publicar. Ele chama a atenção para os casos-limites, como é o caso de um suicídio, e refere que nunca é apenas devido a um factor externo. Nunca é só a profissão, a situação familiar ou a situação amorosa, há uma conjugação de factores que têm a ver com a personalidade das pessoas.
Pergunta:
São casos extremos?
Resposta:
É um caso extremo. Ainda por cima, a escola não é um local onde se morra. Uma pessoa admite que num hospital possa haver uma fatalidade tremenda, mas quando um jovem ou um adulto jovem morre é tremendo e a escola fica num estado de consternação. O que temos de fazer é dar apoio, é isso que nós temos feito.
Pergunta:
O caso do Leandro e o do professor que se atirou da Ponte 25 de Abril colocaram o ministério numa situação complicada?
Resposta:
O ministério tem há vários anos um gabinete de segurança escolar e um observatório de segurança escolar exactamente para prevenção dessas situações e para actuar. Evi- dentemente que são circunstâncias trágicas as da morte de uma pessoa numa escola. Nós sofremos, mas não é só por isso que actuamos – é que sabemos que os pais entregam os filhos às escolas para que estejam em segurança.
Uma história comovente que seria óptimo se não se tivesse que a contar. Infelizmente a realidade da sociedade contemporânea obriga que histórias destas tenham de ser relatadas.
ResponderEliminarEm todo o caso é comovente, de facto.
Excelente Paulo!
Divinal, subscrevo.
ResponderEliminarMemorável. Parabéns.
ResponderEliminarHá algum tempo que não passava pelo seu blog. Enviaram-me a ligação a este texto e guardei-a. Li só agora e comoveu-me. Você é nobre e enaltece a sua profissão. Fraterno abraço.
ResponderEliminarViva Amélia.
ResponderEliminarMuito obrigado.
Lindo.
ResponderEliminarLinda prosa. Surpreendente. O assunto deixa-nos desarmados, como é evidente.
ResponderEliminarExcelente texto. Parabéns.
ResponderEliminarGenial.
ResponderEliminarGenial, Paulinho.
ResponderEliminarExcelente texto, mas excelente mesmo.
ResponderEliminarComovente. Parabéns pelo blogue. Vim até aqui pelas sugestões do Público online.
ResponderEliminarObrigado Lopes.
ResponderEliminar... e este também. Parabéns "Paulinho".
ResponderEliminarBRUTAL!!!
ResponderEliminarDisse-o na anterior publicação que este texto está brilhante e que a sensibilidade do escriba não me surpreende, carago -:)
ResponderEliminarObrigado Fausto
ResponderEliminarDivinal!
ResponderEliminarTexto sensacional e bom blog. Regressarei.
ResponderEliminarLindo.
ResponderEliminarLindíssimo.
ResponderEliminarA forma aqui era outra, que raio
ResponderEliminarLINDO!!!! Brutal de sensibilidade.
ResponderEliminarDivinal.
ResponderEliminarU de União. U de Unidade. U de Universalidade.
ResponderEliminarMuitas vezes é preciso quebrar rotinas para abrir a mente para escutar o outro e compreender a sua história de vida.
Este tipo de dinâmicas são muito importantes para facilitar a interação grupal e devem ser feitas desde tenra idade.
não conhecia... sem palavras...
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarÉ isso mesmo. Cada vez parecemo-nos mais com bombeiros a apagar os fogos dos problemas familiares que afectam os nossos alunos.
ResponderEliminarAlguns dirão que tudo vai desabar à escola e, depois, lá temos nós que fazer de psicólogos destes jovens...
É Pedro.
ResponderEliminarGanda texto!!!
ResponderEliminarObrigado.
ResponderEliminarFabuloso. Que murro no estômago.
ResponderEliminarRicardo Sousa.
Obrigado.
ResponderEliminarInfelizmente é a realidade do dia a dia.
ResponderEliminarBeijinhos
Um abraço também.
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