sexta-feira, 26 de junho de 2020

Das Actas e do Escolar

As actas escolares não são apenas insensatas no acto de registo: é também nos procedimentos preparatórios e nos conceitos subjacentes que mergulham em sistemas de informação com processos muito insuficientes de análise e programação. É muito interessante o texto sobre actas que encontrei no facebook de Luís Sottomaior Braga.



"As atas são um dos passatempos nacionais. A obsessão detalhista doentia resulta, em muitos casos, de muito frágil conhecimento do direito aplicável e duma razoável falta de senso. E não falemos do absurdo de serem em papel, por ninguém ainda ter percebido o que é uma assinatura digital. Eu costumo brincar e dizer: fui secretário da mesa de uma Misericórdia. Em 6 anos de funções, fiz atas de vários concursos públicos, com valores acima dos 500 mil. As atas foram sempre menores que atas escolares, que, muitas vezes, nem contêm decisões, o que é a negação do conceito. A leitura sumária das leis mais focadas na educação leva a esquecerem-se regras gerais, que não estão revogadas no ministério da educação, e a que arbitrariamente se inventem regras por apetite. Por exemplo, trancar as linhas de atas escritas num computador ou escrever números por extenso, ao lado dos algarismos. Era assim no tempo das atas manuscritas, mas já não estamos nesse tempo. Arbitrário porque não fundado. Mesmo o ciber dúvidas fraqueja a esclarecer (por exemplo na questão dos algarismos), mas indicia a arbitrariedade. Este ano, se me obrigarem a trancar atas, vou trancar, porque sou obediente, mas vou pedir o fundamento legal. Não há. Até há uma norma do CPA sobre desburocratização, que merecia ser revisitada (ou conhecida). Como eu digo nestas coisas: a resposta a burocracias ocas é burocrata e meio esclarecido. A desburocratização são pequenos passos. #burocracias #atas #escolas #professores #educação"


2 comentários:

  1. Mais uma vez, culpa do ME, que deixa as escolas, em modo de autonomia, que é o mesmo que, ao sabor do freguês.
    Não podiam implementar um modelo de preenchimento lacunar ou com cruzinhas? Não me queixo por mim, que não tenho dificuldade em realizar atas longas durante a própria reunião, mas sou sensata e reconheço a perda de tempo e energia que é a feitura de uma ata com os seus qui pro quo. É bizarro.
    Dantes, alunos e professores passavam menos tempo na escola, embrulhados em inutilidades, e sabiam mais. O negócio é a negação do ócio e as épocas históricas que com mais avanços brindaram a humanidade foram épocas que valorizaram o ócio, como tempo de produtividade. Hoje, os professores têm de estar ocupados a fazer coisas e coisinhas, se não correr-se-ia o risco de ver professores a aprender, a estudar, a pensar e a criar e isso pode ser muito perigoso.
    Tempos houve, em que personalidades como Vergílio Ferreira e Rómulo de Carvalho, eram digníssimos professores do ensino secundário, claro, que nesse tempo Óscar Lopes fazia palestras de abertura do ano escolar no ensino secundário. Estou mesmo a ver, Vergílio Ferreira a gastar o seu génio a fazer atas.
    Se libertassem as escolas do trabalho de fioco, muitos bandos esvoaçariam esparvalhados sem saber onde pousar e o que fazer, por horror aos livros, impondo essa doença aos outros. Daí essa necessidade de empalhar de desperdícios o tempo dos outros.
    Professor que se preze na atualidade, quer-se com a cabeça metida na areia como a avestruz, técnico obediente, sem iniciativa e autonomia, virado como o girassol para o sol da tutela ou da hierarquia, verdadeiro cultor do seu eco. Mais papista do que o Papa.
    Depois, claro, quem se admira, que cidadãos gerados numa escola nestes moldes, achem normal, que Trump e Bolsonaro sejam eleitos por cidadãos livres, e que covida-me para a tua festa, seja uma prática, de jovens adultos, muitos universitários, inconsequentes, alienados e nada empáticos, vivendo nas bolhas da gamificação e dos Big brothers. Quem dá crédito ao que dizem professores que ganham 1300 euros por mês ao fim de 30 anos de trabalho, em contraste com participantes no Big Brother que fazem 6.000 ou 7000 por mês, se não quiserem ter a maçada de fazer muitas presenças. No princípio o espetáculo em exibição era a boçalidade, agora, normalizado, é modelo. Quem se espanta, o espírito crítico foi escorraçado da escola.

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