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domingo, 10 de julho de 2011

dos anjos

 


(Este texto não é inédito. Foi reescrito e adaptado.


O original foi publicado pela revista Risco,


da Porto Editora, algures na mudança de milénio)


 


 


 


Apetece-me dar voz à escola. Desculpem-me a ousadia. Elevo-a a uma entidade nivelada pelos anjos de Rilke misturada com as capacidades da Blimunda de Saramago, que antes de deglutir a sua côdea via os Homens mais por dentro do que por fora; como convém. Elevar a escola e deixá-la ver-nos por dentro terá algumas desvantagens.


 


Não pretendo mostrar-vos um libelo acusatório dos encarregados de educação. Elevei-os à categoria dos belos, mesmo sabendo que podem ser terríveis e capazes de nos destruir.


 


Opina-se com ligeireza sobre o valor da escola. Não lhe elevam a importância. Acolhem-se nela quando os argumentos estão aflitos de razão. Pensar que a relação da escola com os encarregados de educação se esgota nos mecanismos formais existentes, é de uma inverdade comprovada. Mais do que o tradicional encontro com o director de turma, associado às ténues presenças nos órgãos de gestão das escolas, é uma relação cheia de mistérios não explicados e convenientemente imergidos.


 


Mais do que erradicar a “exclusão escolar, pede-se à escola que elimine a exclusão educativa. Continua certo que o “índice socio-económico das famílias” representa o princípio dos obstáculos. São certas as desvantagens das crianças mais pobres de riquezas materiais. Mas a escola vê, com clareza e no amargo jejum conhecido, para além desse mensurável indicador.


 


Importa falar-vos dessas confidências que renovam a esperança com as presenças dos encarregados de educação. São legiões e estão sempre sobrevoando. Aparecem, mesmo quando a atmosfera de emancipação juvenil não o aconselha. Falam aos jovens, questionam-nos e aborrecem-nos. Dizem-lhes que não para que aprendam a fazer o mesmo. E desses, mais ricos ou mais pobres, nota-se a sua permanente presença na escola mesmo que com uma aura de invisibilidade. Não, os belos anjos nem sempre são terríveis.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

do sorriso

 


(Este texto não é inédito. Foi reescrito e adaptado.


O original foi publicado pela revista Risco,


da Porto Editora, algures na mudança de milénio)


 


 


 


As actividades desportivas estão cheias de risos. É conhecida a assembleia televisiva para os gestos desportivos mais bizarros. Quando a atmosfera motora exige a perfeição, os proscritos são premiados com uma valente salva de gargalhadas.


Quem não se riu com o nadador africano nas Olimpíadas de Sidney, que quase morria afogado nos primeiros vinte e cinco metros? Mesmo que se considere que o jovem da Guiné-Equatorial treinava num charco com vinte metros de comprimento, esse foi um exemplo flagrante de que ou se ri ou não se ri. E daí só vem bem ao mundo.


É o sorriso que me apetece convocar. Se o meu caro leitor chegou até aqui, então faça mais um pequeno esforço e vá até ao fim.


 


Vários dualismos atravessam o pensamento ocidental. O riso e o sorriso são mais uma dimensão. Não o são exactamente, mas ajeita-me os escritos que os consideremos. Muitos eruditos tentaram ultrapassar esse maniqueísmo binário. Hegel e Marx quiseram assegurar o princípio da simultaneidade. Todavia, ninguém foi capaz de encontrar a fórmula mágica. Seria genial a mestria docente capaz de ensinar em ambiente de pleno riso e sorriso. O riso é imediato, aparentemente ingénuo ou inocente. Rir às gargalhadas só está ao alcance do gesto espontâneo. Por isso, só depois de rir alguém questionará o significado do seu acto. O sorriso é mais elaborado e enigmático. Pode ser de encantamento, mas também de troça. Quantas vezes não foi um simples sorriso que mudou o nosso mundo de angustias e preocupações? Quantas vezes não foi um simples sorriso que despertou e absorveu toda a nossa atenção? O sorriso mais saboroso é aquele que se prolonga no tempo ou que é o resultado de um tempo quase todo.


 


Mesmo no desporto, o sorriso pode ser elaborado ou prolongado. Lembro-me de um jogo de basquetebol escolar. No início da segunda parte, quando é suposto as equipas trocarem de campo, nada disso foi feito. O equívoco durou uns 30 segundos, mas só uns quantos deram conta. Seguiram-se momentos muito engraçados. Colegas de equipa em perfeita discórdia não verbal. Um jogador insistia em meter a bola no próprio cesto, mas era impedido de forma decidida pelo colega esclarecido. Nunca mais o jogo foi o mesmo. Todos sorriam. Estabeleceu-se um clima de perfeita harmonia. Conseguiu-se um momento único de “fairplay”.


 


Sou um adepto do sorriso. Principalmente do que resulta de um tempo longo de espera e de um jogo de paciência. Privilegio, sem hesitações, os sorrisos provocados pela quebra de um dogma. Qual Galileu ao ouvir o anúncio papal na segunda metade do século xx. Sempre foram trezentos anos de espera. E já agora: como é que se poderá falar do sorriso dos inquisidores?