Steve Jobs batalhou muito dentro da Apple para que o Filemaker fosse a principal base de dados da empresa. Sem esse esforço, e sem essa inigualável capacidade visionária, talvez a aplicação nem tivesse conhecido a década de noventa do século passado. Estamos-lhe gratos também por isso e a comunidade Filemakeriana, de que me orgulho de fazer parte, não pára de o reconhecer.
Deuses e monstros
ResponderEliminarpor Sérgio Lavos
Quando decidi ter uma opinião sobre Steve Jobs e o seu legado ao mundo, mal sabia no que me estava a meter. Eu, que até cultivo o hábito de respeitar qualquer religião organizada e até mesmo seita desorganizada, cutuquei um vespeiro de seguidores assanhados, e pelo que tenho lido no Facebook e em blogues, quem se atrever a criticar sua eminência correr o risco de ser enterrado vivo sob uma pilha de maçãs apodrecidas.
E eu até tive respeito pela sua morte. Limitei-me a duvidar da aura de santidade do homem. Não era perfeito. Ninguém é. Nem Ghandi, nem a Madre Teresa de Calcutá. Nem sequer a princesa Diana. Ainda assim, esta seita de consumistas da terceira vaga não me tem poupado.
Quero dizer desde já que lamento o meu gesto. Como o cartunista dinamarquês que se atreveu a caricaturizar Maomé, eu pequei e devo ter ficado a um passo do Inferno. Do Inferno pós-moderno, sem acesso a banda larga, sem iPad e sem iPhone para toda a eternidade. Sem conseguir ouvir música de outra forma que não seja através do formato MP3 - para que servem mesmo aqueles círculos de plástico preto com um buraco no meio? -, sem poder apanhar versões piratas de filmes na Net. Não quero isso. Não quero porque admito que sou, como todos nós, um pecador. Eu me confesso: consumo, uso telemóvel, tenho um portátil, visto-me e lavo os dentes. Tenho a certeza de que, no meu dia-a-dia, também eu contribuo para a exploração de crianças em fábricas no extremo-oriente; aceito que alguns dos operários que se mataram por trabalharem em condições de exploração extrema em fábricas chinesas estavam a trabalhar para mim e para os meus hábitos. Sou um assassino por procuração, um verme que não é melhor do que qualquer capitalista que decide deslocar fábricas para países onde possa explorar trabalhadores sem que nada lhe aconteça. É verdade que o dono de uma multinacional tem sempre a opção de manter-se justo na relação com os seus empregados. E que não o faz porque visa o máximo lucro. Mas caramba, as minhas mãos estão tão sujas de sangue como as dele. A culpa é minha, que decidi viver nesta sociedade e não me tornei um eremita hippie, sendo obrigado a consumir produtos fabricados por trabalhadores explorados. Mea culpa.
Quando li o livro de Alexandre Lucas Coelho, Viva México, e percebi como funcionava o tráfico de droga naquele país, pensei como um hipócrita. Uma grande parte da população nas cidades fronteiriças com os EUA está, de uma maneira ou outra, envolvida no tráfico. E porquê? Porque a alternativa é, quase sempre, trabalharem em fábricas que multinacionais norte-americanas construíram perto da fronteira. Em condições desumanas, com turnos de 16 horas e um ordenado miserável, ajudando a produzir produtos de luxo - roupa de marca, artigos de informática, etc. - que são vendidos a um preço final que multipica por milhares o preço de custo. Os que se envolvem no tráfico, por sua vez, contribuem também para o consumo do país vizinho. Os americanos dependem da parasitagem do seu vizinho México para manterem a sua economia predadora a funcionar. E quem fala em México, fala em todos os países onde as multinacionais se instala. É essa a natureza do capitalismo. Mas repito, pensei como um hipócrita. Porque uma das multinacionais instaladas em Ciudad Juarez (a cidade mais perigosa do mundo, com uma média de 3 pessoas assassinadas por dia) é a Hugo Boss e eu em temos usei um perfume deles. Oferecido, mas ainda assim, consumi. Sou um assassino.
Será que assim expiei os meus pecados? Admitindo que não consigo fugir ao círculo vicioso da exploração capitalista, estou perdoado por ter blasfemado contra o Deus na Terra, Steve Jobs? O visionário, o artista, o criador, o salvador de tanta vida triste, de tanta pobre alma que sem iPad ou iphone ou iLiving penaria no vazio da existência. Devemos-lhe tanto... quem foi Alexandre Fleming, perto dele? Ou Pasteur? Ou Thomas Alva Edison? Ou Einstein? Ou os parasitas do mundo, artistas como Picasso, Pessoa, Griffith? Nada, ninguém, zero. O meu
Viva Joseph.
ResponderEliminarEstava a escrever um post, mas nem sei se o vou concluir, exactamente sobre isso.
Uso Apple desde 1986 e com total fidelidade. Tb sou um incondicional da base de dados Filemaker, desde 1990. Não imagina o que fui passando ao longo de mais de 20 anos por ser tão minoritário. Estórias muito risíveis. Para além do design dos produtos, a paixão pela Apple deve-se ao incomparável software (só mesmo usando muito é que se percebe) que vem da década de oitenta do século XX. Imagina a minha surpresa nestes dias. O registo do texto que aqui nos trouxe é tão fanático com a crítica que encerra.
E como vão, agora, sobreviver os maluquinhos das geringonças informáticas?
ResponderEliminarNo more Jobs for them (infelizmente).
A isso é que já não posso responder, Asinus. Tenho ideia que o ocidente está com tantos problemas de sobrevivência que esses nem serão os mais difíceis de resolver.
ResponderEliminarO sr. Jobs ("Steve" para os amigos) agigantou-se, sobretudo, pela sua estatura ética (a sua lição em Stranford University, por exemplo, é de antologia!), não tanto pela interminável tralha - quanta dela desnecessária - com que enfeitiçou legiões de basbaques.
ResponderEliminarComo já referi, o sistema operativo da Apple e algum do software da mesma família, o Filemaker, por exemplo, são excelentes e fizeram a diferença. Concordo que houve gadgets com objectivos mais comerciais do que outra coisa qualquer. Mas como tinham o mesmo software e um design muito apelativo, tornaram-se no que se sabe. Até ao ipod a Apple era muito minoritária. Quando comprei o primeiro Apple (1986) já trazia o office da Microsoft que funcionava num registo que o windows veio a adoptar em 1995 (as famosas janelas). A Microsoft tinha o cuidado, e tem, de criar um design muito mais apelativo para os Apple do que para os denominados pc´s. É uma longa história que não deve merecer registos tão apaixonados e radicais que mais pareçam uma argumentação um bocado infantil.
ResponderEliminarSobre a estatura ética do Steve Jobs sei pouco. Conheço algumas das suas frases, sei da que refere, e vi algumas das suas apresentações. Como imagina, software e hardware era o que me interessava mais. O que refere são assuntos muito recentes mesmo. Terão uns cinco anos e a história da empresa já leva uns 30 e nem sempre com altos. O Steve Jobs foi despedido na década de 90 e aquilo quase que faliu.
ResponderEliminarNão, foi na década de oitenta.
ResponderEliminarDepois, providencialmente, a engenhoca de fazer animação que criou foi um sucesso, voltou para a Apple (agora, sim, anos 90) e a sua tralha começou a vender que nem castanhas quentes. E tudo ficou bem.
Cumprimentos.
Tem razão. Saiu em 1985 e regressou em 1997. Mas mesmo nesse período, o seu nome e o de Steve Wozniak, outro Steve, continuavam ligados ao espírito do software e da empresa. Os utilizadores reclamavam insistentemente o regresso. Lembro-me de ter participado numa inundação de mails, aí por volta de 1996, para a Apple a exigir isso mesmo. A empresa estava na iminência de desaparecer, até pelo aparecimento do windows da microsoft um ano antes. Só o Jobs regressou.
ResponderEliminarSteve Jobs morreu com a minha idade. Trata-se da minha geração, que revolucionou o mundo. Admiro os maiores da minha geração.
ResponderEliminarSteve Jobs não é mais nem menos - em qualquer plano que se considere, seja o da inovação, seja o do sucesso empresarial - do que o patrão da Microsoft ou o da Oracle, ou o da defunta Sun ou o da Amazon. Todos eles nos deram coisas notáveis.
A maior parte do génio de Steve assim como o de Bill Gates é empresarial. Steve Jobs não inventou nada que não necessite do acrescento de uma lista incrível de contribuições individuais começando pelas de Woniack.
Os tablet computers não eram nada de novo quando apareceu o Ipad. Já existiam portáteis leves sem teclado com input através do monitor, de alta qualidade. A novidade tem a ver com marketing e design, maior leveza e abandono do disco como centro do sistema (DOS - Disk Operative System) para a centrar na NET. Também o conceito apareceu sobretudo nos visionários da SUN que há muito afirmaram que o Personal Computer teria que evoluir para o Net Computer e nos ofereceram os meios de acabar com o estúpido conflito entre sistemas operativos, linguagens como a Java que já não dependem nem do Windows nem do MacOs nem do Linux e põem todos a trabalhar em conjunto. O browser tornou-se a base de muitas aplicações que funcionam tanto em PC como em Telemóvel.
Para mim, o Filemaker é apenas uma aplicação de base de dados como muitas outras.
Não aprecio as concepções de negócio informático da Aple e da Microsoft, mas reconheço que é com essas regras que infelizmente temos que viver.
A seguir à notabilíssima geração dos 50 anos de idade seguiu-se outra, a do Linux e de outras inovações (Linus Torvalds) de 40 anos de idade. E já temos outra, a do Google e do Facebook. com 30 anos de idade.
Admiro esta gente. Gente como o Steve.
Obrigado pelo testemunho Luís. A brincar, a brincar, já passámos os cinquenta
ResponderEliminarSubscrevo o teu texto. Sabes do meu entusiasmo com o Filemaker e aí não posso dizer que concordo contigo porque desconheço, com a mesma profundidade que dedico ao Filemaker, as aplicações concorrentes.
Tb "admiro esta gente. Gente como o Steve."
Aquele abraço.
Eh! O Windows é desde o seu início um sistema de janelas. Desde o estável Windows 3.2. muito anterior ao Windows 95.
ResponderEliminarA razão porque eu detestava a Apple é a mesma pela qual tu a aprecias: o elitismo, o preço mais elevado, um certo snobismo.
As pessoas que cresceram em termos informáticos com o Windows e com o Linux estão mais ligadas à produção e à manipulação das ferramentas informáticas porque pirateavam tudo e aprendiam a desmanchar tudo.
A Apple era só produtos acabados bonitinhos para arquitectos e profissionais de alto rendimento financeiro que tinham que trabalhar com o computador sem saber informática.
O Windows 1.0 é de 1985.
ResponderEliminarO Windows 95 (Windows 4.x) apenas apresentou mais funções de sistema operativo, menos dependente do DOS subjacente.
Tem razão. É gente ligada à parte empresarial e menos à tecnológica. O rato de computador foi inventado em 1969 e não foi por nenhum desses nomes que são caras que aparecem ao grande público a personalizar marcas.
ResponderEliminarMuita coisa fizeram Steve Jobs assim como Bill Gates no campo da informática, mas o essencial nesse campo é quase sempre coisa de outros. Como o próprio Wozniak diz, na parte técnica era ele quem tinha mais voz e não o Steve. Mas o Wozniak não tem perfil para estar na televisão a seduzir o público.
Não sabia.
ResponderEliminarEnfim. Às tantas, fala-se sem se conhecer em detalhe as pessoas e o que fizeram realmente. É inevitável. No fundo, é como com as guitarras: não me digas a marca, diz-me antes o que consegues tocar com ela.
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