"A escavação" de Andrei Platónov (1899-1951) é uma obra maior e na página oito diz assim:
"(...)- A administração diz que tu paravas para meditar durante as horas de trabalho - disseram-lhe no comité sindical. - Em que pensavas tu, camarada Voschev?
- No plano da vida.
- A fábrica trabalha segundo um plano de empresa já preparado. Quanto ao plano da tua vida pessoal, podias elaborá-lo no clube ou no círculo cultural.
- Eu pensava no plano da vida em geral. A minha vida pessoal não me assusta, não é nenhum enigma para mim.
- E o que é que tu poderias fazer?
- Podia pensar em qualquer coisa como a felicidade, e o sentido espiritual melhoraria a produtividade.
- A felicidade vem do materialismo, camarada Voschev, e não do sentido. Não podemos defender-te, tu és um homem sem consciência, e nós não queremos ficar na retaguarda das massas.
Voschev queria pedir um qualquer trabalho dos mais fracos, que desse para a alimentação; podia pensar fora das horas de trabalho, mas para esse pedido era preciso ser respeitado pelas pessoas, e Voschev não via nelas qualquer sentido para consigo.
- Vocês têm medo de ficar na cauda das massas, porque é o extremo, e por isso sentaram-se-lhes no pescoço!
- O Estado, Voschev, já te deu uma hora extra para meditares: trabalhas oito horas, agora trabalhas sete. Devias viver e estar calado! Se todos começamos de repente a meditar, quem é que há-de agir?
- Sem pensamento, as pessoas agem insensatamente! - disse Voschev, pensativo.
Saiu do comité central sem qualquer ajuda. (...)"
Li este livro há cerca de dois meses. Gélido e cru. Tanto que tinha de o ler com uma manta serrana!
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