A actualidade obedece ao vórtice da sociedade global e é incerta; sabemos isso. Antecipar a sociedade do futuro é uma dificuldade das democracias ocidentais. "(...)O futuro já não é construído lutando contra os que defendem o passado, mas sim contra os que parecem ser pelo futuro mas que o defendem mal.(...)" (1)
Olhemos para factos: enquanto na EDP se contratualizam salários mensais de 40 mil euros (para membros do Conselho Geral) há magistrados e polícias a passar fome.
Isto choca. Não nos deve surpreender que a nossa democracia seja menos considerada do que a de Cabo Verde e que o nosso futuro se apresente sombrio.
Há «magistrados e polícias a passar fome», diz Maria José Morgado
(1) Daniel Innerarity (2011, p:15).
"O futuro e os seus inimigos". Lisboa: Teorema.
Fome e sede de justiça
ResponderEliminarQueixou-se na TVI24 a procuradora-geral adjunta Maria José Morgado, directora do DIAP, de que há "magistrados, funcionários e polícias pés-descalços e a passar fome".
Quanto a funcionários e polícias, passo. Apesar de terem, muitos deles, um salário de miséria, ainda assim vão, porém, tendo um salário, coisa de que não se podem gabar os 700 000 portugueses desempregados. Mas não custa a crer que, como diz o presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, haja "colegas em alguns tribunais que estão um pouco dependentes da solidariedade".
Um magistrado a meio da carreira aufere 3 600 euros líquidos por mês, mais subsídio de compensação/renda de casa. É certo que, se os magistrados fossem pagos à hora, sobretudo na 1.ª instância, onde frequentemente se trabalha 9 e 10 horas por dia, ganhariam muito mais, mas daí a dizer-se que os há a "passar fome" não só não é crível como, num país em que o salário mínimo (dos privilegiados que têm salário) é de 485 euros, é tão afrontoso como o presidente da República queixar-se de que os seus mais de 10 000 euros de pensões não lhe chegam "para pagar as despesas".
A não ser que Maria José Morgado se refira à "fome e sede de justiça" que as magistraturas hoje justificadamente sentem, poderia perguntar-se porque é que os tais "magistrados pés-descalços", se têm fome, não comem brioches.
Manuel António Pina, JN
Bem observado. Opiniões divergentes que dão que pensar
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