domingo, 15 de julho de 2012

a traquitana estampou-se mesmo

 


 


 


A traquitana do MEC, guiada por um Governo, Passos Coelho e Nuno Crato, que acusou José Sócrates e Lurdes Rodrigues de desrespeitarem os professores portugueses, está a colocar o grupo profissional a que pertenço com um sentimento de revolta que poderá atingir níveis contestatários impensáveis e imprevisíveis.


 


Já não restam dúvidas que a ideia de antecipar a indicação dos professores com horário zero foi desastrosa. Não podem dizer que não foram avisados e quem trata disto foi obrigado a adiar uma semana.


 


Não foi difícil perceber que seria caótica a alteração dos calendários das diversas variáveis (concursos, exames, matrículas e por aí fora) associada à agregação de escolas, ao aumento do número de alunos por turma, à revisão curricular e à organização do ano lectivo. Precebeu-se que seria inconsequente em termos da logística do MEC e dilacerante e humilhante para milhares de professores. Poderá lançar um clima de medo que abra mais portas para reformas antecipadas ou quadros de mobilidade. É mesmo, e em termos éticos, já irreparável. São marcas que ficam para a vida.


 


É impossível que os professores descansem e que tenham as merecidas férias. O sistema escolar necessita de professores enérgicos e esperançados para lidarem com alunos que não são iguais aos das "democracias musculadas" (Singapura e China) e que são educados numa sociedade muito ausente. Será explosiva a ideia de passar o número de alunos por turma de 22 para 28 ou 30.


 


Desde já se avisa que Setembro de 2012 será arrasador e estou a pesar a adjectivação. Basta ler o que se vai escrevendo e ter algum conhecimento do terreno.

11 comentários:

  1. Não me tenho cansado de deixar testemunhos das consequências dramáticas deste descalabro que estão a impor à escola pública nas caixas de comentários dos blogues que visito regularmente.

    E esgotei.
    Esgotei a capacidade de sequer pensar na ruína das medidas, na incongruência dos números, na insensibilidade de quem põe a engrenagem a funcionar, rumo à destruição que se adivinha.

    O que se tem vivido recentemente é só o prólogo de uma obra cujos capítulos, crescentes de intriga, começarão a ser escritos em Setembro, quando as salas de aula abarrotarem de personagens vivas, com boca, olhos e tudo, aos magotes de 30, para aprender com afinco os saberes estruturantes que as metas de aprendizagem definem como essenciais, a testar em exames rigorosos.

    Só a partir de Setembro poderemos aceder aos sucessivos capítulos desta espécie de epopeia surreal que começou há pouco a ser escrita e que, infelizmente, ficará para as gerações futuras como A DIVINA COMÉDIA… de Crato.

    Entretanto, não dá para esquecer as lágrimas e o pesar dos colegas que, na passada sexta-feira 13, receberam o passaporte para umas férias de pesadelo, onde era suposto recuperarem forças e motivação para o seu vigésimo e tal, às vezes até trigésimo, ano de serviço e de investimento profissional.
    Mesmo que os repesquem no meio desse período, a deriva a que foram condenados em boa parte desse pseudo tempo de descanso já ninguém conseguirá apagar das suas memórias. E a desconfiança no desfecho da narrativa perdurará no seu espírito para sempre.

    Resta-nos imaginar quantos serão os capítulos e quem escreverá o epílogo, pois que o enredo todos conhecemos.


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  2. parabéns Ana Sousa. fabuloso comentário

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  3. Subscrevo Jorge. Mais um bom post Ana :) Obrigado.

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  4. O enredo é sabido: privatizar ensino e saúde de modo a ficar algo meramente residual.

    Num país como o nosso, para não sair daqui, tal é um suicídio social e civilizacional.

    Não sei quantos capítulos terá este enredo nem quem escreverá o epílogo (se é que há um epílogo nestas coisas).

    A bola está mais do que nunca num dos campos. O que significa que a equipa a que a maioria dos povos pertence terá de treinar bastante mais em equipa.

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  5. Viva Paulo,
    tens razão e o que acrescenta a Ana Sousa também merece atenção e relevo.
    Só é pena que tanta gente tenha feito ouvidos de mercador quando, há um ano atrás, muitos já alertavam para o que vinha a caminho.
    É que isto não era inevitável, tal como a luta dos médicos e dos enfermeiros (unidos nos seus sindicatos) acaba de demonstrar.
    O fiscal da finanças para a Saúde acabou de recuar na intenção de institucionalizar as "praças de jorna" do seu ministério. Do mesmo modo o fiscal das finanças para a Educação teria sido obrigado a recuar, não estivessem os professores tão distantes dos dirigentes e ativistas sindicais que nas escolas continuam a dar o seu tempo, dedicação, empenho e entusiasmo à causa da defesa da Escola Pública e dos direitos dos seus profissionais.

    Em setembro seremos muito menos. Espero, sinceramente, que sejamos mais unidos e determinados. Até porque teremos que lutar por quem fica, pelos que agora são afastados e, sobretudo, por uma educação de qualidade que qualifique as novas gerações do mesmo modo que a atual (sem emprego) foi qualificada.

    Abraço
    F.

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  6. Viva Francisco.

    Acabei de te responder noutro lado.

    Gosto deste registo.

    Abraço também.

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  7. Obrigado Fernanda. Amanhã vou postar sobre o assunto.

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  8. Não me agradeças já.

    Toma um bom pequeno almoço, fica tranquilo e depois lê.

    Mas penso que vais ficar bem, apesar de tudo.

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  9. :) Fizeste-me rir. Tinha temporizado o post para amanhã mas já está:)

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  10. Obrigada. Foi escrita que saiu do coração.
    Não estou na situação dos colegas, mas sinto-me angustiada de todo com o que se está a passar e com o que ainda está para vir.
    Nunca esperei pensar/dizer isto, mas nem nos tempos da Maria de Lurdes Rodrigues batemos tão no fundo.
    As férias que se aproximam sabem a liberdade condicional de presidiários condenados por um tribunal de loucos.

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  11. Quando o movimento sindical esteve unido na luta por reivindicações claras, os professores obtiveram conquistas importantes.
    Contudo, nos sindicatos há uma orientação basista, equalizadora que gere um caderno reivindicativo feito da justaposição de coisas muito diversas apontadas para as ambições de todos e mais alguns dentro e fora desta classe profissional.
    É preciso pensar com os pés assentes na terra. Uma reivindicação clara é, por exemplo, a exigência duma posição de princípio contra os horários zero e pela liberdade da gestão escolar utilizar os professores disponívéis com vista à maximização do sucesso escolar. Se somos mesmo demais, é preciso exigir soluções que acautelem tanto o interesse público como o dos profissionais que são dispensados. O sindicato faz bem em bater-se contra o aumento do número de alunos por turma, por exemplo, mas não contra o exame de admissão à profissão e outras coisas díspares deste género.
    Os enfermeiros e os médicos vão bater-se por uma coisa que toda a gente compreende: um enfermeiro não pode ser pago a 4 euros à hora! Têm que ter um príncípio que diga como é que se determina a hora de trabalho dum enfermeiro - quanto a mim, nunca abaixo dos 8 euros por hora para quem vai trabalhar em avulso e não entrou ainda na carreira.
    Até prova en contrário, admito a austeridade como necessária. Acho que há um problema com a despesa. Por isso, aceito reduções salariais como a que nos impuseram. Não vejo a decisão do tribunal constitucional como uma vitória. Preocupa-me como é que o governo vai buscar os dois mil milhões de euros em falta. Sei onde será: no despedimento de professores e de outros funcionários. O discurso a este respeito já se fez ouvir na voz de Rui Rio, por exemplo.

    Considerem isto como a opinião dum sócio do SPGL.

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