quinta-feira, 29 de novembro de 2012

propinas no secundário

 


 


 


 


Passos Coelho terá dito, ontem à TVI, que vai implementar um co-pagamento (um eufemismo para o substantivo propinas) no ensino secundário. Ouvi a pergunta, nesse sentido, de José Alberto Carvalho, mas a resposta escapou-me. O que ouvi foi Passos Coelho afirmar que o sector privado já se ajustou e que o público não. Esta enormidade só se pode justificar por radicalismo ideológico.


 


Compreendo a indignação com as propinas no secundário. As pessoas intuem a realidade. Com a chegada de Passos Coelho ao poder, a agenda de privatização tout court ganhou um alento inédito reforçado pelo sentimento da derradeira oportunidade.


 


E por que é pessoas informadas na actual maioria estão tão desesperadas?


 


Em primeiro lugar, porque os últimos estudos e relatórios não ajudam os seus propósitos como esperavam. O derradeiro, encomendado pelo MEC, apresenta, de forma resumida, os seguintes números para o investimento médio por turma: 70000 euros nos 2º e 3º ciclos do ensino básico e 89000 euros no ensino secundário (apura-se um valor médio de 76000 euros) nas escolas do Estado e 85000 euros nas escolas cooperativas.


 


Este estudo tem um relatório com os números apresentados. Foi, depois, feita uma adenda que incluiu outras variáveis independentes. Os valores nas escolas do estado subiram e o valor médio passou para 86000 euros.


 


Em segundo lugar, e se olharmos para a discussão em curso, percebe-se o desespero da maioria em propor propinas no ensino secundário. Já não têm espaço para mais supressões de disciplinas, não podem advogar as quatro dezenas para o número de alunos por turma ou aumentar o despedimento sem apelo de milhares de professores (são os que mais contribuem para que Passos e Gaspar andem pelo mundo a elogiar um modelo que cortou na despesa com funcionários públicos).


 


Para além disso, não conseguem refutar os que defendem uma poupança a custo zero: passar turmas das cooperativas de ensino para as escolas do Estado que têm salas de aula vazias e professores com horários zero. Qualquer que seja a posição de quem se move nesta área, começa a ser impossível o silêncio ensurdecedor.

9 comentários:

  1. Hoje falou-se muito em propinas no secundário. Muita especulação!!!
    Pena é que os dois entrevistadores da TVI não tenham tido a inteligência e o bom senso de esperar que Passos Coelho se explicasse melhor sobre o assunto. Quando ia explicitar a estratégia dos cortes na Educação, Passos Coelho foi interrompido pela enésima vez, pelo que há que esperar por melhores explicações...
    De resto, não tenho dúvidas que os maiores cortes na Educação serão nos salários e no número de funcionários.

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  2. Tem toda a razão Pedro. Quanto aos entrevistadores, particularmente a senhora D. Judite (pena os mesmos não verem como se faz nas TVs de referência), estão mais interessados em que se ouça o que têm para dizer e em exibir os seus pressupostos e crenças, do que em permitir que o entrevistado seja ouvido. De gritos foi a sugestão da senhora de que se trataria de uma "taxa Modegadoga" (ela quereria dizer "moderadora") no ensino - como se o acesso ao mesmo devesse ser modegado, perdão, moderado; uma completa perversão do conceito - mas a expressão (aqui absurda) é bem capaz de fazer escola, tão propensos somos a tomar como referência qualquer barbaridade dita em primeira mão na TV.

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  3. O que gostava mesmo era de ler o que dizem (Pedro e Lúcio) sobre a proposta de custo zero inserida no post.

    Cada 10 turmas que passem de uma cooperativa para uma escola do Estado representa cerca de 1 milhão de euros.

    É a custo zero porque as salas de aula estão vazias, os professores com horários zero e, nos últimos anos e em muitos casos, as DREs impediram as escolas do Estado de receberem essas turmas.

    Sobre o argumento da escolha da escola é escusado.

    Leiam, sff, o algoritmo que já publiquei diversas vezes e que podem pesquisar no motor interno do blogue, e deixo um questão que será mote de um próximo post (vou pela saúde, para deixar qualquer coisa no ar):

    numa sociedade como a nossa, as pessoas preferem a Clínica Cuf ou a unidade de saúde de Tornada do Agrupamento de Centros de Saúde de Caldas da Rainha da sub-região Oeste Norte? (Podia ainda usar uns nomes menos "finos").

    Tenho usado, e cá em casa também, o segundo e posso detalhar a excelência do atendimento.

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  4. Venho aplaudir a clareza e a objectividade deste post (mais um ao estilo do Paulo), que não suscita quaisquer dúvidas.
    Lamentavelmente, os factos expostos, de tão evidentes e indubitáveis, revelam a filosofia subjacente ao modelo de escola que a tutela preconiza: um negócio com fins lucrativos para um grupo de aficionados do privado subsidiado pelo Estado.
    Não é a existência do privado que é posta em causa: haja privado com fartura. As famílias têm o direito de escolher, com certeza. Mas privado custeado pelos utilizadores e não financiado por dinheiros públicos a custos incomportáveis, quando a oferta pública responde às necessidades de forma gratuita. Isto é esbanjar o dinheiro dos contribuintes e devia ser criminalizado.

    Também não posso deixar de reparar na falta de argumentos dos comentadores que se detém na escarpa da serra e não no cume, quando alegam que Passos Coelho foi impedido de concretizar as medidas de co-financiamento do Ensino Secundário pelos jornalistas entrevistadores. É deveras hilariante! A ser verdade, provaria, mais uma vez, que Passos Coelho é um impreparado para as funções que lhe foram confiadas, pois nem consegue expor com verdade e objectividade a estratégia do seu Governo, sendo vencido por dois jornalistas às primeiras investidas.
    Ao invés desta pseudo-argumentação, creio que ficou claro que Passos Coelho apenas não teve coragem de reiterar que a sua proposta se baseia na eliminação do Ensino Secundário como escolaridade obrigatória para todos, pretendendo revogar a recente legislação que o determina, aproveitando, segundo o próprio disse, uma abertura da Constituição da República que declara apenas a escolaridade básica como obrigatória e gratuita.
    Porém, creio que se tratou de um "atirar o barro à parede" a ver se pega, como tem sido feito pelo Governo em inúmeros outros assuntos (a TSU, por exemplo), que será totalmente desmentido a breve prazo, conforme já começou a sê-lo por Nuno Crato, e substituído por outro estratagema qualquer, que conduza aos mesmos fins de forma mais camuflada e menos perceptível pela opinião pública em geral.
    A seriedade não é apanágio deste Governo, como já se viu.

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  5. Subscreve o conteúdo do post, Paulo. O meu comentário anterior, tendo passado ao lado da substância da questão (de modo leviano, concedo), pretendeu apenas sublinhar a úsual prestação dos jornalistas (sobretudo da senhora) das televisões portuguesas, normalmente mais interessados em ser ouvidos (não, não confundir com a desejável presença do contraditório) do que em ouvir quem convidam para entrevistar; perguntas enviesadas e preconceituosas, interrupções de exposição, péssima sintaxe, aberrações semânticas - que passam a norma - , são o brinde de quem os atura.

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  6. Há um acento e uma vírgula a mais (.. pois, "cura-te a ti mesmo")

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  7. Claro, Lúcio. Parece-me difícil de não subscrever, por isso estranho o silêncio dos quem corta a eito ( não estanho nada, claro).

    Concordo com essa crítica aos entrevistadores. Com tanta investigação no meio, suponho, nem sei como não corrigem isso.

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