Nasci na então Lourenço Marques e ouvia com frequência que era branco de segunda (verdade se diga que só após o primeiro inverno europeu é que percebi que não era o moreno que me achava) e que mesmo como português não seria um eleito.
Mais tarde, percebi que os que me apontavam como retornado após a fuga de Moçambique mais pareciam indígenas saídos de um país que tinha adormecido na modernidade do meu tetravô. Quase 40 anos depois, esse país apontador não é o mesmo por obra de milhões de formigas. É claro que não haveria fábula sem as inevitáveis cigarras.
Dito isto e para salientar que já sorrio (sempre fui um pouco assim) com discriminações que me incluam até com as que são repetidas por quem governa Portugal. Passos, Relvas, Gaspar e Portas foram incansáveis em fazer coro com quem nos classificava como PIGS, gastadores, piegas, preguiçosos, propensos à emigração e outras coisas mais desagradáveis. Terão razões para isso. Os espelhos servirão para alguma coisa, mas já lá vou ao assunto.
Li hoje no Público a entrevista do primeiro-ministro finlandês. É um tipo de 41 anos, de direita, condescendente com os para além da troika e, se não houve lapsos de tradução, com algumas certezas absolutas. Uma delas é que Portugal vai no caminho certo e que não é justo que, mesmo numa moeda única, cada um não pague pela sua condição. Deve ser um tipo exemplar e severo nos costumes.
Se foi Mitterrand quem tudo fez para que com a criação do euro a Alemanha ficasse "impedida" de provocar outra guerra mundial, talvez seja o poder vigente alemão quem usa o euro para impor de novo uma espécie de imperialismo. Quem diria. Cada vez se percebem mais as carradas de preconceitos que inundam as mentes dos anti-eurobonds.
O que se vai observando (e que muitos não se cansavam de sublinhar) é que os europeus são mais parecidos do que se supunha e até na preguiça, na corrupção, na utilização fraudulenta de paraísos fiscais, na produtividade e por aí fora. O que mais aborrece é termos governantes que se apressam a acusar os seus e depois dão os exemplos que se conhecem. Os ajustes directos do Governo português para se estudar mais do mesmo ou o uso dos grandes escritórios de advogados são um insulto à inteligência das pessoas e explicam a baixa auto-estima profissional dos governantes. A falta de patriotismo é uma das consequências e foi pena não se ouvir o primeiro-ministro finlandês sobre o assunto.
A corrupção desgraçou-nos e à Europa também. O centro do velho continente está também infestado de maus exemplos. Por outro lado, há inúmeros portugueses que se orgulham de o ser e do seu grau de profissionalidade e não os vejo a apontar o dedo às comunidades que param de laborar às 15h00 ou que se embebedam às sextas por sistema (as lojas de produtos alcoólicos são blindadas) e por aí fora. Somos mais cabisbaixos, sem dúvida, mas devíamos ser representados por quem não tivesse vergonha da sua nacionalidade.
Post de 14 de Abril de 2013.
Parece que na França a austeridade é designada como rigor...
ResponderEliminarQuanto à entrevista do PM da Finlândia, convém não esquecer que também os finlandeses passaram por tempos difíceis, após a desagregação da URSS (principais clientes dos finlandeses que, de um dia para o outro , praticamente, deixaram de lhes comprar) e que também eles passaram por tempos de privação. Depois, como sabemos, veio a prosperidade finlandesa...
Sei disso Pedro. Não comparemos. Também tínhamos colónias e tivemos de receber milhares de refugiados após quase cinquenta anos de ditadura. Por outro lado, a integração europeia, a criação do euro, a ultrapassagem da crise por parte dos primeiros despesistas do milénio (Alemanha e França) são Histórias por contar.
ResponderEliminarHá quem diga que para se proteger os do norte se desprotegeu os do sul.
O desmantelamento da URSS criou esses problemas a alguns países e isso só prova que todos passam por altos e baixos.
Certezas absolutas e comparações apressadas é que é são algo surpreendentes.
O rigor orçamental é uma exigência, mas o que se está a passar na Europa do Sul parece mais ideológico do que outra coisa qualquer.
Pedro: confias que o dinheiro que te cortam tem uma finalidade transparente?
Excelente texto.
ResponderEliminarDuas notas (sobre o acessório, admito)
a) Era criança quando o aeroporto da Portela ficou forrado de "retornados". Talvez na altura a minha clarividência fossem ainda menor do que a que exibo agora, mas nunca me pareceu que o termo "retornado" tivesse qualquer carga pejorativa; era apenas uma funcionalidade (ainda que semanticamente errada, como é próprio dos neologismos portugueses inventados nos estúdios de televisão às 20 horas: muitos não retornavam; vinham pela primeira vez). Quanto ao mais, e como refere, percebia-se nos "retornados" uma desenvoltura, uma capacidade de iniciativa, um arejamento mental claramente nos antípodas dos indígenas "adormecidos com o tetravô".
b) As "bebedeiras à sexta por sistema", não tardarão; a nossa "modernização" tratará disso, fique descansado. Quando eramos um país "atrasado" (quando "beber vinho dava alimento a um milhão de portugueses", quando tinhamos uma relação pacífica e pedagogicamente correcta com o álcool - quando o mesmo ainda não tinha tomado o lugar da Besta), as estatísticas poderiam dizer que, por exemplo, um português ingeria quatro litros de bebidas alcoólicas por semana, já um finlandês, apenas dois. Acontece que este o fazia numa tarde/noite de sexta-feira com o claro ojectivo de cair de bêbedo (testemunhei-o atónito nos inverosímeis pubs de Helsínquia - ruas, para os de idade menor -, de meados dos anos oitenta) enquanto que aquele o fazia durante sete dias. Mas para lá caminhamos. Acredite.
Obrigado Lúcio.
ResponderEliminarNada acessórias, se me permite.
Sei do a) e concordo.
Desconfio que também tem razão no b).