quarta-feira, 1 de julho de 2015

os discriminados

 


 


 


 


Nasci na então Lourenço Marques e ouvia com frequência que era branco de segunda (verdade se diga que só após o primeiro inverno europeu é que percebi que não era o moreno que me achava) e que mesmo como português não seria um eleito.


 


Mais tarde, percebi que os que me apontavam como retornado após a fuga de Moçambique mais pareciam indígenas saídos de um país que tinha adormecido na modernidade do meu tetravô. Quase 40 anos depois, esse país apontador não é o mesmo por obra de milhões de formigas. É claro que não haveria fábula sem as inevitáveis cigarras.


 


Dito isto e para salientar que já sorrio (sempre fui um pouco assim) com discriminações que me incluam até com as que são repetidas por quem governa Portugal. Passos, Relvas, Gaspar e Portas foram incansáveis em fazer coro com quem nos classificava como PIGS, gastadores, piegas, preguiçosos, propensos à emigração e outras coisas mais desagradáveis. Terão razões para isso. Os espelhos servirão para alguma coisa, mas já lá vou ao assunto.


 


Li hoje no Público a entrevista do primeiro-ministro finlandês. É um tipo de 41 anos, de direita, condescendente com os para além da troika e, se não houve lapsos de tradução, com algumas certezas absolutas. Uma delas é que Portugal vai no caminho certo e que não é justo que, mesmo numa moeda única, cada um não pague pela sua condição. Deve ser um tipo exemplar e severo nos costumes.


 


Se foi Mitterrand quem tudo fez para que com a criação do euro a Alemanha ficasse "impedida" de provocar outra guerra mundial, talvez seja o poder vigente alemão quem usa o euro para impor de novo uma espécie de imperialismo. Quem diria. Cada vez se percebem mais as carradas de preconceitos que inundam as mentes dos anti-eurobonds.


 


O que se vai observando (e que muitos não se cansavam de sublinhar) é que os europeus são mais parecidos do que se supunha e até na preguiça, na corrupção, na utilização fraudulenta de paraísos fiscais, na produtividade e por aí fora. O que mais aborrece é termos governantes que se apressam a acusar os seus e depois dão os exemplos que se conhecem. Os ajustes directos do Governo português para se estudar mais do mesmo ou o uso dos grandes escritórios de advogados são um insulto à inteligência das pessoas e explicam a baixa auto-estima profissional dos governantes. A falta de patriotismo é uma das consequências e foi pena não se ouvir o primeiro-ministro finlandês sobre o assunto.


 


A corrupção desgraçou-nos e à Europa também. O centro do velho continente está também infestado de maus exemplos. Por outro lado, há inúmeros portugueses que se orgulham de o ser e do seu grau de profissionalidade e não os vejo a apontar o dedo às comunidades que param de laborar às 15h00 ou que se embebedam às sextas por sistema (as lojas de produtos alcoólicos são blindadas) e por aí fora. Somos mais cabisbaixos, sem dúvida, mas devíamos ser representados por quem não tivesse vergonha da sua nacionalidade.


 


Post de 14 de Abril de 2013.


 


4 comentários:

  1. Parece que na França a austeridade é designada como rigor...
    Quanto à entrevista do PM da Finlândia, convém não esquecer que também os finlandeses passaram por tempos difíceis, após a desagregação da URSS (principais clientes dos finlandeses que, de um dia para o outro , praticamente, deixaram de lhes comprar) e que também eles passaram por tempos de privação. Depois, como sabemos, veio a prosperidade finlandesa...

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  2. Sei disso Pedro. Não comparemos. Também tínhamos colónias e tivemos de receber milhares de refugiados após quase cinquenta anos de ditadura. Por outro lado, a integração europeia, a criação do euro, a ultrapassagem da crise por parte dos primeiros despesistas do milénio (Alemanha e França) são Histórias por contar.

    Há quem diga que para se proteger os do norte se desprotegeu os do sul.

    O desmantelamento da URSS criou esses problemas a alguns países e isso só prova que todos passam por altos e baixos.

    Certezas absolutas e comparações apressadas é que é são algo surpreendentes.

    O rigor orçamental é uma exigência, mas o que se está a passar na Europa do Sul parece mais ideológico do que outra coisa qualquer.

    Pedro: confias que o dinheiro que te cortam tem uma finalidade transparente?

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  3. Excelente texto.
    Duas notas (sobre o acessório, admito)
    a) Era criança quando o aeroporto da Portela ficou forrado de "retornados". Talvez na altura a minha clarividência fossem ainda menor do que a que exibo agora, mas nunca me pareceu que o termo "retornado" tivesse qualquer carga pejorativa; era apenas uma funcionalidade (ainda que semanticamente errada, como é próprio dos neologismos portugueses inventados nos estúdios de televisão às 20 horas: muitos não retornavam; vinham pela primeira vez). Quanto ao mais, e como refere, percebia-se nos "retornados" uma desenvoltura, uma capacidade de iniciativa, um arejamento mental claramente nos antípodas dos indígenas "adormecidos com o tetravô".
    b) As "bebedeiras à sexta por sistema", não tardarão; a nossa "modernização" tratará disso, fique descansado. Quando eramos um país "atrasado" (quando "beber vinho dava alimento a um milhão de portugueses", quando tinhamos uma relação pacífica e pedagogicamente correcta com o álcool - quando o mesmo ainda não tinha tomado o lugar da Besta), as estatísticas poderiam dizer que, por exemplo, um português ingeria quatro litros de bebidas alcoólicas por semana, já um finlandês, apenas dois. Acontece que este o fazia numa tarde/noite de sexta-feira com o claro ojectivo de cair de bêbedo (testemunhei-o atónito nos inverosímeis pubs de Helsínquia - ruas, para os de idade menor -, de meados dos anos oitenta) enquanto que aquele o fazia durante sete dias. Mas para lá caminhamos. Acredite.

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  4. Obrigado Lúcio.

    Nada acessórias, se me permite.

    Sei do a) e concordo.

    Desconfio que também tem razão no b).

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