terça-feira, 4 de junho de 2013

a escola e a liberdade de escolha

 


 


 


 


Boa parte dos liberais que defendem a liberdade de escolha da escola fazem-no convencidos que é um contributo decisivo para a igualdade de oportunidades e para existência de projectos educativos diferenciados de ordem confessional, por exemplo. Os principais argumentos são conhecidos: a escolha da escola é um indicador de liberdade, aumenta a competitividade entre escolas em benefício dos alunos e permite aos mais desfavorecidos a escolha de escolas melhores e mais exigentes.


 


Estes liberais defendem soluções como o cheque-ensino ou o financiamento de acordo com o número de turmas ou de alunos e nunca a privatização total com o pagamento de propinas. Contestam a frequência escolar com base em critérios geográficos, familiares ou de ordem pedagógica definida pelas autoridades escolares.


 


As já vastas experiências contrariam os liberais e provam exactamente o contrário. Como não existem escolas com vagas ilimitadas, a liberdade de escolha favorece a formação de grupos sociais de acordo com os estatutos existentes e acentua a guetização dos mais desfavorecidos. Os grupos sociais mais "fortes" estabelecem laços de forma a homogeneizarem a frequência das escolas entre os pares e estimulam a "auto-exclusão" dos mais "fracos".


 


A liberdade de escolha acentua a dicotomia entre escolas para ricos e escolas para pobres.


 


Os sistemas como o português devem ser aperfeiçoados uma vez que a letra, e mesmo o espírito, da lei é ultrapassada pelos mais "fortes" e conduz aos resultados das políticas pretendidas pelos liberais. Contudo, os modelos como o nosso garantem a necessária miscigenação dos grupos sociais, combatem a guetização e, como se comprova, ajudam a eliminar o abandono escolar. São um bocado como a ideia de democracia: o melhor modelo conhecido apesar das imperfeições.


 


Comecei o post com a expressão optimista de "boa parte dos liberais". É que há outro grupo de liberais, os ultraliberais, que apenas se concentra na privatização de lucros a todo o custo das verbas dos orçamentos de estado. Se é maioritário ou não é difícil de perceber, mas que anda muito dissimulado pelo arco do poder já é mais fácil constatar. A prática é eloquente e contaminaram há muito a agenda mediática, embora pareçam mais titubeantes em resultado da corrupção que já não passa despercebida.

15 comentários:

  1. Mouche... explicado... excelente

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  2. Rui Rodrigues, Amadora4 de junho de 2013 às 14:02

    Muito bom Paulo Prudêncio!

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  3. Excelente malha. Desmontadinho.

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  4. Excelente explicação, concordo. Obrigada.

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  5. Limpinho... limpinho... limpinho...

    António Santos.

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  6. O comentador Pedro dirá que a liberdade de escolha racionaliza e que andámos a gastar demasiado em escolas públicas...

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  7. Joana Ribeiro, Encarregada de Educação4 de junho de 2013 às 18:37

    Se ao menos os Pais abrissem os olhos.

    Parabéns Prof. Paulo pela lição de história no debate. Ouvi dizer que esteve excelente como é habitual. Obrigado por tudo!

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  8. Atrasei-me :)

    Muito obrigado a todos pelos comentários.

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  9. É evidente que os critérios dependem do objectivo que se pretende atingir. Habitualmente é referido o aproveitamento escolar. Mas, em Portugal (de acordo com o relatório PISA), uma criança de nível socioeconómico baixo tem três vezes menos possibilidades de atingir bons resultados em Matemática do que uma de nível socioeconómico alto e, assim, o critério dos resultados resulta numa estratificação pela origem social.
    Creio, aliás, que é esse resultado que os defensores da chamada "liberdade de escolha" querem atingir. O argumento que usam é o da "promoção da competitividade" entre escolas, de onde decorreria "a melhoria do ensino". Propõe-se para isso que as escolas escolham os alunos. É, sem dúvida, a forma mais fácil, mais preguiçosa e também mais selvagem de "promover a competitividade". Qualquer liberal honesto dirá que se trata de um embuste.

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  10. Já nem a Suécia é o “exemplo” que foi no passado para os defensores da liberdade de escolha da escola. O ano passado viajei bastantes dias entre Malmo e Gotenburgo e pude constatar o quanto a Suécia se atrasou em relação aos seus países vizinhos, Escandinavos. Os próprios Suecos passaram de confiantes a pessimistas em relação às mudanças que operaram em meados de noventa (1995). A liberdade de escolha provocou a selecção social e piorou os resultados globais. Isso é inequívoco e dizem-no a cada passo. Nunca tinha pensado no assunto e fiquei surpreendido. O texto é pertinente.

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  11. O comentador Pedro ficou muito feliz por ter ouvido da boca do sr 1º ministro que os profs efetivos não iriam para a mobilidade especial. O comentador Pedro deve ter suspirado de alívio pois acredita piamente no sr 1º ministro. O resto da maralha não interessa para o comentador Pedro desde que o coiro dele esteja a salvo. O comentador Pedro é um escarro egoísta!
    Peço desculpa ao Paulo Prudêncio mas tenho o coração perto da boca:)
    Saudações nortenhas

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  12. Boa tarde,

    O seu post esteve em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

    Atenciosamente,

    Catarina Osório,
    Gestão de Conteúdos e Redes Sociais - portal SAPO

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  13. Outra vez Catarina Osório?

    Muito obrigado.

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