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domingo, 18 de dezembro de 2016

da mediatização dos rankings

 


 


 


A mediatização dos rankings obedece ao desígnio da produtividade. Mas sublinha-se que os resultados escolares reflectem-se a longo prazo e são de génese diferente da produção de parafusos; o que faz toda a diferença no impaciente universo dos números.

Não encontramos rankings, sequer semelhantes, no mundo conhecido. Mas isso nem será relevante, porque o olhar obsessivo, mais ainda o menorizado, para as outras experiências impede a valorização das próprias. A rede escolar portuguesa tem de tudo. A sua babilónia explica parte da persistência do insucesso escolar; e depois acrescenta rankings inéditos, a exemplo dos organogramas dos mega-agrupamentos. A rede escolar já foi inspirada nos Estados Unidos, França, Noruega, Bélgica, Suécia, Holanda, Singapura e Finlândia. Isso fragilizou-nos internamente. Para além do referido, o "modelo" português foi durante duas décadas fustigado por uma agenda: tudo está mal na escola pública. Afinal não estava. Talvez isso ajude no caminho a seguir.

Por outro lado, as democracias valorizam a ideia de liberdade curricular. É por isso que não se defende a nacionalização total da rede escolar. Portugal tem outra particularidade não tão inédita: não tem escolas por emanação das comunidades. Existem por "planeamento" do estado central. Como não temos uma sociedade civil forte, as escolas transformam-se numa espécie de "quintas" que não raramente se apoderam do bem comum. Daí a desconfiança com a municipalização.

Tem-se escrito sobre a liberdade de escolha da escola que tem na guetização e na segregação social um resultado conhecido; em Portugal também. Sim, no nosso país vigora há muito a liberdade de escolha da escola. Como não há escola com vagas ilimitadas, a segregação social é o resultado da desorganização nas políticas de ocupação do território. E quanto mais desiguais forem as sociedades, mais se perpetua o insucesso escolar.

A questão portuguesa um dia passará por aqui; pelo oxigénio organizativo da rede escolar com a aprovação de uma nova lei de bases. Será um espécie de refundação que incluirá o estatuto da carreira docente e a gestão das escolas. Enquanto esse debate não se fizer, o processo português dará sempre a ideia de ter parafusos a menos.


 


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domingo, 22 de maio de 2016

A liberdade como princípio, a liberdade como fim

 


 


 



A Liberdade como princípio, a Liberdade como fim (do facebook de José Matias Alves)


 


(...) 


Três liberdades e mais três. A liberdade é um substantivo, mas é também um verbo de acção. A escola pública tem de saber repensar-se, renovar-se, abrir-se.



Em primeiro lugar, repensando-se no espaço público. Há mais educação para além da escola. Hoje, precisamos de reforçar os laços entre a escola e a sociedade e assim renovar um compromisso social em torno da educação. É uma mudança decisiva, que exige uma efectiva capacidade de decisão das pessoas, das autarquias e das instituições no interior deste espaço público da educação. Não gosto muito da metáfora das «cidades educadoras», mas é a que melhor ilustra a dimensão de partilha e de co-responsabilização que marca a educação nas sociedades contemporâneas. 



Em segundo lugar, renovando-se como «coisa pública». 
A escola não é um «serviço» ou uma «mercadoria», é uma instituição da res publica. Quando se compara a escolha da escola com a escolha das malas, dos sapatos, do jornal, do carro ou da casa, como já se escreveu, perde-se todo o sentido, social e cultural, individual e colectivo, do acto de educar. 



Em terceiro lugar, abrindo-se ao futuro. Vivemos um tempo de profunda mudança geracional, em grande parte pela forma como o digital está a transformar as vidas das crianças e dos jovens. Michel Serres diz mesmo que, nas últimas décadas, nasceu «um novo ser humano que vive, pensa, comunica e ... aprende de maneira totalmente diferente». Os edifícios escolares vão desaparecer ou, pelo menos, vão transformar-se radicalmente. Os tempos escolares vão ser organizados de modo totalmente diferente. O trabalho dos professores vai sofrer alterações profundas. A escola pública tem de estar à altura desta revolução da aprendizagem que está a acontecer debaixo dos nossos olhos e perante uma certa «indiferença» da nossa parte. 






A escola pública tem de ser, cada vez mais, um espaço de liberdade. Hoje, as sociedades têm um nível de educação, instituições culturais e científicas e meios tecnológicos que permitem concretizar o sonho, que muitos outros sonharam antes de nós, de uma escola que é 


 


Igualdade 
Diversidade 
Aprendizagem 
Participação 
Autonomia 
Criação 


 


A liberdade tem uma característica única e singular: só existe em mim se existir também nos outros. Não posso ser livre se os outros viverem sem liberdade. A escola pública é o lugar da liberdade, de todos e não apenas de alguns. A liberdade como princípio. A liberdade como fim. 


 


António Nóvoa


Universidade de Lisboa


 


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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

da blogosfera - a educação do meu umbigo

 


 


 


 



Estava na gaveta



 



"(...)Para além disso, a anunciada iniciativa de municipalizar a gestão das escolas vai conduzir, de forma inevitável, a um maior grau de homogeneização e indiferenciação dos referidos projectos, acabando com qualquer possibilidade de verdadeira liberdade de escolha por parte das populações. A autonomia das escolas desaparecerá por completo, não sendo a pretensa “descentralização” mais do que a criação de centralismos locais, muito vulneráveis ao arcaico caciquismo e ao favorecimento de clientelas político-partidárias.(...)"


 


E a coisa agravar-se-á se pensarmos que o estado de "salve-se quem puder" é o primeiro critério. É um texto polémico que merece leitura e debate.


 


 


 


domingo, 9 de março de 2014

a autonomia, sempre a autonomia

 


 


 


A autonomia (organizacional e curricular, digamos assim) das escolas é a expressão mais repetida nas últimas décadas; a insistência é proporcional à quase inexistência. O mau centralismo do MEC está como nunca. Não há actor do sistema, desde de quem governa à oposição e passando até pelos liberais da "escolha da escola", que não defenda a autonomia como imperativo.


 


Ainda ontem o "Novo rumo" do PS repetiu o substantivo. Mas há uma variável incontornável: enquanto não se eliminar o clima de mobilidade especial e de horário zero nos professores do quadro (os de zona pedagógico e os contratados estão nesse regime insano há décadas) que pairam como fantasmas no quotidiano das escolas, não é possível construir uma qualquer atmosfera de mudança e de mobilização. O espectro, legitimo, de defesa do posto de trabalho por parte dos grupos disciplinares impossibilita tudo o que de racional e óbvio vai ler a seguir; nomeadamente no domínio curricular.


 


 


 


 


Nas páginas 34 e 35 do seu mais recente ensaio, Paulo Guinote lança algumas ideias no âmbito da autonomia organizacional e curricular.


 


 



 



 


 


 


 


Não é difícil elencar propostas semelhantes. Em 1998, a reorganização curricular permitiu umas ténues mudanças que algumas escolas aprofundaram. Nesta altura, a oposição, como se leu, o Governo (com os 25% da carga curricular anunciados como flexíveis) e até os referidos liberais defendem a autonomia, mesmo que de ângulos diferentes. Imagine-se o que acontecerá se colocarmos as escolas a decidirem estas matérias no clima vigente. Cargas curriculares diferentes de escola para escola ou a criação de novas disciplinas são decisões que exigem um ambiente de sensatez e de tranquilidade. Só quem não põe os pés nessas instituições é que não percebe o que estou a evidenciar.


 


 


 

quarta-feira, 5 de março de 2014

da educação e da liberdade de escolha - um ensaio fundamental

 


 


 


 


 


 


 


O ensaio de Paulo Guinote, "Educação e liberdade de escolha", editado pela FFMS, é fundamental para quem se interessa pelo assunto. Como o autor escreve, o ensaio não se resume a uma colecção de textos do blogue. É evidente que os leitores do "A Educação do meu umbigo" não estranharão os argumentos, mas a obra organiza e sistematiza a questão de um modo claro e distanciado sem, contudo, deixar de tomar uma posição fundamentada.


 


A introdução (Liberdade e Educação) e o concluindo, são textos que iluminam o núcleo da obra que consiste em três liberdades, digamos assim: "na sala de aula", "na organização das escolas" e "de escolha no sistema educativo".


 


Antes da "chegada" do mercado total, a liberdade na sala de aula (de aprender e ensinar e por aí fora) era o cerne da discussão. As outras duas obedeciam também a muita investigação no sentido da melhor gestão das escolas e dos sistemas, da eliminação dos desperdícios, da elevação da qualidade de ensino e do sucesso escolar e do combate ao abandono escolar. Mas a tal chegada do mercado total incluiu o que estamos fartos de saber: a ganância, mesmo que muito difarçada, que tem proporcionado autenticas perdas de tempo, muito desperdício financeiro e atrasos civilizacionais.


 


 



 


 


 


Da introdução retirei o seguinte nas páginas 12 e 13.


 


 



 



 


 


 


Do concluindo retirei o seguinte nas páginas 102 e 103.


 


 


 



 



 


 


 


 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

é isso e a roda

 


 



 



 


 


 


Os norte-americanos parece que descobriram o algoritmo que nos diz que a sociedade desempenha o papel fundamental no sucesso escolar.


 


Há muito que se sabe que as alunos que reúnem boas condições socioeconómicas têm melhores resultados, como se comprova em todos os testes internacionais. Os países que conseguem aumentar as classes médias e que impedem que os sistemas escolares segreguem alunos através de escolas financiadas pelos Estados, criam condições para a igualdade de oportunidades e para uma vida com liberdade de escolha. É tudo isto que os nossos descomplexados competitivos negaram e destruíram. Portugal estava num caminho interessante. Mas é sempre assim: a ganância da privatização de lucros na Educação faz com que não valorizemos o bem comum e é necessário o sofrimento de muitos para que aprendamos o que devia ser óbvio entre humanos.


 


 


 

terça-feira, 4 de junho de 2013

a escola e a liberdade de escolha

 


 


 


 


Boa parte dos liberais que defendem a liberdade de escolha da escola fazem-no convencidos que é um contributo decisivo para a igualdade de oportunidades e para existência de projectos educativos diferenciados de ordem confessional, por exemplo. Os principais argumentos são conhecidos: a escolha da escola é um indicador de liberdade, aumenta a competitividade entre escolas em benefício dos alunos e permite aos mais desfavorecidos a escolha de escolas melhores e mais exigentes.


 


Estes liberais defendem soluções como o cheque-ensino ou o financiamento de acordo com o número de turmas ou de alunos e nunca a privatização total com o pagamento de propinas. Contestam a frequência escolar com base em critérios geográficos, familiares ou de ordem pedagógica definida pelas autoridades escolares.


 


As já vastas experiências contrariam os liberais e provam exactamente o contrário. Como não existem escolas com vagas ilimitadas, a liberdade de escolha favorece a formação de grupos sociais de acordo com os estatutos existentes e acentua a guetização dos mais desfavorecidos. Os grupos sociais mais "fortes" estabelecem laços de forma a homogeneizarem a frequência das escolas entre os pares e estimulam a "auto-exclusão" dos mais "fracos".


 


A liberdade de escolha acentua a dicotomia entre escolas para ricos e escolas para pobres.


 


Os sistemas como o português devem ser aperfeiçoados uma vez que a letra, e mesmo o espírito, da lei é ultrapassada pelos mais "fortes" e conduz aos resultados das políticas pretendidas pelos liberais. Contudo, os modelos como o nosso garantem a necessária miscigenação dos grupos sociais, combatem a guetização e, como se comprova, ajudam a eliminar o abandono escolar. São um bocado como a ideia de democracia: o melhor modelo conhecido apesar das imperfeições.


 


Comecei o post com a expressão optimista de "boa parte dos liberais". É que há outro grupo de liberais, os ultraliberais, que apenas se concentra na privatização de lucros a todo o custo das verbas dos orçamentos de estado. Se é maioritário ou não é difícil de perceber, mas que anda muito dissimulado pelo arco do poder já é mais fácil constatar. A prática é eloquente e contaminaram há muito a agenda mediática, embora pareçam mais titubeantes em resultado da corrupção que já não passa despercebida.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

mas que grande chatice

 


 


 


 


 


Se alguém defender que a miscigenação e a democracia são sinais de progresso e que o mesmo se deve aplicar ao sistema escolar, é imediatamente "engavetado" como radical livre e perigoso. Então se disser que a escolha da escola acentua a segregação social e favorece o abandono escolar (mais ainda numa sociedade fraca como a nossa e marcada pelas desigualdades) passa para a gaveta dos corporativos e dos culpados pelas tempestades e furacões.


 


Há tempos esteve por cá uma dirigente sueca numa conferência da liberdade de escolha da escola. Retratou o processo no seu país, que foi decretado na década de noventa do século passado, e concluiu (e estamos a falar duma sociedade que eliminou o analfabetismo no século XIX): aumentou a segregação e pioraram os resultados. Constatou-se a desilusão dos nossos descomplexados competitivos e os suecos estão a mudar de caminho.


 


Ontem aconteceu algo de semelhante:




"(...)a reacção de Margaret Raymond quando lhe disse a dimensão das nossas “unidades de gestão” em Educação. Quando lhe disse que íamos em “unidades” bem acima dos mil alunos, com escolas bem distantes do centro de decisão, o espanto foi evidente pois tinha acabado de dizer que a dimensão das melhores charter schools de Nova York andam pelos 560 alunos. O conselho dela foi, e cito, para que as serrássemos ( to saw).(...)".


 


E mais ainda:




"(...)O respeito que na Holanda se tem pela Constituição e pelas suas opções, com 100 anos, em particular no que se refere à Educação. São opções diferentes das nossas mas a atitude é interessante pois consideram-se erradas as tentativas para a alterar apenas por motivos ideológicos.(...)".


 


Realmente os ventos começam a soprar em sentido contrário aos que não se cansam de acusar uma boa parte dos professores portugueses de corporativos e radicais. Talvez não contassem que o conhecimento do terreno também fosse bem fundamentado. Só lhes resta, como de costume, mudar o azimute das cópias: norte-americanos, suecos e holandeses são perigosos agitadores e os exemplos a seguir serão agora os alemães e não tarda os chineses.

domingo, 2 de setembro de 2012

repetindo

 


 



 


 


1ª edição em 29 de Novembro de 2011




A actual mediatização da rede escolar obedece ao desígnio da produtividade. Há um detalhe que não se deve desprezar: os resultados escolares reflectem-se a longo prazo e são de génese diferente da produção de parafusos; o que faz toda a diferença no impaciente e voraz inferno dos números.


 


O desnorte não é localizável: pelo menos no "decadente" mundo ocidental. O olhar constante e menorizado para as outras experiências impede a valorização das próprias. A rede escolar portuguesa tem um bocado de tudo. Já foi inspirada em inúmeros exemplos: Estados Unidos, França, Noruega, Bélgica, Suécia, Holanda, Finlândia e por aí fora. Mas se estudarmos o que temos feito, talvez percebamos alguma coisa do caminho a seguir.


 


As democracias valorizam, e bem, a ideia de liberdade curricular. É por isso que não se defende a nacionalização total da rede escolar. Há lugar para o privado pago pelos utentes e para o cooperativo pago pelo estado. O segundo caso, e em Portugal, nasceu para chegar onde não havia estado e para perseguir a ideia dos países referidos que têm escolas por emanação das comunidades locais e não por imposição do estado central. Como não temos uma sociedade civil forte, as comunidades transformam as escolas numa espécie de "quintas" que se apoderam impunemente do bem comum.


 


A liberdade de escolha da escola tem na guetização e na segregação social uma variável conhecida; em Portugal também. Sim, porque no nosso país vigora há muito a liberdade de escolha da escola. Como não há escola com vagas ilimitadas, a segregação social é um resultado demasiado humano. E quanto mais desiguais forem as sociedades, mais se acentua o negativo fenómeno.


 


A questão portuguesa tem de passar pela discussão sobre a privatização de lucros no sistema escolar. Enquanto esse debate não se fizer, o processo português dará sempre a ideia de ter uns parafusos a menos.