terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

E estranhamos a indisciplina escolar

 


 


 


 


Portugal é o país da OCDE onde os professores perdem mais tempo com a disciplina para começar uma aula e é onde existem, como hoje se conclui, salas de aula em que "reina a "pequena indisciplina"". E não saímos disto, com o discurso circular de "especialistas" (no caso o antigo responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar) a culpar "mais os professores do que os alunos".


E se procurássemos, definitivamente, outras culpas? Sumariemos: escola a tempo inteiro, ou "armazém", como resultado da sociedade ausente; aluno-cliente como negação dos elementares princípios docimológicos (não tarda e a publicitação da calendarização de testes chega ao primeiro ciclo para que um petiz convoque os advogados porque o professor o submeteu a um questionário de avaliação sem calendarização; isto sim, o nefasto "facilitismo"); uma década de devassa, mediatizada em primeira página, da carreira dos professores; indústria de exames nacionais, com os respectivos quadros de mérito e com a publicitação de resultados de crianças (é a preparação para a selva, dizem "especialistas da ordem contrária"); "supressão" de intervalos escolares; aulas de noventa minutos como receita do 5º ao 12º ano e em todas as disciplinas; mais alunos por turma; mais turmas por professor; terraplenagem do estatuto da carreira dos professores; agrupamentos de escolas como negação da gestão de proximidade e com aumento da hiperburocracia como factor ilusório de controle; legislação de disciplina escolar na lógica de um "tribunal dos pequeninos"; e por aí fora. Se nada de moderado, sensato e democrático acontecer, daqui por uma década voltaremos, seguramente, ao mesmo e, obviamente, aos culpados do costume.


 


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2 comentários:

  1. Num assunto complexo como a educação, não vou ser prolixo como seria desejável para explicar pormenorizadamente o que influencia o processo de ensino-aprendizagem. Usando o modelo resumido e superficial típico da comunicação moderna, o artigo publicado no jornal Público no dia 07/02 referente ao tema da indisciplina, está eivado de um preconceito antigo: que o método pedagógico de lecionar aulas predominante é o expositivismo. Informo que tal não corresponde à verdade dos factos: existem muitos professores que utilizam métodos pedagógicos não expositivistas (onde me incluo, desde que iniciei a carreira há mais de 2 décadas). Portanto, embora ainda possa existir esse método (que é utilizado com predominância no ensino universitário mas não se fala pejorativamente disso…), a realidade é que a tal indisciplina continua a existir mesmo com outros métodos diferentes.
    A mudança profunda na sociedade provocada pelo desenvolvimento tecnológico, veio colocar a escola numa posição muito difícil em relação ao trabalho que realiza com os indivíduos que nasceram e crescem mergulhados nessa sociedade. Os conteúdos que a escola está obrigada a trabalhar são de índole diferente dos conteúdos disponibilizados pelos mass media (Internet, televisão): enquanto estes últimos são eminentemente lúdicos, superficiais, consumo rápido e pouco estimulante da reflexão intelectual, os conteúdos escolares promovem o trabalho intelectual, que envolve raciocínio, compreensão, interpretação e consequentemente, esforço. Portanto, a mente humana obviamente prefere o que é divertido, lúdico, pouco trabalhoso, de consumo rápido e fácil.
    Entre vários fatores que contribuem para o desinteresse escolar (sociais, familiares, económicos, psico-emocionais), o desfasamento entre o que os mass media disponibilizam e o que a escola é obrigada a disponibilizar, provoca dificuldade na captação de interesse dos alunos, com uma evidente concorrência desleal virtualmente impossível de combater.

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  2. É um interessante ângulo de análise que toca em alguns dos pontos referidos.

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