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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Da desorientação


"Escolas pedem mudança na lei e mais apoios para lidar com indisciplina e violência. Uma criança com dedos mutilados e vários outros casos puseram o tema em cima da mesa. FNE pede medidas urgentes para escolas onde “indisciplina se encontra fora de controlo”."


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

"Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina", concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

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Título: "Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina", concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar.


Texto:


"A indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula. Os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. São vítimas de uma organização de trabalho que os adoece, mas são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos." Estas conclusões têm cerca de uma década.


Ora, a mesma OCDE conclui em 2025 ("reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência"): "barulho e interrupções: Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina. A sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo. Em nenhum país a taxa é tão alta."


E o que mais impressiona nestes 10 anos de intervalo, é o silêncio do MECI e o desprezo do mundo político. Quando muito, a direita, que inclui a extremada, finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. Além disso, um manto de mutismo caracteriza as campanhas eleitorais.


Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão do desgaste, da mágoa, da revolta contida e da possibilidade da baixa médica. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata "agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: "cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido."


E o pior é o vigente cruzar de braços. Mas há soluções e sumarie-se duas ou três.


Mude-se radicalmente (e este radical é no mais sensato registo) o trágico, e populista, "estatuto" que fez do encarregado de educação um "cliente que tem sempre razão" na escola, com a habitual alegação indisciplinadora que os miúdos, as crianças-rei, percebem desde cedo: - Se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola.


Este clima é uma das consequências da burocracia, da autocracia desastrosa nos mega-agrupamentos, da avaliação dos professores e do que converteu em "castigo" as horas de redução por idade e tempo de serviço dos seus horários - é até degradante quando a "pena" cai nas mãos de pequenos tiranetes.


Na verdade, recorde-se que a maioria dos professores viu a idade da reforma passar dos 52 (pré-escolar e primeiro ciclo) ou 57 anos de idade (restantes ciclos), para os recentes 66 anos e 11 meses. E como nunca se criaram equipas educativas para leccionar o primeiro ciclo - o professor da turma finge que lecciona todo o currículo e não tem redução de horário com a idade -, infernizou-se os horários dos restantes ciclos - nivelando por baixo e estimulando a divisão da classe - com inutilidades destinadas aos excessos e aos dogmas na avaliação dos alunos, na interdisciplinaridade e nas articulações horizontal e vertical. Como tudo isto se tornou monstruoso sem sistemas de informação modernos e com avaliações externas inspiradas em meados do século XX, a redução transformou-se num "castigo" e num dos principais contributos para o desgaste que dificulta a liderança em ambientes de indisciplina e para a "fuga" ao exercício.


E, claro: se temos anos a fio de ciberbullying e dos algoritmos do ódio (as crianças crescem, desinformam-se e indisciplinam-se num país deslaçado, agressivo e violento), também temos uma maioria política desinteressada em limitar o acesso a redes sociais com o argumento surreal da censura às crianças e jovens.


Aliás, veja-se a indiferença da sociedade com a crescente doença silenciosa dos quadros de mérito académico ou de valor até em crianças do primeiro ciclo e pré-adolescentes (no desporto, já se fazem Campeonatos do Mundo para miúdos de 10 a 12 anos de idade). Para além da tensão relacional entre os miúdos após as primeiras publicações e da violação dos direitos fundamentais, a OMS já inclui o bournout precoce na prevenção da saúde pública (e, no mínimo, reflicta-se com Roy Baumeister ou Michael Sandel). E apesar desta pandemia ainda se sustentar na ditadura portuguesa, a obra fundamental "Nenhuma medalha vale a saúde de uma criança", de Jacques Personne, descreve a tragédia na União Soviética e na RDA. Os quadros e medalhas, equiparados à exploração do trabalho infantil, destinavam-se à arrepiante promoção de dirigentes, médicos, treinadores, professores e políticos, e, tantas vezes, à "sobrevivência" dos progenitores (e também ao ego).


De facto, e em síntese, a prevalecente imaturidade pedagógica, que estimula a indisciplina nas salas de aula, espelha-se em gritantes irresponsabilidades da seguinte família: publicitar informação crítica, e detalhada, sobre as formas de ciberbullying no mesmo espaço escolar onde se divulga quadros de mérito.


Nota: por falar em silêncio e mutismo, registe-se o apagão mediático quase generalizado da seguinte notícia do Público de 27 de Novembro de 2025: "Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise". O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores. Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores.(...)"Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.(...)O professor "não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro", porque é necessária a existência de "mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas"."




sábado, 19 de março de 2022

A Propósito da Onda Mediática da Indisciplina Escolar

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Não se conhecem culpas quando a democracia é empurrada para um degrau inferior. Mas decerto que haverá. A escola, por exemplo, pode dar um importante contributo, em duas ou três gerações, para a consolidação da democracia ou para a sua fragilização. Comprova-se, por muito difíceis que sejam os estudos empíricos, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar dos alunos e a confiança nos professores. E a ambição escolar é tão determinante como as condições sócio-económicas.


Como Portugal tem elevadas taxas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia. Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com quem eliminou o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo e a confiança nos professores é preciosa. É um requisito relacional decisivo para a robustez da democracia. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e "cria" escolas para os "mais informados". E é essa segregação social (porque as escolas têm limites de vagas) que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia (é ler Hannah Arendt).


Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciado pela hiperburocracia, pela avaliação de professores em modo administrativo kafkiano e de farsa "meritocrática", pelo estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) e pelo modelo de gestão escolar (um recuo democrático já desaconselhado no século passado). São instrumentos fundamentais que entraram num caminho disruptivo, contribuindo assim de modo indesculpável para a fragilização da democracia.


Texto reescrito.


1ª edição em 10 de Maio de 2012.


 


Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos",


uma intemporal homenagem à democracia.

domingo, 10 de novembro de 2019

Do Dever de Indignação

 


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O último "prós e contras" abriu com o testemunho de um professor: "já fui agredido sete vezes". Para além da coragem, não é difícil imaginar a brutalidade que um depoimento destes acarreta. Pelo que percebi, e com excepção da moderadora, não se registou a solidariedade ao agredido que estava presente e que até fez mais do que uma intervenção. Ao que saiba (e é seguro dizê-lo propositadamente quase uma semana depois), o Governo não emitiu uma nota indignada e solidária com o agredido e nem sequer ocorreu uma selfie do PR; e convém recordar o que disse um antigo PR sobre o "direito à indignação": "a indignação pode tornar-se violenta se o Governo ignorar o povo". 


A prevenção da "banalização do mal" - esse lento e eficaz processo de vinculação à indiferença - exige o dever de indignação. A agressão a um professor é intolerável. Não é preciso recuar muito para se perceber que era um escândalo numa comunidade. E importa precisar que não há estudos empíricos que concluam da especial violência de uma dada geração. A propósito, um conferencista inglês lançava frases do género, "esta geração de jovens está perdida", intervaladas pelos aplausos da plateia; datou-as no fim: Grécia Antiga, Antiga Roma, Idade Média, Renascimento, Iluminismo e actualidade.  Para além disso, sempre foi complexo liderar uma sala de aula. A liderança é um misto de factores inatos e adquiridos em percentagens impossíveis de normalizar. Os professores não são todos iguais e exige-se o dever de os alunos os respeitarem. Se se subvaloriza a pequena indisciplina, que exige a indignação imediata de todos (a OCDE concluiu, em 2017, que somos os primeiros nesse parâmetro - e há causas identificadas -), a grande indisciplina tem as portas abertas e não apenas sobre os professores.


 


Imagem: registei esta imagem em Vila Nova de Cerveira, no Minho. É a região onde reside e lecciona o professor que testemunhou no programa.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Finalmente, o Discurso Oficial Reconhece o Problema

 


Ouvi (08h00 na Antena1) a presidente do Conselho Nacional de Educação dizer que é necessário agir em relação à indisciplina escolar afirmando que "a pequena indisciplina está a crescer". Finalmente, o discurso oficial reconhece o problema embora falte perceber quais as acções necessárias: se se quer mudar mesmo como identificam os estudos (e as realidades confirmam) ou se, pelo contrário, se mantêm os pilares do neoliberalismo acrescentados ainda de mais ruído: "Chumbar um aluno “não serve para nada”, diz presidente do Conselho Nacional de Educação".


"Estudante de 16 anos internada em estado grave após agressão em Portalegre"


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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A Propósito do Pico Mediático da Indisciplina Escolar

 


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Não se conhecem culpas quando a democracia é empurrada para um degrau inferior. Mas decerto que haverá. A escola, por exemplo, pode dar um importante contributo, em duas ou três gerações, para a consolidação da democracia ou para a sua fragilização. Comprova-se, por muito difíceis que sejam os estudos empíricos, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar dos alunos e a confiança nos professores. E a ambição escolar é tão determinante como as condições sócio-económicas.


Como Portugal tem elevadas taxas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme em autofagia. Há uma justificação no longo prazo se nos compararmos com quem eliminou o analfabetismo no século XIX e onde a ambição escolar é inquestionável. Contudo, há variáveis importantes no curto prazo e a confiança nos professores é preciosa. É um requisito relacional decisivo para a robustez da democracia. Para além de tudo, a desconfiança nos professores é intuída pelos alunos, desautoriza salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e "cria" escolas para os "mais informados". E é essa segregação social (porque as escolas têm limites de vagas) que dificulta a redução do abandono escolar. A "miscigenação das diversas condições" é tão determinante para a elevação das escolas e dos sistemas escolares como é, em sentido lato, para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia (é ler Hannah Arendt).


Regredimos na última década e meia. Houve um choque de desconfiança nos professores evidenciado pela hiperburocracia, pela avaliação de professores em modo administrativo kafkiano e de farsa "meritocrática", pelo estatuto do aluno (o "cliente tem sempre razão" não se pode aplicar à escola) e pelo modelo de gestão escolar (um recuo democrático já desaconselhado no século passado). São instrumentos fundamentais que entraram num caminho disruptivo, contribuindo assim de modo indesculpável para a fragilização da democracia.


Texto reescrito.


1ª edição em 10 de Maio de 2012.


 


Imagem do célebre "Clube dos Poetas Mortos",


uma intemporal homenagem à democracia.


 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Deter versus Averiguar

 


A mediatização do universo escolar sobreaqueceu com a indisciplina e se há assunto que dispensa "cabeças quentes" é este. É um tema que exige conhecimento dos detalhes, mas há tendências mediáticas gerais observáveis. Ao que consta, um professor agrediu um aluno do 8º ano. Foi detido pela PSP no mesmo dia e o ME emitiu uma nota sobre o assunto e suspendeu de imediato o professor. Também pelos relatos dos OCS, é frequente a agressão a professores por encarregados de educação ou alunos. Não se conhece qualquer detenção (muito menos imediata) e regista-se o silêncio do ME. Ou seja, um professor é detido de imediato e os restantes agressores são alvo de averiguações sem detenção. Já para a mediática parcialidade do ME haverá uma qualquer explicação com uma longa história; é que, nestes casos da mediatização, às instituições exige-se todo cuidado em se ser e parecer.


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quinta-feira, 17 de maio de 2018

da pequena indisciplina nas escolas

 


 


 



Vamos lá repetir:



qual é o país da OCDE onde os professores perdem mais tempo com a disciplina para começar uma aula?


É Portugal, onde existem inúmeras salas de aula em que "reina a "pequena indisciplina"". E não saímos disto, com o discurso circular de "especialistas" (em 07 de Fevereiro de 2017) a culpar "mais os professores do que os alunos". E se procurássemos, definitivamente, outras culpas?



Cerca de um ano depois, olhemos para as componentes críticas e para o que foi feito.



Sumariemos: escola "armazém", como resultado da sociedade ausente; aluno-cliente como negação dos elementares princípios docimológicos (não tarda e a publicitação da calendarização de testes chega ao primeiro ciclo para que um petiz convoque os advogados porque o professor o submeteu a um questionário de avaliação sem calendarização; isto sim, o nefasto "facilitismo"); uma década de devassa, mediatizada em primeira página, da carreira dos professores; indústria da medição, com os respectivas pautas e quadros de mérito para os resultados de crianças (é a preparação para a selva, dizem "especialistas da ordem contrária"); "supressão" de intervalos escolares; aulas de noventa minutos como receita do 5º ao 12º ano e em todas as disciplinas; mais alunos por turma; mais turmas por professor; terraplenagem do estatuto da carreira dos professores; agrupamentos de escolas com organograma "impensado" e com aumento da hiperburocracia como factor ilusório de controle; legislação de disciplina escolar na lógica de um "tribunal dos pequeninos"; e por aí fora.



Se nada de moderado, sensato e democrático acontecer, daqui por uma década voltaremos, seguramente, ao mesmo e, obviamente, aos culpados do costume.


 


2ª edição.



 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

da pequena indisciplina escolar

 


 


 



Vamos lá repetir:



qual é o país da OCDE onde os professores perdem mais tempo com a disciplina para começar uma aula?


É Portugal, onde existem inúmeras salas de aula em que "reina a "pequena indisciplina"". E não saímos disto, com o discurso circular de "especialistas" (em 07 de Fevereiro de 2017) a culpar "mais os professores do que os alunos". E se procurássemos, definitivamente, outras culpas?



Cerca de um ano depois, olhemos para as componentes críticas e para o que foi feito.



Sumariemos: escola "armazém", como resultado da sociedade ausente; aluno-cliente como negação dos elementares princípios docimológicos (não tarda e a publicitação da calendarização de testes chega ao primeiro ciclo para que um petiz convoque os advogados porque o professor o submeteu a um questionário de avaliação sem calendarização; isto sim, o nefasto "facilitismo"); uma década de devassa, mediatizada em primeira página, da carreira dos professores; indústria da medição, com os respectivas pautas e quadros de mérito para os resultados de crianças (é a preparação para a selva, dizem "especialistas da ordem contrária"); "supressão" de intervalos escolares; aulas de noventa minutos como receita do 5º ao 12º ano e em todas as disciplinas; mais alunos por turma; mais turmas por professor; terraplenagem do estatuto da carreira dos professores; agrupamentos de escolas com organograma "impensado" e com aumento da hiperburocracia como factor ilusório de controle; legislação de disciplina escolar na lógica de um "tribunal dos pequeninos"; e por aí fora.



Se nada de moderado, sensato e democrático acontecer, daqui por uma década voltaremos, seguramente, ao mesmo e, obviamente, aos culpados do costume.


 


Já usei esta argumentação noutros posts.



 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

da indisciplina escolar

 


 


 


Qual é o país da OCDE onde os professores perdem mais tempo com a disciplina para começar uma aula? É Portugal, onde existem inúmeras salas de aula em que "reina a "pequena indisciplina"". E não saímos disto, com o discurso circular de "especialistas" (em 07 de Fevereiro de 2017) a culpar "mais os professores do que os alunos". E se procurássemos, definitivamente, outras culpas? Um ano depois, olhemos para as componentes críticas e para o que foi feito.


Sumariemos: escola "armazém", como resultado da sociedade ausente; aluno-cliente como negação dos elementares princípios docimológicos (não tarda e a publicitação da calendarização de testes chega ao primeiro ciclo para que um petiz convoque os advogados porque o professor o submeteu a um questionário de avaliação sem calendarização; isto sim, o nefasto "facilitismo"); uma década de devassa, mediatizada em primeira página, da carreira dos professores; indústria da medição, com os respectivas pautas e quadros de mérito para os resultados de crianças (é a preparação para a selva, dizem "especialistas da ordem contrária"); "supressão" de intervalos escolares; aulas de noventa minutos como receita do 5º ao 12º ano e em todas as disciplinas; mais alunos por turma; mais turmas por professor; terraplenagem do estatuto da carreira dos professores; agrupamentos de escolas com organograma "impensado" e com aumento da hiperburocracia como factor ilusório de controle; legislação de disciplina escolar na lógica de um "tribunal dos pequeninos"; e por aí fora. Se nada de moderado, sensato e democrático acontecer, daqui por uma década voltaremos, seguramente, ao mesmo e, obviamente, aos culpados do costume.


 


Já usei esta argumentação noutros posts.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

E estranhamos a indisciplina escolar

 


 


 


 


Portugal é o país da OCDE onde os professores perdem mais tempo com a disciplina para começar uma aula e é onde existem, como hoje se conclui, salas de aula em que "reina a "pequena indisciplina"". E não saímos disto, com o discurso circular de "especialistas" (no caso o antigo responsável pelo Observatório de Segurança em Meio Escolar) a culpar "mais os professores do que os alunos".


E se procurássemos, definitivamente, outras culpas? Sumariemos: escola a tempo inteiro, ou "armazém", como resultado da sociedade ausente; aluno-cliente como negação dos elementares princípios docimológicos (não tarda e a publicitação da calendarização de testes chega ao primeiro ciclo para que um petiz convoque os advogados porque o professor o submeteu a um questionário de avaliação sem calendarização; isto sim, o nefasto "facilitismo"); uma década de devassa, mediatizada em primeira página, da carreira dos professores; indústria de exames nacionais, com os respectivos quadros de mérito e com a publicitação de resultados de crianças (é a preparação para a selva, dizem "especialistas da ordem contrária"); "supressão" de intervalos escolares; aulas de noventa minutos como receita do 5º ao 12º ano e em todas as disciplinas; mais alunos por turma; mais turmas por professor; terraplenagem do estatuto da carreira dos professores; agrupamentos de escolas como negação da gestão de proximidade e com aumento da hiperburocracia como factor ilusório de controle; legislação de disciplina escolar na lógica de um "tribunal dos pequeninos"; e por aí fora. Se nada de moderado, sensato e democrático acontecer, daqui por uma década voltaremos, seguramente, ao mesmo e, obviamente, aos culpados do costume.


 


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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Finlandeses apresentaram a reforma de ensino há sete meses

 


 


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A notícia do Expresso de 12 de Março de 2016 sublinhava que a Finlândia era "um país sem exames nem inspecção, em que as mudanças só aconteciam de 10 em 10 anos, em que todos participavam na discussão e em que a expressão-chave era a confiança nos professores".


E é isto. 


Por cá é a indisciplina escolar, a desconfiança enraizada, a inabilidade na educação, a sociedade ausente, a escola a tempo inteiro, a discussão à volta de mais ou menos prova para "disciplinar" crianças, as avaliações externas centradas na produção de papelada medida às resmas e a "apatia" na participação democrática. O que levamos de milénio (onde ministros se acharam providenciais e plenipotenciários) instituiu o modismo taylorista, exportado pelos EUA para o Japão no inicio do século passado. Acrescentaram-se programas informáticos de empresas comerciais a dirigir modelos organizacionais. E depois, queremos mais mobilização e menos "saturação, exaustão e fuga" (burnout).

terça-feira, 5 de abril de 2016

boreout (4) escola para todos?

 


 


 


 



A Direcção Regional de Educação de Lisboa convidou-me para falar sobre segurança escolar. Foi em Óbidos, na Casa da Música. Dei uma vista de olhos na papelada e não encontrei o certificado, mas tenho a certeza que foi na primavera de 2004. Quando me telefonaram, lembro-me de lhes ter perguntado: "Sobre segurança? Então?". "Porque a tua escola estava mergulhada em indisciplina e insegurança e hoje isso é mais do que residual". Respondi-lhes: "Ok. Obrigado. Mas o que vou dizer não é, provavelmente, aquilo que vocês querem ouvir" (pressentia o que se viria a passar a seguir no sistema escolar - começou a desenhar-se em 2002 - de perseguição aos professores, embora nunca imaginasse que fosse tão mau como foi).




 




Dei um vista de olhos pelos tópicos que utilizei e faço uma síntese com a ideia de apresentar alternativas à escola-industria e focado na boreout:


 






  • participação empenhada em diversos programas que envolveram a segurança na zona envolvente, nomeadamente com os projectos escola segura e Malhoa;

  • dados todos tratados em sistemas de informação construídos na escola;

  • construção e desenvolvimento de um núcleo de comunicação social que produz o website escolar, o jornal escolar e uma página na edição impressa do jornal local com mais audiência;

  • eliminação, mas eliminação mesmo, da má burocracia (vulgo papelada) e construção de horários escolares adaptados, mas adaptados mesmo, ao projecto educativo e aos transportes escolares dos alunos;

  • trabalho persistente e muito bem preparado ao nível da rede escolar, com a preocupação de reduzir o número de alunos por turma e de encontrar outras soluções de escolaridade para os alunos com um percurso a indiciar abandono escolar;

  • ausência de campainhas; 

  • intervalos durante as aulas de 90 minutos adequados à conveniência pedagógica e didáctica da responsabilidade de cada professor;

  • celebração diária dos aniversários de todos (o nosso quadro de mérito);

  • vasos com plantas todos os dias e não apenas nos dias das visitas institucionais;

  • papel higiénico, saboneteiras e secadores de mãos em todas as casas de banho;

  • regras simples, transparentes e exequíveis para os casos de indisciplina (começou com uma expulsão (embora a rede social não tivesse sido descurada), seguiram-se várias suspensões (em regime sumaríssimo e sempre em articulação com a associação de pais e com os encarregados de educação em causa) com leitura do texto da sanção em todas as salas de aula e em tempo útil, e nos últimos três anos nada disso aconteceu);

  • e, finalmente, o mais importante: a escola não é apenas inclusiva para os alunos (honra-nos muito que a DREL indique a escola para os alunos com necessidade educativas especiais) mas é-o também para os professores e para os funcionários (e isso significa confiança, mas confiança mesmo, e respeito pelas pessoas) como fazem as organizações bem sucedidas (mas só o modo como isso se faz dava para outra conferência). Temos todo o cuidado em proporcionar as melhores condições para a realização das aulas e nesta escola só resolve os problemas sozinho quem quer.


(1ª edição em 10 de Maio de 2010)


 


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sábado, 12 de março de 2016

"Finlandeses apresentam a reforma do ensino na próxima semana"

 


 


 


A notícia do Expresso sublinha que a Finlândia é "um país sem exames nem inspecção, em que as mudanças só acontecem de 10 em 10 anos, em que todos participam na discussão e em que a expressão-chave é a confiança nos professores". Nem por acaso, um dos editores do blogue "ComRegras" (muito dinâmico nestes primeiros 15 meses), o Alexandre Henriques, informa que o seu trabalho de investigação sobre a indisciplina escolar atingiu o momento mais mediático da história do blogue.


 


E é isto.


 


Por cá é a indisciplina escolar, a desconfiança enraizada, a inabilidade na educação, a sociedade ausente, a escola a tempo inteiro, a discussão à volta de mais ou menos prova para "disciplinar" crianças, as "aulas inovadoras" como quem inventou a roda e a "apatia" na participação democrática. O que levamos de milénio (onde até ministros se acharam providenciais e plenipotenciários) instituiu o modismo taylorista, exportado pelos EUA para o Japão no inicio do século passado: um pensa e muitos executam; por cá acrescentaram-se os programas informáticos (software) de empresas comerciais (outsourcing), em "parceria" com programas de avaliação externa anteriores à sociedade da informação e do conhecimentoa dirigir os modelos organizacionais. E depois queremos mais mobilização e menos "saturação, exaustão e fuga" (burnout) dos profissionais.


 


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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Do após Nuno Crato

 


 


 


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Do exercício de Nuno Crato ficam duas variáveis a corrigir (faliram na fundamentação, se é que ainda era preciso): alunos por turma e empobrecimento curricular. O seu ministério acentuou duas componentes críticas: degradação do estatuto dos professores (que se pagará durante muitos anos) e modelo, mega, de gestão escolar.


 


Lembrei-me da entrevista, na imagem, ao ex-MEC (12 de Julho de 2014) publicada no Observador. Andava-se à volta do elevado número de professores, uns 4 mil, que solicitaram a rescisão contratual; com um programa favorável a "fuga" atingiria uns 30 a 40 mil.


 


Crato culpou a indisciplina, mistificou assuntos sérios e contraditou-se. Foi óbvia a interrogação do jornalista: não devia então diminuir o número de alunos por turma em vez de aumentar? Crato tergiversou e revelou-se adepto do mercado escolar. Devia saber que onde esse mercado se instalou em Portugal (e pode ir à Suécia e afins), e considerando que o eduquês de Crato olha para os encarregados de Educação (EE) como "clientes-tout-court", os EE que mais contribuem para a indisciplina impõem a sua cultura e isso alastra-se numa sociedade ausente como a nossa.


 


A destruição do estatuto dos professores foi, é e será, a causa da "fuga" e só não concluiu assim quem nunca pôs os pés numa sala de aula. A profissionalidade, e a confiança democrática, dos professores não recebeu uma notícia positiva na última década e só com uma boa dose de cinismo se conseguiu argumentar com o "desgaste de uma profissão difícil".


 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

crato culpa a indisciplina

 


 


 


 



 


 


 


Nuno Crato tem sido interrogado por jornalistas por causa do elevado número de professores que querem rescindir com o MEC. Ao que julgo saber, existem 93 milhões de euros para rescisões, mas as solicitações, cerca de 4000, já vão em mais de 400 milhões. E se as condições do programa fossem mais favoráveis, os números da "fuga" andariam pelos 30 a 40 mil.


 


Recebi um email com um link para o Observador donde tirei a primeira imagem. Escolhi para a segunda imagem, lá mais abaixo, uma parte da entrevista a Nuno Crato no último Expresso.


 


Nas duas entrevistas (até perecem uma só), Crato culpa a indisciplina e desresponsabiliza o aumento do número de alunos por turma. Aponta um número em que vale tudo: uma média de 22 alunos por turma no ensino não superior, na média da OCDE e que já se verificava em 2009. Ou seja, faz uma média incluindo as turmas do 1º ao 12º anos de escolaridade e faz uma espécie de mescla: turmas com alunos inibidores, turmas de cursos CEF, turmas de cursos profissionais, turmas regulares e turmas regulares de opções. Interroguem-se os professores e, se houvesse uma réstia de confiança nesses profissionais, saber-se-ia que as turmas têm excesso de alunos.


 


Estes assuntos exigem muita tecla, mas é óbvia a interrogação dos jornalistas: depois do que disse, não devia diminuir o número de alunos por turma em vez de aumentar? Claro que devia diminuir. Nenhuma turma devia funcionar com mais de 24 alunos em qualquer ciclo de escolaridade, as turmas com alunos inibidores da sua formação com 18 (para 2) ou 20 (para 1) e as turmas dos vocacionais, profissionais e opções com um máximo de 16 e em alguns casos 12. Mas já se sabe que Crato é para além da troika e que não tem coragem para o assumir. Limita-se a mistificar assuntos sérios.


 


O ministro revela, naturalmente, um apego à concorrência entre escolas. É adepto do mercado escolar. Devia saber que onde esse mercado já está instalado em Portugal, e se considerarmos que o eduquês menos sensato, como o de Crato, olha para os encarregados de Educação como "clientes-tout-court", os encarregados de Educação que mais contribuem para a indisciplina impõem a sua cultura às escolas que cada vez mais dependem da matrícula dos seus educandos. Isso é fatal e alastra-se numa sociedade demasiado ausente como a nossa.


 


A destruição do estatuto dos professores no que levamos de milénio é a causa principal da "fuga" e só não conclui assim quem não põe os pés numa sala de aula.


 


Sejamos claros: há mais de 10 anos que a profissionalidade dos professores não recebe uma notícia positiva e é preciso uma boa dose de cinismo para vir agora argumentar com o "desgaste de uma profissão difícil" depois dos cortes a eito para além da troika e de toda a tralha de eduquês II associada. E é ainda mais grave se considerarmos a campanha eleitoral do actual Governo que denunciou a confessada guerra aos professores perpetrada pelos executivos de Sócrates.


 


 


 



 


 


 


 


 

terça-feira, 8 de abril de 2014

do iluminismo à ciência actual

 


 


 


 


 


Quando há pouco tempo fiz este post a propósito de uma espécie de investigação de Maria Filomena Mónica e em que escrevi que ""Tudo o que o Ministério da Educação manda por "e-mail" para as escolas é inútil. Tudo!", ou o professor "abaixo de cão", é uma discussão para acompanhar com curiosidade. Tenho uma dissertação sobre o assunto e não quero reafirmar o "tudo"; mas convenço-me que anda lá perto, que a maioria da informação obtida é inútil e solicitada repetidamente." estava longe de imaginar que umas opiniões sobre o tratamento da informação nas organizações escolares também incluíam conclusões devastadoras para a disciplina nas salas de aula das escolas públicas. O que podia ser uma defesa de uma causa tão nobre pode transformar-se num testemunho de um caos que está por provar.


 


Há indisciplina, mas também continuam a existir milhares de sinais positivos todos os dias. Os diários de duas professoras, quatro alunas e uma mãe são uma amostra sempre interessante, mas com reduzido valor empírico numa área muito difícil de investigar. Digamos que do iluminismo à ciência actual vão algumas premissas que devem ser consideradas. Foi assim que li as breves observações que o Paulo Guinote fez a algumas conclusões de Maria Filomena Mónica. A socióloga e historiadora respondeu de forma deselegante e o Paulo ripostou assim.


 


 


 


 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Entrevista à "Mais Oeste Rádio" sobre Educação (partes 1 e 2)

 


 


 


 


Um blogue é também um registo algo intimista que nos permite arquivar acontecimentos para memória futura.


 


No dia 18 de Dezembro de 2013, e conforme o prometido, voltei à Mais Oeste Rádio para uma hora de conversa com Jorge Santos (um ex-aluno dos primeiros tempos nas Caldas da Rainha e é mesmo uma viagem no tempo ser entrevistado nessas circunstâncias) e com o José Ramalho do CCC das Caldas da Rainha com quem me habituei a ter conversas muito interessantes. A entrevista acabou por se prolongar por duas horas e passei um bom bocado. O Jorge Santos fez o favor de colocar o áudio no youtube e de me enviar os links (um para cada hora) que permite ouvir e arquivar.


 


 



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