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domingo, 20 de julho de 2014

crato já não tem mais pés nem mãos para baralhar

 


 


 


N.Crato já mete os pés pelas mãos nas mais variadas posições e desta vez nem se pode refugiar na questão financeira para além da troika. Deixou cair as componentes específicas da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades dos professores contratados e fica-se pela componente comum numa espécie de prova geral de acesso ao ensino superior que há uns anos conseguiu um estatuto menos ridículo antes de cair com estrondo. N. Crato entrou em contradição uniformemente acelerada.


 


A propósito da "excelência no ensino" segundo a mente dos Lurditas D´Oiro, recordo uma passagem de um texto, no Público, de Desidério Murcho que publiquei no Correntes, neste post de 11 de Junho de 2008 que inclui uma troca de comentário com o autor, e que tenho a certeza que o discurso enganador e de Eduquês II de Crato subscreveria.


 


"(...)Um bom professor, seja de que matéria for, tem de dominar até à letra H se leccionar até à letra D. Não pode dar-se o caso de andar a leccionar até à letra H dominando apenas as matérias até à letra D. Mas não se deve encarar como escandaloso que um professor não tenha os conhecimentos que devia ter. Afinal, o mundo não é perfeito e as universidades que os formaram também não. O que importa é partir dessa realidade e fazer algo que seja construtivo. E o que há de construtivo a fazer é, cooperando, criar estruturas que permitam que quem sabe mais e conhece melhor as bibliografias relevantes possa partilhar os seus conhecimentos com os colegas. Enquanto na escola não houver uma atitude de genuína partilha de conhecimentos, o ensino será só a fingir(...)"


 


 



 


 


 


 

terça-feira, 10 de março de 2009

escola e exclusão social

 


 


Pode ler um belo texto de Desidério Murcho, publicado no jornal Público na última terça-feira.


 


O texto está no seu blogue, aqui, e merece uma leitura atenta.


 


 



Entretanto, e à volta de uma interessante discussão onde muitos defendiam que Desidério Murcho pugna pelo fim das escolas profissionais, inseri o seguinte comentário noutro blogue. 



"Não é assim que leio o pensamento de Desidério Murcho. O que me parece inaceitável e perverso é criar escolas públicas no modelo “armazém para os filhos dos pobres” em contraponto às escolas privadas para os filhos dos ricos. Leio, há muito, o que ele escreve, e penso que Desidério Murcho considera perverso e inaceitável que se considere que os filhos dos pobres são, em termos “genéticos”, incapazes para ter acesso ao ensino das humanidades: literatura, história e filosofia, por exemplo. Ele levanta uma questão civilizacional e que está para além da espuma dos dias. Não me parece que ele não equacione tudo o que aqui tem sido escrito. Está a tentar, desesperadamente, lançar a importante discussão da escola pública de qualidade para todos. A escola que queremos para os nossos filhos e não a escola que o pragmatismo nos leva a defender mas só para os filhos dos outros. E essa luta é longa e difícil; difícil, como ele sublinha.


 


Parece-me, apenas.


Abraço.



 

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

avaliação e mentira

 


 


Das teclas de Desidério Murcho, o jornal Público de hoje tem uma crónica que toca no osso de alguns dos problemas relacionados com a avaliação dos professores.


 


Ora leia:


 


 


 


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

hierarquias

 


 


 


 


Desidério Murcho escreve às terças-feiras no caderno P2 do jornal público. Já por aqui dei conta da excelência das suas crónicas e do lugar que veio preencher: aquele que estava reservado ao saudoso Eduardo Prado Coelho. O fio do horizonte era diário e merecia uma leitura obrigatória. Era por ali que começava sempre a leitura do jornal. Nesta altura, as terças-feiras obedecem ao mesmo ritual.


 


Desidério Murcho escreveu ontem mais uma pérola. O seu conteúdo também pode ser aplicado ao ambiente que se vive nas escolas portuguesas.


 


Ora leia.


 


 


"Uma das características humanas mais desprezíveis é o sentido das hierarquias, que se faz sentir onde seria de esperar alguma sensatez. Para muitas pessoas, a ortografia, a pronúncia, as referências livrescas ou culturais são meros adereços sociais que se usam unicamente com o fim de exibir imaginadas superioridades sociais. Prostitui-se assim a cultura, as artes, as ciências e até a própria língua, pondo todas estas coisas ao serviço do que não devia ter qualquer importância e devia ser encarado como uma repreensível mania infantil, imprópria para pessoas adultas. A situação é sempre condenável e por vezes risível: o objecto de tão desapropriadas atitudes é muitas vezes um artista ou filósofo que não tinha sangue azul, não era particularmente culto excepto na sua própria área, e sobretudo não era rico nem poderoso.



Esta concepção algo aristocrática das artes, da filosofia e das ciências é comum. O que está em causa é a síndrome humana do Toque de Midas do Avesso, que consiste em tornar em esterco simiesco mais ou menos tudo aquilo em que toca: algumas pessoas elegem como o mais importante da vida a questão infantil de saber quem é mais catado e por quem, ou quem sobe mais alto na árvore social e à custa de espezinhar quem. Política, vida empresarial e pessoal, vida académica e artística, blogs, livros, dinheiro e tudo o mais pode ser prostituído, transformando-se em mero instrumento de exibição de estatuto social.



Este tipo de prostituição é mais comum nas artes, filosofia e humanidades do que nas ciências. Quando se lê Carl Sagan ou outros grandes divulgadores de ciência, compreende-se que estamos perante aspectos cognitivos dos mais sofisticados que os seres humanos alguma vez produziram; no entanto, tais conhecimentos são-nos oferecidos com clareza e simplicidade e o leitor não se sente colocado numa situação de inferioridade cognitiva. Em contraste com isto, basta folhear um suplemento cultural de um jornal para se encontrar um uso peculiar das palavras, em que estas perderam o poder de invocar pensamentos identificáveis, colocando-se ao invés toda a ênfase na transmissão da mensagem infantil de que o autor é culto — e com isso tudo o que se pretende realmente dizer é que é superior a nós, mais elevado, mais próximo dos deuses do Olimpo: um aristocrata. A filosofia, a história ou a teoria da literatura não são vistas como áreas acessíveis a todos, como a biologia, mas antes como disciplinas de cultura geral cuja vagueza de contornos é cuidadosamente acoplada à lama gramatical para assim poder servir de instrumento de opressão social e psicológica.



Encarar a filosofia, as artes e as actividades cognitivas em geral como instrumentos de opressão social e pessoal é um sinal da insaciável estupidez humana. O facto de este tipo de actividade ser comum em escolas, universidades, jornais e debates públicos só agrava a afronta. Era tempo de pensar outra vez se é realmente para isto que serve a cultura."


 


 


 


 


(Agradeço a Desidério Murcho a possibilidade


que me deu de publicar, deste modo,


os seus escritos).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

ensinar a fingir

 











Desidério Murcho escreve bem e tem boas opiniões. Tenho ideia que este professor de filosofia sabe do que escreve e que não faz parte da cultura "on bullshit" em que os média, em grande medida, se transformaram.





Desidério Murcho passou a escrever no caderno p2 do jornal Público. As suas publicações inserem-se num espaço que antes estava reservado a Eduardo Prado Coelho.





Esta semana volto a fazer um post com a sua excelente crónica.





Ora leia.





"Ensinar a fingir.


 


Ensinar é difícil. Exige virtudes que poucos seres humanos têm: paciência, humildade, curiosidade científica, sensibilidade pedagógica e didáctica, gosto em dar a saber a quem sabe menos, gosto pelo contacto humano com os estudantes. Acresce que não há métodos automáticos que garantam a excelência do ensino, tal como não há métodos automáticos que garantam a excelência da investigação. Exige-se perspicácia, maturidade, inteligência, criatividade, vistas largas.


A excelência do ensino depende exclusivamente dos professores. Algumas medidas do governo central podem potenciar ou estimular a excelência educativa, mas não podem criá-la por decreto. De modo que toda a intervenção do ensino que vise a excelência educativa tem de ser sobretudo um estímulo aos professores para fazer melhor.


E os professores não podem fazer melhor se não estudarem, pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores.


A mentalidade portuguesa não facilita as coisas. Mal se tenta corrigir um colega, isso é encarado como arrogância, e não como um gesto de partilha. Mal se procura divulgar bibliografias adequadas, isso é encarado como tentativa de imposição ideológica de uns autores em detrimento de outros. Com esta mentalidade, é difícil criar ensino de qualidade. 


Ao longo dos anos, e sobretudo ultimamente, o papel do Ministério da Educação tem sido largamente guiado pelo único tipo de coisa que os políticos e os burocratas conhecem: a realidade virtual. Não importa se os estudantes realmente aprendem, desde que se finja que aprendem e desde que não sejam reprovados. Também não interessa se os professores realmente ensinam, desde que preencham grelhas e formulários infinitos, para dar a impressão de que estão a trabalhar. 


É que para a mentalidade burocrática e política, segundo a qual a realidade só tem densidade se estiver organizada num formulário, passar duas horas a ler um livro deve ser o cúmulo do desperdício de tempo dos professores. No entanto, para se dar uma revolução no nosso ensino bastaria que os nossos professores estudassem diariamente, durante duas horas, livros cientificamente sólidos sobre a sua área de actuação.


Um bom professor, seja de que matéria for, tem de dominar até à letra H se leccionar até à letra D. Não pode dar-se o caso de andar a leccionar até à letra H dominando apenas as matérias até à letra D. Mas não se deve encarar como escandaloso que um professor não tenha os conhecimentos que devia ter. Afinal, o mundo não é perfeito e as universidades que os formaram também não. O que importa é partir dessa realidade e fazer algo que seja construtivo. 


E o que há de construtivo a fazer é, cooperando, criar estruturas que permitam que quem sabe mais e conhece melhor as bibliografias relevantes possa partilhar os seus conhecimentos com os colegas. Enquanto na escola não houver uma atitude de genuína partilha de conhecimentos, o ensino será só a fingir". 

quarta-feira, 4 de junho de 2008

desidério murcho e o acordo ortográfico

 


 


 



 


 



 


 


Encontrei mais um texto muito interessante sobre o acordo ortográfico. O seu autor é Desidério Murcho.


 


Ora leia. O autor intitulou-o de "Fascismo linguístico".


 




 

"O fascismo está inscrito na mentalidade portuguesa. Mal se fala da língua portuguesa, desata-se a usar maiúsculas, a falar da pátria, da expansão e só não se fala da conquista e colonização de outros povos porque nos tempos que correm isso é um bocadito excessivo. Como acontece com todas as mentalidades fascistas, ergue-se um facho não apenas para ser seguido cega e acriticamente, mas também para esconder as misérias. Itália era uma miséria europeia, quando inventou a força do fascismo e o orgulho italiano; a Alemanha estava num caos económico e social, quando fingiu descobrir que era detentora de uma raça e de uma língua ímpares, que conduziriam os destinos da civilização por mais de mil anos.

A suprema importância universal da língua portuguesa é uma treta. Uma treta reveladora de mentalidades e atitudes e que mostram quão longe estamos de ser uma sociedade genuinamente democrática e livre, sem atavismos fascizantes - hoje em dia baseados na língua, porque não o podem ser nas caravelas. Os seres humanos são seres humanos - falem ou não português e escrevam ou não "óptimo" com "p". E cada ser humano, em si, é mais importante do que quaisquer sonhos de conquistas futuras, de grandiosidades épicas, de poderios imaginários. O que importa é dar aos portugueses as mesmas oportunidades para se realizarem do que qualquer outra pessoa em qualquer outra parte do mundo - como matemáticos, poetas ou filósofos, físicos, pianistas ou jornalistas, padeiros, taxistas ou empresários. O resto são atavismos que têm precisamente o efeito contrário, atravancando o país.


País que poderia perfeitamente ter desaparecido há 400 anos sem que as principais realizações artísticas, científicas e políticas da humanidade tivessem sido substancialmente diferentes. As grandes realizações da humanidade, com valor universal e universalmente reconhecidas, não são portuguesas. Além dos Descobrimentos, nada demos à humanidade que seja reconhecido. Somos um povo sem grandes realizações, como os suecos, os dinamarqueses ou os corsos - mas qual é o problema disso? Porquê andar a sonhar com o quinto império, que não é outra coisa senão o colonialismo salazarista temperado com versos épicos de gosto duvidoso? 

Seria mais avisado assumirmos o que somos: um pequeno país, no seio da Europa, com imensas dificuldades em criar riqueza e avesso a uma mentalidade livre e democrática. Assumir isso seria o primeiro passo para conseguirmos, com boa vontade e realismo, cooperando entre todos, transformar um pequeno país numa sociedade justa, de bem-estar, desenvolvida, que ofereça aos seus membros as melhores condições para desenvolverem os seus talentos e darem assim as suas contribuições para o desenvolvimento da humanidade. 

Precisamos de melhor ensino, melhores políticos, melhor pensamento científico, filosófico e artístico. Nada disto se consegue enquanto continuarmos a tapar o sol com a peneira da ilusória pátria grandiosa da língua portuguesa".