"Bom dia, caro leitor/usuário/espetador/amigo.(...)"
Espetador?!
Gosto da lusofonia e não me parece que haja proprietários da língua portuguesa. Os idiomas evoluem e as gramáticas, para além de outras funções fundamentais, "legitimam erros" em relação às antecessoras. A tese defensora do acordo ortográfico teve por aqui um elemento neutro. Por outro lado, sou curioso e aprecio a novidade. Fiz os possíveis para respeitar o acordo e aplicá-lo. Mas voltei atrás. Tinha muito para ler e escrever e não me dei ao trabalho de respeitar com rigor as alterações. Ficou para mais tarde. Tentei de novo, mas ainda não foi desta.
O IAVE (Instituto de Avaliação Educativa, IP) tem-se caracterizado pela sucessão de coisas de bradar. Sobressai, na actualidade, o indecente tratamento dado aos professores de Inglês (nem se imagina como é que a coisa segue o seu curso) e há pouco encontrei uma pérola através do grupo dos tradutores contra o acordo ortográfico.
Este blogue discordou ortograficamente, mais por falta de tempo e por questões estéticas, e parece que o acordo afinal não está em vigor nem estará. Quando muito haverá um novo acordo e ajustado.
Ps: Era para ser ortográfico, mudou para ortigráficamente, passou para ortográficamente (podia advogar com os advérbios de modo da década de 70 do século passado, mas não foi, foi distracção) e o acento (o assento foi mesmo propositado; a sério; faltaram as pipocas, uma vez que a saga está para durar :)) só caíu com ortograficamente. Obrigado a todos pela atenção; mas obrigado mesmo.
Há tempos escrevi assim:
"Já tentei incluir o blogue na letra do acordo ortográfico e voltei atrás. Não tive tempo para estudar bem o assunto e não me estava a sentir cómodo. É natural que goste mais do registo anterior, mas respeito o espírito da decisão. Se fosse apenas por uma questão estética, preferia que ficássemos como estávamos. Não gosto de ler os textos na letra do acordo.
Há uma frase interessante de Proust, no "Em busca do tempo perdido", que é mais ou menos assim: uma nova gramática é também a legitimação dos erros em relação à anterior. Nunca me esqueço desta frase quando leio os argumentos mais dogmáticos em relação a estes assuntos.
Vou manter o blogue no registo pré-acordo, pelo menos até ter tempo para me informar devidamente."
Ontem dei com o seguinte acontecimento algo risível:
Já tentei incluir este blogue na letra do acordo ortográfico e voltei atrás. Não tive tempo para estudar bem o assunto e não me estava a sentir cómodo. É natural que goste mais do registo anterior, mas respeito o espírito da decisão. Se fosse apenas por uma questão estética, preferia que ficássemos como estávamos. Não gosto de ler os textos na letra do acordo.
Há uma frase interessante de Proust, no "Em busca do tempo perdido", que é mais ou menos assim: uma nova gramática é também a legitimação dos erros em relação à anterior. Nunca me esqueço desta frase quando leio os argumentos mais dogmáticos em relação a estes assuntos.
Vou manter o blogue no registo pré-acordo, pelo menos até ter tempo para me informar devidamente.
Gosto da lusofonia e não me parece que haja proprietários da língua portuguesa. A evolução dos idiomas é demasiado vivo e as gramáticas apenas legitimam "erros" em relação às suas antecessoras. A tese defensora do acordo ortográfico tem por aqui um elemento neutro. Por outro lado, sou curioso e aprecio a novidade. Fiz os possíveis para respeitar o acordo e aplicá-lo. Mas vou voltar atrás. Tenho muito para ler e escrever e não me posso dar ao trabalho de respeitar com rigor as alterações. Fica para mais tarde.
Encontrei mais um texto muito interessante sobre o acordo ortográfico. O seu autor é Desidério Murcho.
Ora leia. O autor intitulou-o de "Fascismo linguístico".
País que poderia perfeitamente ter desaparecido há 400 anos sem que as principais realizações artísticas, científicas e políticas da humanidade tivessem sido substancialmente diferentes. As grandes realizações da humanidade, com valor universal e universalmente reconhecidas, não são portuguesas. Além dos Descobrimentos, nada demos à humanidade que seja reconhecido. Somos um povo sem grandes realizações, como os suecos, os dinamarqueses ou os corsos - mas qual é o problema disso? Porquê andar a sonhar com o quinto império, que não é outra coisa senão o colonialismo salazarista temperado com versos épicos de gosto duvidoso?
"O fascismo está inscrito na mentalidade portuguesa. Mal se fala da língua portuguesa, desata-se a usar maiúsculas, a falar da pátria, da expansão e só não se fala da conquista e colonização de outros povos porque nos tempos que correm isso é um bocadito excessivo. Como acontece com todas as mentalidades fascistas, ergue-se um facho não apenas para ser seguido cega e acriticamente, mas também para esconder as misérias. Itália era uma miséria europeia, quando inventou a força do fascismo e o orgulho italiano; a Alemanha estava num caos económico e social, quando fingiu descobrir que era detentora de uma raça e de uma língua ímpares, que conduziriam os destinos da civilização por mais de mil anos.
A suprema importância universal da língua portuguesa é uma treta. Uma treta reveladora de mentalidades e atitudes e que mostram quão longe estamos de ser uma sociedade genuinamente democrática e livre, sem atavismos fascizantes - hoje em dia baseados na língua, porque não o podem ser nas caravelas. Os seres humanos são seres humanos - falem ou não português e escrevam ou não "óptimo" com "p". E cada ser humano, em si, é mais importante do que quaisquer sonhos de conquistas futuras, de grandiosidades épicas, de poderios imaginários. O que importa é dar aos portugueses as mesmas oportunidades para se realizarem do que qualquer outra pessoa em qualquer outra parte do mundo - como matemáticos, poetas ou filósofos, físicos, pianistas ou jornalistas, padeiros, taxistas ou empresários. O resto são atavismos que têm precisamente o efeito contrário, atravancando o país.
Seria mais avisado assumirmos o que somos: um pequeno país, no seio da Europa, com imensas dificuldades em criar riqueza e avesso a uma mentalidade livre e democrática. Assumir isso seria o primeiro passo para conseguirmos, com boa vontade e realismo, cooperando entre todos, transformar um pequeno país numa sociedade justa, de bem-estar, desenvolvida, que ofereça aos seus membros as melhores condições para desenvolverem os seus talentos e darem assim as suas contribuições para o desenvolvimento da humanidade.
Precisamos de melhor ensino, melhores políticos, melhor pensamento científico, filosófico e artístico. Nada disto se consegue enquanto continuarmos a tapar o sol com a peneira da ilusória pátria grandiosa da língua portuguesa".