Cortesia de Nicolau Borges
Já tenho vida suficiente para partilhar um vídeo assim.
"O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway (1952), é uma obra-prima do Nobel da Literatura de 1954. Li-o, a primeira vez, na adolescência (a minha época do "Moby Dick", de Herman Melville o autor do fascinante Bartleby). Recordo-o como contemporâneo das letras que Bob Dylan, o Nobel da Literatura de 2016, musicava. São "romances" paralelos, se me permitem. A actualidade certifica o fenómeno. "O Velho e o Mar" retrata a amizade de um velho e pobre pescador com um rapaz. Tudo acontece no dia em que o velho, que há muito nada pescava, se confrontou com o peixe da sua vida. Chegou a terra apenas com o esqueleto de um espadarte delapidado por tubarões. Está tudo ali.
Não resisto a transcrever um pedaço da tradução de Jorge de Sena:
- Que tens para comer? perguntou o rapaz.
- Um tacho de arroz de peixe. Queres? perguntou o velho.
- Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume?
- Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio.
- Posso levar a rede?
- Claro que podes.Não havia rede, o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido, mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia.
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M. é uma vila quase perdida para os fluxos turísticos. Só tem natureza. A noite estava amena e o céu estrelado. O jantar recomendado tinha ultrapassado as melhores expectativas. Exigia-se um passeio digestivo pelas ruas quase desertas. O som da orquestra era ligeiramente audível. Parecia vindo do interior do planeta. A "Casa da Artes" era numa espécie de -1. Ficámos à porta a ouvir o ensaio e tínhamos lá ficado o tempo que o maestro determinasse para o apuramento dos temas.
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M. é uma vila quase perdida para os fluxos turísticos. Só tem natureza. A noite estava amena e o céu estrelado. O jantar recomendado tinha ultrapassado as melhores expectativas. Exigia-se um passeio digestivo pelas ruas quase desertas. O som da orquestra era ligeiramente audível. Parecia vindo do interior do planeta. A "Casa da Artes" era numa espécie de -1. Ficámos à porta a ouvir o ensaio e tínhamos lá ficado o tempo que o maestro determinasse para o apuramento dos temas.
"A Orquestra Sinfónia de Boston é conhecida por fazer a vida difícil aos maestros convidados até que estes dêem provas de que merecem ocupar o lugar. Perante a sua estreia à frente da orquestra, e conhecendo a reputação da mesma, um jovem maestro decidiu tentar um atalho para conseguir ser respeitado. Estava programado que dirigisse a estreia de uma obra contemporânea inaudivelmente dissonante, e enquanto lia a partitura ocorreu-lhe um estratagema brilhante. Encontrou um crescendo no início, em que toda a orquestra produzia um som estridente em mais de doze notas discordantes, e reparou que o segundo oboé, uma das vozes mais suaves da orquestra, estava programado para tocar um Si natural. Agarrou na partitura para o segundo oboé e inseriu cuidadosamente o sinal para bemol - a partir de agora era indicado ao segundo oboé que devia tocar um Si bemol. No primeiro ensaio, conduziu energicamente a orquestra até ao crescendo adulterado. "Não!", berrou, parando a orquestra abruptamente. Depois, com o sobrolho enrugado e em profunda concentração disse: "Alguém, vejamos, sim, deve ser... o segundo oboé. Devia tocar um Si natural e tocou um Si bemol". "Não pode ser", respondeu o segundo oboé. "Eu toquei um Si natural. Um idiota qualquer tinha escrito aqui Si bemol!"."
(Não é a primeira vez que transcrevo esta história num post).
Viaje de carro, aqui, por várias cidades do mundo a ouvir boa música (cortesia de Carlos Vieira de Castro). A visualização não está optimizada para os telefones.
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Decorria o ano de 1972 ou 73, vivia na então Lourenço Marques (hoje, Maputo), e fui jantar à Pizzaria "La Bússola" que tinha uma lasagna única e música ambiente com sabor a liberdade. Foi aí que ouvi pela primeira vez "As canoas do Tejo" de Carlos do Carmo. Nunca mais me saiu do ouvido. E era uma época em que os jovens moçambicanos desprezavam, naturalmente, quase tudo o que vinha de Portugal e da metrópole, onde se incluía o fado. Zeca Afonso era a música portuguesa ouvida pelos jovens moçambicanos.
Mas mal eu sabia que por essa altura o meu querido e saudoso primo, António Marques Júnior, planeava o 25 de Abril. E foi a propósito da morte de Carlos do Carmo que li este texto:
"Abraço de Abril a Carlos do Carmo
Caros associados
Neste dealbar do ano de 2021, que esperamos nos traga a recuperação de uma vida normal, onde seja possível, em Liberdade, construir um Mundo melhor, fomos confrontados com a partida de um grande Homem de Abril, nosso companheiro na jornada iniciada há 46 anos, na procura da Paz, da Liberdade, da Justiça social.
Partiu o Carlos do Carmo, português e lisboeta de gema, humanista, grande divulgador e embaixador do Fado por todo o Mundo.
Activo militante dos valores de Abril, nunca descurando uma enorme actividade cívica, em prol de uma sociedade mais livre e mais justa, Carlos do Carmo respondeu sempre presente, quando solicitado pela Associação 25 de Abril.
No momento em que evocávamos a partida de um dos principais Capitães de Abril, o António Marques Júnior - que aqui lembramos, com a eterna saudade que dura já 8 anos - o Carlos do Carmo, também vítima de um aneurisma, foi juntar-se-lhe.
Estamos certos que, lá onde estiverem, continuarão a enviar-nos o alento necessário à continuação da luta pela consolidação dos valores porque se bateram!
Por nós, tudo faremos para atingir os objectivos das vidas comuns das Mulheres e dos Homens de Abril.
Os nossos sentidos pêsames aos familiares do Carlos, nomeadamente à Judite, sua companheira de toda a vida, e ao seu filho Gil.
Até sempre, caro Amigo Carlos do Carmo!
Um grande abraço de Abril
Vasco Lourenço"