1ª edição em 19 de Setembro de 2012
Não é fácil dar um pequeno passo em nome da cidadania. O domínio do se exige-nos muito e inibe o direito à palavra. Propalamos o dever da opinião, mas não conseguimos fugir ao beco sem saída da intolerância. Não vivemos o contraditório com civilidade e isso não ajuda nos tempos que correm.
Se se criticava o Governo de José Sócrates, era-se um perigoso direitista ou esquerdista radical. Se se critica as políticas da actual maioria, é-se um esquerdista despesista e sem remédio. Se se publica um pedaço acertado da declaração histórica de um comunista, é-se um perigoso agitador. Se se tem um blogue, é-se um subversivo encartado ou um elitista insensível. Se se concorda com uma ideia liberal, é-se um convertido ao capitalismo selvagem.
Já nem as redes sociais escapam à voracidade do se: dos likes colocados às imagens que nos integram, tudo serve para o escrutínio tortuoso que nos consome. E podia ficar por aqui horas a divagar à volta do pronome pessoal (neste caso é mais conjunção, conforme contributo de uma professora de português).
E dou como exemplo um pequeno texto do politólogo José Adelino Maltez no facebook, que li e gostei:
"De mal com o gasparismo, pela mesma razão com que denunciei o socratismo, mantenho o meu feitio de radical do centro excêntrico, com situacionistas proclamando que não sou de confiança e com ataques formais vindos de sectores oficiais do PCP e de certas vozes anónimas que se acobertam em blogues do esquerdismo niilista. Para os devidos efeitos, sublinho que mantenho a minha concepção liberal do mundo e da vida."
Em cheio.
ResponderEliminarNão se consegue ir a lado nenhum na internet - blogues, facebook, jornais, etc. - sem se sentir uma espécie de agressividade no ar.
As leituras são feitas pela rama, as opiniões são debitadas sem pensar e o meio termo é raro.
Fala-se muito e comunica-se pouco.
até ódio entre pares
ResponderEliminarSubscrevo os dois.
ResponderEliminar"...mantenho o meu feitio de radical do centro excêntrico(...)"
ResponderEliminarWTF?
(Sinceramente, estou-me marimbando para quem o senhor diz ser quem é)
Sinceramente, essa frase também me fez sorrir. Mas é algo inovadora, convenhamos, embora um pouco ininteligível.
ResponderEliminarSe é inovadora ( ai, que esta custou a escrever) deve ser inteligível.
ResponderEliminarCaso contrário são palavras que se atiram para o ar. O Maltez é, como se chama agora e de alguns tempos a esta parte, "politólogo".
"Politólogo" tem de ser claro na análise. Não tem de afirmar-se quem é ou deixa de ser. Porque isso não interessa para nada. Quem o senhor é sou eu que decido pela leitura que faço das suas análises.
ResponderEliminarSempre é melhor ler politólogos do que tudólogos.
Depende.
ResponderEliminarSim claro. Por vezes, é mais interessante ouvir apenas o que nos agrada ou que estamos à espera.
ResponderEliminarMas o bullshit, como bem sublinha o Octávio Gonçalves no post que linquei no início da tarde, é sempre mais nocivo.