domingo, 12 de abril de 2026

Confiar nos professores, 15 alunos por turma e pré-escolar até aos 7 anos de idade, foi o óbvio sublinhado pela Ministra da Educação da Estónia

O sistema educativo da Estónia caiu nas boas graças da onda mediática por causa dos resultados PISA e a sua Ministra da Educação esteve por cá. Li duas das suas entrevistas, ao Expresso e ao Público. No Expresso, em 10.04.2026, destaca-se que “as crianças não devem começar a escola formal antes dos 7 anos" e "que todas as decisões pedagógicas devem ser tomadas pelo professor". No Público, de 09.04.2026, destaca-se a "receita para sucesso da Estónia: jardins-de-infância até aos sete anos e “políticos longe da sala de aula”".

De facto, a Estónia, a Finlândia e Singapura - países com características históricas naturalmente muito diferentes -, são exemplos interessantes para se estudar modelos diferentes de sistemas educativos e aprender. Contudo, essas diferenças não impedem a consistência das suas políticas em domínios que são mais polémicos e desorientados no universo lusitano: formação, escolha e avaliação de professores e de lideranças escolares; embora os três países, e a exemplo de Portugal, estejam nos lugares cimeiros, nos últimos estudos da OCDE, nos países com mais novos professores com vontade de desistir de uma profissão cada vez mais difícil - a de professor.

Mas há domínios essenciais que são consensuais e que contrariam tudo o que neste milénio se tem feito por cá: confia-se nos professores, tenta-se ter um número decente de alunos por turma, começa-se a escola formal aos sete anos de idade e os sistemas educativos respeitam a História dos países, e as suas idiossincrasias, e não navegam ao sabor de modismos anti-professor.

Já escrevi muito sobre como foi fatal, entre nós, a desconfiança nos professores. Num texto para o Público (2021), com o título "Foi fatal não confiar nos professores", escrevi assim o que considero essencial: "desde que há escolas que os professores devem estar sempre preparados para a prestação de duas contas: como gerem o programa da disciplina que leccionam e como avaliam os alunos. Contudo, e por influência das políticas neoliberais, aplicou-se aos professores uma espécie de inversão do ónus da prova."

Também escrevi muito sobre o número de alunos por turma. Num texto para o Público (2023), com o título "Do aumento brutal das desigualdades educativas", escrevi assim: "num assunto desta dimensão, Daniel Markovits escolhe o número de alunos por turma como a outra variável educativa que explica o aumento brutal das desigualdades. Por exemplo, a estrutura escolar que desde o pré-escolar desagua na Universidade de Princeton (financiada por uma fundação de caridade isenta de impostos, mas que também usa fundos públicos) tem uma média colossal de oito alunos por turma." E terminei assim: "Como se conclui, no mundo global é decisivo aplicar políticas que reduzam as brutais desigualdades educativas. Considerar em Portugal 18 alunos por turma no pré-escolar e no primeiro ciclo, 20 nos 2.º e 3.º ciclos e 22 no secundário (objectivos que devem ajudar a nortear a municipalização), e um investimento de 8000 euros por estudante até 2030, é não só razoável como elementar para combater as desigualdades, e a fuga a ser professor, e consolidar a democracia."

Ainda sobre o tema, e em 5 de Junho de 2013 depois de o ter desenvolvido numa intervenção na SIC Notícias, escrevi assim no blogue:
"William Golding, prémio Nobel da literatura em 1983 e professor no 1º ciclo durante 30 anos, foi taxativo numa entrevista à RTP2: "com 30 alunos por turma não há método de ensino que resulte, mas com 10 alunos todos os métodos podem ser eficazes". Essa entrevista descansou-me. Tinha leccionado cerca de 10 turmas do ensino secundário, cada uma com mais de 30 alunos, e estava preocupado com a profissão que tinha escolhido e com a minha memória. Já íamos em Maio e nem o nome dos alunos todos conhecia. Numa sociedade ausente da educação como a nossa, e mais ainda nos tempos que correm, a relação entre os professores e os alunos atenua muito a taxa de abandono escolar para além de ser um indicador da qualidade do ensino. Nunca imaginei que 30 anos depois ouviria o ministro da Educação do meu país a defender que uma turma com 30 alunos pode trabalhar melhor do que uma com 15. Depende do professor e da sua qualidade". Nuno Crato disse-o numa inenarrável entrevista televisiva em que se pôs a dissertar sobre a relação entre a formação dos professores e o número de alunos por turma. Nuno Crato revelou-se mais uma pessoa que nos deixa dúvidas quanto ao conhecimento sobre uma escola do não superior. Temos de concordar: os professores portugueses têm azar com os ministros.”

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