![]()
Diário de Coimbra (versão em papel), 10 de março de 2022.
![]()
Diário de Coimbra (versão em papel), 10 de março de 2022.
Apenas 4.49 minutos. Faça 3 a 6 vezes diariamente e ao fim de umas semanas notará a diferença.
![]()
(publicado em 16 de Outubro de 2020).
As orientações para a Educação Física Escolar incluem aulas sem máscara para turmas completas que chegam aos 30 alunos ou mais. Inscrevem ainda três metros de distanciamento físico e ausência de testes à covid-19. Sugira-se aos muito treinados profissionais da NBA ou do futebol que tentem uma coisa parecida e sem viverem em qualquer bolha. Seguramente que recusam liminarmente e até aconselham um internamento aos proponentes.
Mas se na Educação Física Escolar é assim, nas outras salas de aula apenas se acrescenta a máscara em espaços também apinhados. Como o distanciamento físico é naturalmente, e constantemente, contrariado, é natural que os jovens, na maioria assintomáticos com capacidade de contágio, sejam transportadores do vírus no vai e vem entre as escolas, as habitações e as tais festas familiares. Para além disso, a teoria das bolhas é uma "impossibilidade" com as escolas, e as suas envolventes, lotadas. Mas não nos admiremos que a culpa ainda será dos jovens porque não cumprem procedimentos insensatos que eliminaram qualquer ideia de gradualismo.
A aula terminou. Uma das tarefas, a estação de salto em altura, ficou organizada para a aula seguinte. Os alunos que usavam o meu Ipad (wi-fi desligado) para o registo de imagens (úteis como informação de retorno imediato na análise do salto e que apago de seguida) e de outros dados de organização de uma competição, concluíam procedimentos. Um aluno colocou uma bola de rítmica no chão a uns 5 metros da fasquia e disse-me que a derrubaria com um remate de futebol. Repetiu a acção 3 vezes e em todas atingiu o objectivo. Os alunos do Ipad registaram as imagens da terceira numa sequência esclarecedora e inesquecível.


Ainda alguém duvida da importância de aumentar a carga curricular da Educação Física? Ora leia: "Neurociências: Quanto mais depressa se corre, mais depressa se aprende. Em experiências em ratinhos no Centro Champalimaud percebeu-se que melhoravam a sua capacidade de aprendizagem se os fizessem correr mais depressa. Pensa-se que o mesmo poderá acontecer nos humanos.(...)"
A estrutura curricular nos países menos desenvolvidos tem uma fractura comum: predominam as disciplinas nucleares e atribui-se um papel residual aos saberes do domínio das humanidades e das artes onde se pode incluir a educação física. Objectivamente, a ruptura verifica-se na carga horária. Disciplinas como a língua materna ou a matemática atingem, desde cedo, o dobro ou o triplo das horas semanais das restantes. Estas decisões carecem de fundamentação empírica e há quem advogue que acentua a desigualdade de oportunidades.
As últimas décadas em Portugal pareciam contrariar esse atraso civilizacional e os indicadores confirmavam os progressos. Com a chegada de Sócrates e Rodrigues, agudizada com a tragédia de Passos e Crato, a ideia de escola completa, que estrutura as sociedades para uma forte e maioritária classe média, ficou comprometida. A actual solução governativa optou (?) pelo quase imobilismo.
É também por isso que a média da educação física no sacrossanto acesso ao superior faz correr tanta tinta.
Encontrei algumas vezes discursos do género do que pode ler a seguir. São sempre momentos bem humorados.
Deixo o link, aqui, e copio e colo a versão.

"O Ministério da Educação, finalmente, e possivelmente sem a opinião do Conselho Nacional da Educação, que não está nada virado para a cinesiologia, a ciência que estuda o movimento, e não a educação do movimento – o que são coisas diferentes, mas complementares, já que só é possível “educar” um movimento depois de perceber como é que ele funciona, como poderá ter melhor aproveitamento, qual a sua função, limitações, recuperação de lesões, etc., etc. –, compreendeu a questão.
Mas o ensino aplicado da estrutura morfológica (esqueleto) de um ser humano pode resumir-se ao estudo de um conjunto de alavancas, interpotentes ou de velocidade, interresistentes ou de força, e interfixas ou de equilíbrio. Só que elas são movidas através dos músculos, cujo movimento começa ao nível da célula, com a troca de iões de potássio (K) e de sódio (Na), de dentro para fora, e vice-versa, da membrana celular, que dá origem ao influxo nervoso que, por sua vez, provoca o movimento, ou seja, a deslocação de um segmento corpóreo.
Mas também é necessário que a energia a utilizar através do glicogénio (fígado) seja a necessária sob o ponto de vista metabólico, que pode chegar a 1 020 000 kgm/24 horas, ou seja, grosso modo, dá para elevar 1000 kg a 1000 metros de altura (nível do solo). Por outro lado, a estrutura orgânica, por razões óbvias, terá de estar em interação com a estrutura percetivo-cinética (sistema nervoso), de onde emanam as “ordens” que controlam os vários comportamentos motores: o voluntário, dependente do córtex; o automático, de origem talâmica (tálamo), que através da repetição 1000 vezes de um movimento voluntário atinge o estereótipo motor-dinâmico, ou seja, o movimento perfeito e económico; e, por último, o movimento reflexo, dependente do bulbo, ou medula alongada.
Mas é através do arco reflexo, depois da perceção de uma excitação cutânea, na placa sensível, com a sua condução aferente (centrípeta), com a integração, interpretação e elaboração de resposta, que é enviada pelas vias eferentes (centrífuga) para a placa motriz, que se produz a reação que dá origem ao movimento num tempo que não pode, nem deve, ser nem muito rápido nem muito lento, o que nos garante a normalidade do gesto motriz e do organismo no seu todo, ou seja: estímulo tátil-gnósico (ao nível da pele), 0,09” (centésimos de segundo); ao nível do ouvido (audição), 0,12”; ao nível da vista (visão ocular), 0,15” – significando isto que a vista é, de todos os órgãos, o que reage de forma mais lenta aos estímulos.
Convém ainda acrescentar que pela integração humana são responsáveis o sistema nervoso, o sistema hormonal e o sistema humoral.
Ora, o Ministério da Educação percebeu agora, finalmente, graças a um ministro diferente da maioria dos políticos, ou seja, que alia à competência e inteligência a coragem e a pressa, porque sabe que tudo isto tem ciclos e é necessário aproveitá-los, caso contrário, perdem-se gerações por ignorância e inação.
A segunda infância, como é sabido, vai até aos seis/sete anos, e a terceira infância irá até à adolescência – 11/12 anos –, e é neste espaço de tempo que temos de atuar para aplicar as atividades indiferenciadas, com movimentos espontâneos e produto da imaginação das crianças, no início da 2ª Infância ( dois anos e meio), com os “brinquedos cantados”, com expressão mímica naquela atividade denominada sincrética, depois na atividade analítica, que encontra a sua expressão no movimento artificial (construído), consubstanciado na ginástica, para terminar com movimentos naturais de gestos desportivos que podemos encontrar em todos os desportos e que apelidamos de atividade sintética.
O Ministério da Educação o que quer é operar uma viragem de 180 graus no ensino e prática da expressão físico-motora (cinesiologia) e na preparação e aproveitamento dos licenciados em Motricidade Humana (por agora), já que o nome de educação física está ultrapassado, e à luz do gestaltismo é, de facto, uma estupidez, com a ajuda decisiva do Instituto de Avaliação Educativa, tendo ainda em vista ajudar o Ministério da Saúde, com menos baixas médicas no futuro, mais camas disponíveis com os mesmos hospitais, menos mortes por acidentes vasculares cerebrais, menos gastos em remédios, e também poder ajudar o Ministério da Defesa, com jovens mais aptos para o serviço militar, e ainda a Segurança Social, com uma longevidade maior da população portuguesa.
E assim o Ministério da Educação toma o lugar dianteiro neste governo, que poderá certamente contribuir para a nossa felicidade nacional bruta, como disse Tinbergen, em oposição ao produto nacional bruto.
Parabéns ao Ministério da Educação, agora só falta o resto...
Sociólogo"
Eram onze turmas do ensino secundário (duas aulas semanais de cinquenta minutos por turma) com mais de 30 alunos cada uma (uma chegava a 36 alunos). Esse primeiro ano que leccionei com horário completo deixou-me apreensivo. Um ano depois, experimentei o segundo ciclo: quatro aulas mais dois tempos de actividades de aplicação; seis tempos por semana e três turmas no horário. A escolha para os dois anos da profissionalização em exercício recaiu, obviamente, no segundo ciclo; em consequência, o lugar de quadro também. Uns anos mais à frente, a carga curricular no segundo ciclo regrediu para metade e aumentou no secundário (de 2 para 3 no 3º ciclo e de 2 para 4 no secundário). Mais de trinta anos depois, e tenho leccionado os ciclos todos (do primeiro ao secundário), ainda se usam os mesmos argumentos para legitimar a educação física, como disciplina, e o desporto escolar num sistema ancorado na escola-industria onde uma aula de 90 minutos é uma espécie de receita a aplicar em todas as disciplinas e nos anos todos (do 5º ao 12º).
A estrutura curricular nos países menos desenvolvidos tem uma fractura comum: predominam as disciplinas denominadas nucleares e atribui-se um papel residual aos saberes do domínio das humanidades e das artes onde se pode incluir a educação física. Objectivamente, a ruptura verifica-se na carga horária. Disciplinas como a língua materna ou a matemática atingem, desde cedo, o dobro ou o triplo das horas semanais das restantes. Estas decisões carecem de fundamentação empírica e há quem advogue que o inútil "mais do mesmo" ainda acentua a desigualdade de oportunidades.
As últimas décadas em Portugal pareciam contrariar essa tendência empobrecedora e os testes internacionais confirmavam os progressos. Com a chegada de Sócrates e Rodrigues, agudizada com a tragédia de Passos e Crato, a ideia de escola completa, que estrutura as sociedades para uma forte e maioritária classe média, ficou comprometida.
É também isso que os professores de educação física denunciam.
É interessante a entrevista a Carlos Neto, presidente da Faculdade de Motricidade Humana. Até a ideia inicial do depoimento que classifica o recreio como "o lugar que resta" já não é válida. O tempo do recreio diminuiu muito e mesmo esse é vigiado por adultos.
"(...)O recreio da escola é o único local que resta às crianças para brincarem livremente. Um lugar onde estão por elas, entre elas, sem adultos a preencher-lhes o tempo. Os pais têm cada vez mais medo e mais medos. Têm medo que os filhos se magoem, que sejam roubados, que sejam atropelados, que sejam violados, que sejam raptados.(...)O tempo que pertence por direito às crianças, para fazerem o que lhes apetece, está a ser roubado pelos adultos e os miúdos estão a ser transformados em "crianças de agenda", num corrupio entre a escola, onde passam o dia inteiro, e as actividades fora dela, alerta Carlos Neto. Alberto Nídio, sociólogo da infância, descreve assim o que acontece no resto do tempo destas crianças:"Depois chega a noite e têm que fazer os deveres. Aos sábados, têm escuteiros, catequese, piscina. E aos domingos ainda têm que sair com os pais.(...)"
As cidades eliminaram há muito a ideia do espaço aberto para as crianças. Os parques minúsculos e normalizados que restam restringem as brincadeiras.
Carlos Neto categoriza como analfabetismo motor o cerne da sua investigação.
"(...)As crianças correm e tropeçam nos próprios pés, não andam para trás de olhos fechados sem perder o equilíbrio, têm um sentido de orientação limitado. Brincar na rua é em muitas cidades do mundo uma espécie em vias de extinção. O tempo espontâneo, do imprevisível, da aventura, do risco, do confronto com o espaço físico, natural, deu lugar ao tempo organizado, planeado, uniformizado(…)com implicações graves na esfera do desenvolvimento motor, emocional e social.(...)"
A situação é mais grave no sul da Europa. No centro e no norte do continente, e segundo os investigadores, os horários escolares prevêem várias horas diárias de brincadeira livre. Como se sabe, em Portugal os horários das crianças recordam os operários fabris com oito horas diárias na escola a que se seguem trabalhos de casa. Têm sido décadas de construção deste modelo. Ao analfabetismo motor referido associou-se a obesidade como outro problema grave de saúde pública. O tempo vai passando e não observamos forma, nem vontade, de contrariar as evidências.