Muito bom este post do Paulo Guinote.
Domingo
Recebi o seguinte email de Mário Silva acompanhado da imagem:
"Não bastando terem destruído a vida financeira de todos os professores abaixo dos 55 anos, de manterem a maioria dos salários abaixo do 6º escalão, de terem aumentado colossalmente a burocracia com os DL 55 e 54 obrigando a mais horas de trabalho não remunerado, têm o descaramento de cobrar pela formação...!A tristeza é que muito provavelmente a formação não ficará deserta porque há sempre gente que se inscreve, parecendo que sofrem de algum masoquismo...""
A especialização desportiva percebeu o esgotamento das capacidades volitivas. A energia psicológica esgota-se. É por isso que se contraria a precocidade. Os modelos de formação historicamente bem sucedidos graduam a exposição aos quadros competitivos e exigem que a competição escolar (não só a desportiva) destinada às crianças se diferencie da aplicada a jovens e adultos. Em regra, quem começa cedo a competir como se de um adulto se tratasse, atinge a saturação volitiva quando se esperava o contrário. Os difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e comprovam os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister tem importantes contributos que podem levar ao reconhecimento da OMS. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Isso explica o burnout dos professores que tomam dezenas de decisões diárias debaixo de forte ansiedade (os últimos anos entre nós são um bom exemplo dos efeitos da sobrecarga; competitiva e de outra ordem). Daí ao esgotamento é um passo acelerado. A degradação das carreiras influencia os indicadores de saúde. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao esgotamento da força de vontade e é interessante que um estudo com adultos acima dos quarenta explique os efeitos da sobrecarga competitiva em crianças e jovens; como há muito se intuía.

2ª edição. Rescrito.
O estudo da especialização desportiva percebeu, há muito, que existe um esgotamento das capacidades volitivas. O corpo reage. A energia psicológica não é inesgotável. É também por isso que se contraria a precocidade na especialização desportiva. Os modelos de formação bem sucedidos são graduais na exposição aos quadros competitivos e "exigem" que as políticas de competição escolar (as mais diversas e não apenas as desportivas) destinadas às crianças sejam diferentes das aplicadas aos jovens e aos adultos. Em geral, quem começa muito cedo a competir como se de um adulto se tratasse atinge a saturação volitiva quando era esperado um rendimento que maximizasse as potencialidades desportivas. Os muito difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e são fundamentais para comprovarem os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister é citado com importantes contributos. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Estes estudos são usados para explicar o burnout dos professores que tomam milhares de decisões diárias debaixo de forte ansiedade. Daí ao esgotamento é um passo frequente com o prolongamento, e a degradação, das carreiras associado a um indicador fundamental representado na imagem que acompanha o post: o número de horas de sono. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao esgotamento da força de vontade.

Sleep.
Salvador Dali
O Expresso dá eco a estudo que conclui que os "alunos pobres chumbam duas a três vezes mais". Há décadas que os estudos indicam esta realidade, embora existam os que tergiversam de acordo com outros interesses. Em Portugal, por exemplo e onde se fez o estudo, a escola é a mais transbordante da Europa. Não há escola na Europa com um caderno de encargos tão impossível de cumprir. A escola portuguesa é tudo. É como se não existisse sociedade. Não será por acaso que continuamos com os piores registos da OCDE no insucesso e abandono escolares (isto também se lê no PISA). Repito um algoritmo que já tem quase uma década e que não interessa (e, pelos vistos, continua a não interessar) a quem tem governado em grande parte do milénio.
A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades, na mesma sociedade e organização, com 100 professores diferentes, os resultados oscilariam muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É também por isso que é um logro que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que tudo se resolve mudando o conteúdo físico dos 30%. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% não há ensino.
A especialização desportiva percebeu, há muito, que existe um esgotamento das capacidades volitivas. O corpo reage. A energia psicológica não é inesgotável. É também por isso que se contraria a precocidade nessa especialização. Os modelos de formação bem sucedidos são graduais na exposição aos quadros competitivos e "exigem" que as políticas de competição escolar (as mais diversas e não apenas as desportivas) destinadas às crianças sejam diferentes das aplicadas aos jovens e aos adultos. Em geral, quem começa muito cedo a competir como se de um adulto se tratasse atinge a saturação volitiva quando era esperado um rendimento que maximizasse as potencialidades desportivas. Os muito difíceis estudos empíricos neste domínio dão passos e são fundamentais para comprovarem os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister é citado com importantes contributos. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Estes estudos são usados, e por incrível que pareça, para explicar o burnout dos professores (e não apenas dos portugueses) porque tomam muitas decisões diárias em clima de ansiedade. Daí ao esgotamento é um passo frequente com o prolongamento, e a degradação (mais turmas, mais alunos, mais burocracia, mais procedimentos inúteis, menos confiança), das carreiras associado a um indicador fundamental representado na imagem: o sono. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas (é também o tempo dos governos mudarem de vez a agulha) em relação ao esgotamento da força de vontade que não era mensurável por "invisibilidade" e que os crédulos, que só admitem o perdão da dívida dos bancos, "confundiam" com corporativismo ou com classificações desinformadas.

Sleep
Salvador Dalí
Numa sexta-feira às 21h00, e a abrir um ciclo de conferências integrado na formação contínua da congeladíssima carreira dos professores e abrangido por um modelo de avaliação do desempenho que faz tudo menos o que transporta no nome, é reconfortante encontrar um auditório quase cheio e que se aguentou até perto das 24h00. Foi muito agradável ser convidado por pares e ter o Paulo Guinote também como conferencista. O assunto, "O papel da comunicação na valorização da profissionalidade docente", tem variados ângulos de análise e é muito interessante. As abordagens centraram-se numa breve caracterização do tempo que vivemos, no conceito de comunicação dirigido para o fenómeno da blogosfera e na relação com os fundamentos da profissionalidade docente. As imagens são do Nicolau Borges, director do CFAE-Oeste.
Está aqui o "Relatório estado da Educação de 2013", do CNE, cujo presidente, o ex-ministro no MEC, David Justino, se tem desdobrado em afirmações do género: "(...)Há uma completa desregulação do fenómeno de recrutamento e, havendo essa desregulação, safa-se quem fizer batota, nomeadamente com as classificações", alerta David Justino, apontando que a maior parte dos professores contratados são provenientes das universidades privadas.(...)".
É evidente que este problema é antigo, que tínhamos de olhar para a história da formação de professores nas últimas três a quatro décadas para o compreender e o post ficava muito longo.
Mas quando os aparelhos partidários promoviam o ensino privado com a atribuição de licenças como verdadeiros euromilhões, tudo isto era silenciado. Já se conheciam os fenómenos inflacionários há muito e nada se fez.
Retirou-se, erradamente, paulatinamente a profissionalização dos professores das escolas, que era um mecanismo de seriação e de formação no real, a par da desregulação mercantil da formação de professores. Mas o mercado era deus e as pessoas da família dos promotores acordaram tarde. Mas pior: culpam os concursos de professores por lista graduada e passam a vida com epifanias "empresariais" que infernizam a vida das escolas e dos seus profissionais.
Já em relação à inflação de notas no não superior, percebe-se que está implícito o mesmo problema e o silêncio ensurdecedor repete-se. E depois é apenas uma questão de escada e de treino na impunidade.
O CFAE Oeste (centro de formação de professores com sede nas Caldas da Rainha) organizou um ciclo de conferências a propósito dos "40 anos de Abril" que terminou ontem com Guilherme D'Oliveira Martins. O tema foi a corrupção.
Há um conjunto de princípios em que fomos educados que são consensuais quando discutimos a génese da corrupção.
Desde logo, o conferencista considerou a necessidade da prova como o imperativo para as queixas do domínio da corrupção e advogou a necessidade imperiosa de se combater a resistência à denúncia. Enfatizou, esteve bastante tempo a detalhar o referido e sentenciou: "a corrupção começa num favor legítimo a quem conhecemos melhor e acaba num crime".
Estabeleceu três níveis: um primeiro para a excessiva produção de leis; um segundo para a investigação criminal; e um terceiro para a prevenção da corrupção, para a importância da cidadania e dos planos de prevenção por parte de todas as entidades públicas com destaque para a circulação (mudança) das pessoas que decidem e para a colegialidade dos órgãos de decisão com vista à partilha e à transparência.
Apenas cerca de 10% do discurso de Guilherme D'Oliveira Martins se centrou na corrupção de Estado, dos offshores (devem fechar na opinião do conferencista) e na grande corrupção que começa nos aparelhos partidários, passa pelas organizações ditas secretas e acaba nos grandes escritórios de advogados. Em suma, a corrupção que passa pela política.
E considerando o estado a que chegámos, e mesmo que estejamos algo epidérmicos, é tempo de alterarmos a retórica. Já não é admissível compararmos a tal "antecâmara" da corrupção, o pequeno favor legítimo, com que tropeçamos com o crime que nos consumiu. E a história mais recente também nos aconselha a desconfiarmos da superioridade moral dos povos do centro e norte da Europa.
Quanto mais não seja, devemos recordar o seguinte:
"Sim, sim, claro que é a justiça, mas primeiro está a minha mãe", foi mais ou menos assim que Lawrence Kohlberg caracterizou o nível cimeiro da sua taxonomia que se destinava a estudar o desenvolvimento moral, retomando e aperfeiçoando o modelo piagetiano.
Ou seja, o pequeno presente é condenável, mas é tão ancestral que não pode ser considerado da família do grande crime. A não ser que teimemos na anestesia que impede que saiamos do estado a que chegámos como uma nova versão do relativismo cultural.
A formulação de Nuno Crato existe, já tem uns 20 anos e causou outros constrangimentos semelhantes. Não conhecemos é a frequência, ou seja, quantos professores é que estão nessa situação.
Sabe-se que na origem (onde o ministro não toca) esteve o negócio ligada à formação inicial de professores e a teimosia das Universidades do Estado em adiarem a profissionalização de professores para todos os graus de ensino. Os resultados estão aí: milhares de professores profissionalizados desempregados, redução drástica de investigadores em áreas fundamentais das humanidades (por exemplo) e não escolha da profissão de professor por parte dos alunos com melhores resultados no final de secundário.
Só que mais importante que tudo isto é constatação que a sucessão de ministros da Educação identifica uma causa primeira para o abandono e insucesso escolares: a formação de professores. Assim não vamos lá. O principal problema português é a ausência da sociedade na Educação das crianças e jovens, onde a escola só pode desempenhar um papel reduzido. Enquanto os governos não fizerem da presença da sociedade o principal parceiro da Educação, gastaremos muita energia para obtermos recuos civilizacionais.
Apesar das muletas e dos cuidados com a contratura muscular (diagnóstico quase definitivo), não faltei ontem ao convite para falar do processo de ensino em Educação Física que denominei como "modelo tridimensional". Foi uma manhã muito bem passada, acompanhado pela atenção dos meus colegas e do director do CFAE-Oeste. O convite mais agradável é sempre o que é feito por pares.
Já lá vão cerca de oito anos que fiz a última intervenção do género para professores de Educação Física. A designação que escolhi até pode ser algo enigmática, mas a intenção foi abordar o processo de ensino, até ao detalhe do controle informacional de cada aula nas diversas metodologias, englobado numa geometria que inclui duas variáveis indissociáveis: a escola como organização e os sistemas de informação. A ideia de geometria variável é simples: a abordagem das variáveis não sai do triângulo e sem essa dimensão abrangente qualquer dos vértices entra em crise, em entropia ou torna-se quase inútil.
Apresento alguns dos slides que ilustram um breve resumo.
Fiz uma abordagem às três dimensões (mais aprofundada, naturalmente, no processo de ensino), cumprindo a ideia inicial: focar cada uma delas sempre em ligação com as outras duas (umas vezes mais com uma, outras vezes mais com outra).
Escolhi as três ideias seguintes para terminar a primeira análise teórica do processo de ensino.
Detalhei três metodologias do processo de ensino em EDF: por blocos, por etapas e misto. Apresentei, de forma sucinta, um sub-programa que comecei a construir em 1993 e que explica as opções didácticas a partir dos programas em vigor. Salientei, no slide seguinte, um parágrafo deste subprograma que me parece lapidar.
Terminei com uma citação de George Steiner.
Apresentei, com se vê na imagem seguinte e de forma sucinta, uma base de dados (FileMaker) que comecei a construir em 1995 e que permite controlar o processo de ensino, também em tempo real, através daquilo que vulgarmente se designa por plano de aula.
Podemos considerar a pedagogia do silêncio como uma espécie de metáfora que contraria o insuportável caderno de encargos da escola actual, que atribui à instituição um papel centrado na sala de aula e que contraria o excesso de informação e de ruído a que se sujeitam as crianças até no ambiente escolar. A pedagogia do silêncio elege a sala de aula para além do registo tradicional, situando-a no vasto elenco de possibilidades que definem o conhecimento transformacional da categoria aprendizagem que teve uma espantosa evolução.
O parágrafo anterior é o que de mais significativo registei na interessante conferência de António Nóvoa que se realizou ontem à noite no auditório da Escola Secundaria Rafael Bordalo Pinheiro e que foi organizada, numa iniciativa que inclui conferências às quintas-feiras, pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Centro-Oeste.
António Nóvoa sistematizou um modelo que procura respostas para os desafios da escola do futuro através de um olhar atento para o presente e com uma profunda incursão num passado muito enriquecido por relevantes referências.
O conferencista continua à procura das palavras certas que ajudem a encontrar um caminho. Nesse sentido, talvez fosse curial reflectir sobre o uso da asserção "escola centrada na aprendizagem". É que foi quase exactamente assim que se instituíram as correntes pedocentristas como de alguma forma sistematizo aqui. Prefiro a "escola centrada no ensino", reconhecendo o risco do regresso ao outro termo da contradição, e talvez a "escola centrada na sala de aula" permitisse uma leitura menos equívoca. O peso das palavras é incontornável.
Para António Nóvoa continuamos na pedagogia do século XX e isso deve ser questionado. As ideias de "à sociedade o que é da sociedade e à escola o que é da escola" e "o regresso dos professores" são duas asserções que devem corporizar a ideia de uma "escola centrada na aprendizagem".
O conferencista fez analogias entre o que vivemos e o período iniciado com as correntes pedocentristas. As crianças são o "centro da vida". Propôs como fundamental a ideia de "ensinar os alunos que não querem aprender, porque os outros acabam sempre por o fazer" e socorreu-se de Alain que considerou que "difícil é conduzir as crianças a ficarem agradadas, no fim, com aquilo que, no princípio não lhes agradava nada".
Recebi por email com pedido de divulgação.
FREQUÊNCIA DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
para efeitos de AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO e PROGRESSÃO NA CARREIRA
1. Os ciclos de avaliação dos docentes integrados na carreira coincidem com o período correspondente à duração dos escalões da carreira docente. A formação contínua é um dos requisitos obrigatórios para efeitos de progressão na carreira. O reconhecimento do direito à progressão ao escalão seguinte, para além dos outros requisitos, depende da frequência, com aproveitamento, de formação contínua ou de cursos de formação especializada, num total não inferior a:
O processo de avaliação de docentes integrados na carreira deve ser concluído no final do ano escolar anterior ao fim do ciclo avaliativo. O relatório de autoavaliação é anual e reporta-se ao trabalho efetuado nesse período, com exceção para os docentes posicionados nos 8º (se observados os requisitos da alínea a), do nº1, do artigo 27º do Decreto Regulamentar no 26/2012, de 21 de fevereiro) e 9º escalões o qual é entregue no final do ano escolar anterior ao fim do ciclo avaliativo e para os docentes posicionados no 10º escalão que é entregue quadrienalmente.
2. O ciclo de avaliação dos docentes em regime de contrato a termo tem como limite mínimo 180 dias de serviço letivo efetivamente prestado.
Os docentes contratados não são obrigados a frequentar ações de formação contínua de professores para efeitos de avaliação do desempenho docente.
A circunstância do docente contratado não ter frequentado com sucesso ações de formação contínua de professores não o impede de ser avaliado. Neste contexto, a classificação da avaliação deverá ser atribuída considerando somente as ponderações previstas nas alíneas a) e b) do nº 2 do artigo 21º do Decreto Regulamentar no 26/2012, de 21 de fevereiro, devendo o seu somatório corresponder proporcionalmente a 100% da classificação final.
O relatório de autoavaliação é anual, e reporta-se ao trabalho efetuado nesse período. A avaliação realiza-se no final do período de vigência do respetivo contrato e antes da eventual renovação da sua colocação.
3. A avaliação dos docentes em período probatório é feita no final do mesmo e reporta-se à atividade desenvolvida no seu decurso.
OBSERVAÇÕES
Tenho ideia que uma boa parte das "intenções de implosão" por iniciativa do actual ministro da Educação já foram engolidas pela traquitana do MEC e pelos seus satélites. A formação de professores, a inicial e a contínua, tem movido milhões e movimenta-se num terreno que se aproveita da falta de esclarecimento dos formandos e da ausência de escrúpulos por parte de muitas instituições.
A certificação em competências TIC, uma coisa um bocado risível que acompanhou o despesismo no plano tecnológico da Educação, vai entrar na 3ª vaga e parece nascer poluída. Será publicada uma portaria que alterará a configuração do programa. E mesmo antes dessa publicação, já há um sindicato a promover acções de formação, pagas pelos professores, acreditadas junto do CCPFC.
Será que o Sindicato Independente dos Professores tem informação privilegiada? Será que estas coisas têm alguma relação com o assina-ou-não-assina acordos com o Governo?
Há coisas tão óbvias que até já cansa a argumentação. Pelo menos desde finais da década de oitenta do século XX que os sucessivos governos desprezaram a formação inicial e contínua dos professores e temos de incluir aí os denominados estágios profissionais. A chuva de fundos estruturais criou uma ganância tal que não deve existir instituição ligada ao assunto que se possa apresentar de cabeça levantada.
Somos sempre capazes de dar mais um passo em frente na desgraça. A organização não é um valor precioso na sociedade portuguesa e o facto deverá ter uma qualquer explicação. São vários os que dizem que quem dirige leva a fatia maior da responsabilidade e que os dirigidos pecam um bocadito por causa dos mal-dizentes compulsivos.
Neste momento assiste-se a mais uma decisão cuja operacionalização poderá ter resultados desastrosos. O novo governo não está para arrumar a formação inicial de professores, sabe-se lá o porquê, mas está determinado em impôr uma prova comum de acesso à carreira. A última vez, há quase 20 anos, salvo erro, que alguém teve uma ideia do género no acesso ao ensino superior criou um processo desmiolado que terminou pouco tempo depois do início.
Li algures, que na Europa a burocracia avança em proporção da contracção da democracia. Concordo. Principalmente a má burocracia tem-se alastrado que nem uma bactéria. A necessidade de organização das sociedades criou uma clientela tecno-europeia de tal dimensão que já existem comparações pertinentes com o nefasto soviete supremo e com o kafkiano centralismo democrático.
O que é que podemos fazer? Muito. Desde logo, combater a praga no meio de nós. Em 2005, chegaram ao sistema escolar português umas guardas avançadas desses totalitarismos que se apressaram a decretar: os professores, os outros, nunca foram avaliados. Até na formação contínua a coisa vai passar a ser a sério com a introdução de quotas e de pontuações para que entrem na normalização. Deu em tragédia, como se comprovou também recentemente nas causas profundas do dez-geral-para-os-magistrados. A farsa em forma de módulos de 25 horas instalou-se num ápice. 99% das avaliações são má burocracia e faz de conta. Os conteúdos das inúmeras acções não incluíram um guião para a utilização de telemóveis, mas estiveram perto.
Não existe soviete supremo, nem sequer nacional-socialismo, sem o contributo, consciente ou não, da maioria das pessoas em estado de infantilização; e o mais grave, é que os construtores começam sempre ao serviço do povo, da ordem, do desconhecimento histórico, do agora-é-que-vai-ser e da normalização e contra a liberdade e a confiança nas pessoas e esquecendo a singularidade dos seres humanos.
"Inquérito a 58% dos estudantes mostra que quanto mais habilitações têm as famílias melhor é o desempenho(...)".
Esta notícia do I é mais uma demonstração do desperdício que tem sido a saga portuguesa de combater o insucesso e o abandono escolares através da perseguição aos professores perpetrada pela inesquecível cooperação estratégica. Temos de melhorar as formações inicial e contínua e de criar um sistema de olhos nos olhos que, e a exemplo de todas as outras profissões, reclassifique os que não são vocacionados. O resto é despesismo de energias e outras coisas mais nocivas ainda.
Há tempos escrevi assim:
A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.
Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.
Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.
É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.
A DGRHE seleccionou 24 professores para o curso de formação de formadores nesta avaliação do desempenho. Era uma informação que me escapava se um amigo não me tivesse falado no assunto. O espanto dele, e o meu, é que se candidataram mais de 600 professores. Há centenas de professores que acreditam que são capazes de formar colegas avaliadores no desmiolo que inferniza a vida das escolas.