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Diário de Coimbra (versão em papel), 10 de março de 2022.
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Diário de Coimbra (versão em papel), 10 de março de 2022.
A característica mais marcante de uma sociedade ausente na Educação é o pesado caderno de encargos atribuído às escolas. As instituições escolares são vistas como uma espécie de equídeos dedicados à carga. E não é apenas na ideia de armazém. Tudo vai lá parar. Os dois exemplos mais mediatizados nos últimos tempos vieram dos dois espectros políticos: o empreendedorismo à direita e o surf à esquerda.
Marisa Matias, a candidata no BE às europeias e que não deve saber que o desporto escolar proporciona surf como complemento curricular, avançou com um surf curricular em plena campanha demonstrando um profundo desconhecimento da organização escolar. O bloco de esquerda viveu de alguma forma destas epifanias e deu no que deu. São conhecidas as risíveis investidas eduquesas do bloco, mas desta vez acrescenta nove milhões de euros para dar mais credibilidade à proposta?
Despacho com os créditos da componente lectiva para 2012/13.
Professores de Educação Física contra "silêncio ensurdecedor" do minsitério
Conheço bem a relação entre os sistemas escolar e desportivo. Escrevi imenso sobre o assunto e escolhi um texto com cerca de 20 anos que pode ajudar a perceber o que penso. Portugal tem na formação desportiva um bom exemplo do caos a que chegámos. O desperdício em instalações desportivas inadequadas e sem programa deve ser caso único.
A demagogia à volta da formação desportiva dos nossos jovens tem décadas de insanidade. As escolas sobrevivem em regime precário e o sistema desportivo está repleto de infra-estruturas desertas e despesistas. Podia ficar aqui a noite toda a ilustrar o desmiolo que tem nas federações desportivas mais um exemplo da lógica das PPP´s e no estímulo ao abandono escolar precoce.
O blogue do Miguel Pinto tem neste texto de um professor de Educação Física, que lecciona numa escola pública de Nova Yorque, um bom exemplo:
"(...)Para lhe fornecer uma ideia mais clara daquilo que estou a falar: trabalho numa escola pública, high school (o equivalente ao nosso ensino secundário), com alunos do 9º ao 12º ano (aqui são quatro anos ao contrário de 3 em Portugal). Todos os alunos têm que completar 7 semestres de Educação Física e um semestre de Saúde para lhes ser atribuído o diploma. Todos os alunos têm Educação Física todos os dias durante 48 minutos. Na minha escola, as instalações incluem 1 piscina olímpica (reabriu este ano), 2 ginásios de musculação, 1 sala de spinning, 2 salas de dança, 1 sala de yoga, 1 sala de wrestling, 1 pavilhão de voleibol, 1 pavilhão de basket, 1 campo de futebol / futebol americano / basebol com pista de atletismo e 4 campos de ténis.(...)".
Portugal não tem falta de instalações desportivas, só que as que existem estão "longe" das escolas e sublotadas. Para tornar a coisa mais risível, e trágica, a discussão do momento é sobre a redução da carga curricular ou a propósito de uma desmiolada classificação que entra na média dos alunos no acesso ao ensino superior onde passam, em regra, o primeiro ano sem exercício físico, atemorizados com as praxes académicas e a descarregar a adrenalina no consumo dos produtos das centrais de cervejas.
Adenda. Uma associação de professores de Educação Física, que me enviou uma justa carta de protesto pela redução da carga curricular, não podia ilustrar melhor, numa frase apenas, a bancarrota e a demagogia à volta deste assunto: "(...)As consequências diretas (nas atividades curriculares e extra-curriculares) e indiretas (nos Clubes, nas Federações, associações desportivas) de tais medidas são inimagináveis e incalculáveis.(...)
Pode ler aqui o novo despacho. O desporto escolar sofrerá alguns cortes, mas evitará o naufrágio. Passará a ser uma ilha nas reduções da componente lectiva, mantendo a parceria com as direcções de turma.