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sexta-feira, 30 de março de 2012

as escolas, as horas e o curricular

 


 


 






Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de mais tempos escolares.


Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo. Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”. Tarefa inumana para o decisor.

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade. 
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro? 

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.







(Este texto não é inédito.

Publiquei-o numa revista da especialidade,

algures em 2000, 2001 ou 2002)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

editorial (11)

 



 


 


 


Aprecio a coerência não dogmática. Não renego o meu pensamento político, mas procuro libertar-me para pensar e escrever. Não me dispo do aconchego aos meus, nem da minha pele, como todos nós. Contudo, tomo posições que considero justas e que nem sempre me facilitam a vidinha. Os entendidos na nossa idiossincrasia dizem-nos que há muitas Madeiras para além da dita. Não discordo. Habito num parente próximo dessa família e sei com o que posso contar. Confesso que até me divirto o suficiente.


 


Até Junho de 2011, o nosso sistema escolar foi classificado, e muito bem, como um oceano de eduquês, de má burocracia e de inutilidades. Três meses depois, apenas a pequena fatia que se denominava de avaliação do desempenho, foi, naturalmente, vencida. Tratou-se de uma certificação anunciada três anos antes. E mesmo isso, como mais à frente se verificará, tem muito de controverso.


 


Deveria ser incompreensível que a mudança de tonalidade governativa obrigasse a mudanças acentuadas de posição. A eliminação argumentativa dos factores anteriormente denunciados é um silêncio que me escapa. Apenas isso: escapa-me e escapar-me-á; e ainda bem. E quando essa omissão se fundamenta nos fantasmas do costume, recordo-me da frase de Mia Couto: "Nem o avô barbudo deixou descendência".

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

em bruto

 


 


Quando se enunciam os salários das classes profissionais, há, pelo menos, dois modos de o fazer: o ilíquido e o líquido. A conveniência faz a escolha. O anterior governo especializou-se no spin que atingia os professores como classe e os resultados foram o que se sabe. Os salários dos professores portugueses foram usados para fins eleitorais e para permitirem políticas restritivas noutras áreas; já foi confessado.


 


Quando se lançam números brutos de faltas, podemos sempre questionar o que move as fontes de informação. Por detrás de um atestado médico podem existir dois motivos: a doença ou um sinal de desistência profissional. Era isso que deveria preocupar mesmo a sociedade portuguesa em relação às faltas dos seus professores. O sistema escolar está doente e os que o conhecem sabem bem que é assim.


 


Mais de 70 mil atestados médicos foram passados, em quatro meses, a professores. Mais de 400 baixas foram passadas por uma médica que estava de licença prolongada.


 

domingo, 1 de maio de 2011

desporto escolar despachado

 


 


Pode ler aqui o novo despacho. O desporto escolar sofrerá alguns cortes, mas evitará o naufrágio. Passará a ser uma ilha nas reduções da componente lectiva, mantendo a parceria com as direcções de turma.

quinta-feira, 17 de março de 2011

da desmobilização à irresponsabilidade

 


 


Será tarde com toda a certeza e mais cedo do que muitos poderão esperar, mas as escolas do Estado terão de fazer nova mudança na sua forma de gestão e abandonar a irresponsabilidade de amontoar escolas. Será do mais elementar bom-senso.


 


Desde o início do milénio que umas iluminárias do poder central fustigaram as escolas com esta megalomania que arrasou qualquer das culturas organizacionais existentes. A coisa institucionalizou-se com um diploma legal (o 75 2008) que certificou a ideia de delapidar o poder democrático da escola e acordou as inconsciências que restavam ao envolver na tragédia, agora na versão mega-amontoado, as escolas secundárias.


 


A exemplo da avaliação de professores, que só funciona em regime de farsa e de fingimento, a gestão escolar, na versão amontoados, está a criar ambientes organizacionais em que a dispersão proporciona irresponsabilidade e desmobilização. Relacionar o caminho que se escolheu com a redução de custos, é pouco avisado e muito desconhecedor.


 


Fenprof vai divulgar estudo com balanço negativo dos mega agrupamentos


 


 

domingo, 30 de janeiro de 2011

xxxx-bravismo (a primeira parte desta palavra composta está na imagem)

 


 


 



 


(O pato está esqueleto,


mas o bravismo não desarma)


 


 


Falar "apenas" do que se sabe deveria ser obrigatório. Mas neste caldo de cultura bullshit (conversa da treta) que é a fatia maior da comunicação social actual, e em que as nossas finanças bancárias estão num estado semelhante ao da imagem, a manipulação do poder na democracia mediatizada atinge a raia da patologia.


 


Era claro se o governo dissesse que inventou a astronómica despesa nas escolas secundárias para dar uma resposta ao colapso financeiro e à crise que flagelou o nosso ramo imobiliário (essa resposta económica ficou a cargo da muito polémica parque escolar.sa).


 


Considerar que o sucesso escolar depende em grande parte das condições materiais das instalações onde se realiza é desconhecedor. Aproveitar um momento de chuva de euros emprestados para enunciar que o desastre que se abateu, desde 2005, sobre as escolas públicas é algo que será positivamente recordado mais tarde é uma descomunalidade. Não se pode, e não se deve (sublinho-o com a toda a veemência de que sou capaz), acreditar numa pessoa que faça uma afirmação dessas. Considero-a perigosa para a democracia (tudo o que escrevi foi bem pesado).


 


Sócrates: “Educação é o grande projecto para Portugal”

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

mitos

 


 


Se o governo afirma que é um mito dizer-se que o ensino privado em Portugal tem menos custos que o público, é caso para perguntar: para onde vão os eurozinhos?


 


Dirigi uma escola pública com um orçamento anual de cerca 4 milhões de euros. 3 milhões e 920 mil euros, aproximadamente, eram para salários. Se no ensino privado os salários são mais baixos, faz todo o sentido perceber se há privatização de lucros no ensino não superior privado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

pico de justicês

 


 



 


 


Legisla-se muito e mal, dizia a especialista em direito. É um fenómeno que coloca em causa a saúde da democracia, sentenciava de seguida. O ME é um bom exemplo do pior que se pode fazer nessa matéria. Os últimos anos caracterizaram-se por uma legislatite incontinente que lançou o caos no sistema e nas escolas. Não estou a empolgar a coisa. Está comprovado e nem me parece que haja quem defenda o contrário. Muitas escolas sofreram, acrescentado a tudo isso, intervenções com contornos que estiveram "fora" do estado de direito e que, em desespero de causa, serviram para tentar segurar votozinhos. O tempo, sempre o tempo, lá se vai encarregando de denunciar as arbitrariedades.


 


O estatuto da carreira e a avaliação dos professores estão em muito pior estado do que em 2005; qualquer que seja o ângulo de análise.


 


A legislação sobre as progressões dos professores é um emaranhado completamente desmiolado de decretos, despachos e circulares. A DGRHE arma-se em central legisladora e as direcções escolares especializam-se em decifradoras de carreiras. Quando dirigi uma escola pública, fiquei com a ideia que os trituradores de papel tinham sido uma das melhores aquisições.


 


Estamos na presença de mais um pico de justicês que origina estados como o que vai ler a seguir.


 


 


Milhares de professores podem retroceder na carreira e ter de restituir vencimentos


 


"Os representantes das associações de directores de escolas e a vice-presidente da Federação Nacional de Educação (FNE), Lucinda Dâmaso, manifestaram-se ontem "profundamente" preocupados com "a possibilidade de um número significativo de docentes retroceder na carreira e ser chamado a repor parte do vencimento que tem auferido".(...)"