Os dados do eurostat de ontem são taxativos: Portugal, a exemplo da Grécia e da Eslováquia, pertence ao grupo reduzido de países europeus onde aumenta a pobreza através duma "solidariedade" que enriquece os ricos.
E a situação agravar-se-á ainda mais nas taxas de escolaridade se prevalecer por muito mais tempo o thatcherismo que precariza até ao limite mínimo a profissionalidade dos professores e que em última instância criará escolas para ricos e escolas para pobres. O aumento de alunos por turma, o aumento dos horários dos professores, a revisão curricular, os mega-agrupamentos, os despedimentos e as ameaças de mobilidade especial e de horário zero são medidas que, para além de tudo, pretendem quebrar a resistência do grupo profissional que está na primeira linha e que há anos a fio tem erguido uma barreira a este insuportável ultraliberalismo. A defesa do emprego é desvalorizada pelo cinismo das nossas "elites" na tentativa de impedir que os direitos mais elementares sejam reivindicados pelos cidadãos.
Estão patentes nesta notícia as ideias da actual maioria para a carreira dos professores. Começam nas PPP´s escolares, mais conhecidas por cooperativas de ensino (como nas outras ppp´s, há também as respeitáveis), e só ainda não alargaram o modelo às actuais escolas do Estado porque a privatização de lucros tem sido denunciada através da coragem de alguns professores.
Para os professores das cooperativas de ensino a componente lectiva passará das 22 a 25 horas para 30 a 33 e os salários sofrerão cortes acima dos 30%. O topo da carreira nas escolas cooperativas é remunerado em 3000 euros brutos e passará para 1900 euros.
Leia a notícia da edição impressa do Público de hoje.
Do que tenho assistido nos últimos anos com a destruição da escola pública, o que mais me surpreende é ler ou ouvir professores a defenderem a precarização do seu grupo profissional (em regra, convencem-se que escapam, coisa que nem os reformados têm como garantida, e fazem-no para agradar à entidade que servem). Há já história mais do que suficiente para os aconselharmos a serem ponderados.
Participei numa série de debates sobre gestão escolar quando eclodiram os primeiros sinais de que Sócrates e Lurdes Rodrigues tinham escolhido os professores e a escola pública como exemplo do corte a eito através da hiperburocracia e de outras coisas igualmente maléficas.
Nessas sessões, estavam também professores com funções de gestão numa das cooperativas de ensino que é proprietária de vários colégios (é mais fino e o lumpen agradece). O que mais me impressionava no seu discurso não era o endeusamento do chefe do Governo nem sequer a espécie de ciúme profissional com os professores das escolas do Estado. Era o gáudio por apresentarem a folha salarial mais baixa à custa da precarização dos professores que era a política primeira da sua administração. Era uma espécie de solidariedade divina.
Avisei-os da ingenuidade e, nalguns casos, da notória ingratidão.
Há tempos, encontrei um desses professores. Estava em litígio jurídico com a cooperativa de ensino e esperava poder concorrer para uma escola do Estado. Era alguém que também evidenciava com frequência o ranking do seu colégio. Tinha sido substituído. Preferiram alguém com salário mais baixo e que leccionava uma disciplina dos cursos profissionais. É que o colégio onde estava teve "de se abrir" aos CEF´s e profissionais e, com a mesma organização e com os mesmos professores, o ranking baixou. "Mudou" a direcção e a precarização continuou o seu lema sem vãs solidariedades.
Mais do que a crítica pela crítica (que é fundamental e legítima e que oxigena a democracia), aprecio ainda mais quem depois se distingue na hora de construir.
Muitos dos críticos das novas oportunidades (que foi um programa que pecou por ser populista, de destestável engenharia comunicacional e que abalou a certificação e a validação de competências), dos cursos de educação e formação e do ensino profissional, foram oportunistas e cavalgaram a onda da contestação.
Na hora de construir uma alternativa, têm os potenciais alunos de braços cruzados e só pensam numa dupla precarização: do ensino e da profissionalidade dos professores.
Em 1 de Outubro de 2012 escrevi assim:
"De acordo com os números sempre fiáveis do Arlindo Ferreira, o maior despedimento colectivo da História de Portugal já regista menos 9792 contratações de professores do que no ano passado. O dobro do anunciado por Nuno Crato na semana passada e podemos prever a evolução da coisa (ou do coiso). Mas vamos deixar que a verdade venha naturalmente à superfície. Os cortes e achamentos do actual Governo continuam a afundar as escolas públicas. Para além do aumento do número de alunos por turma, das desmioladas agregações de escolas e da nova estrutura curricular, temos agora um intercâmbio com o IEFP a tentar impor uma lógica disfarçada, e de médio prazo, de recibo-verde-descartável. Neste último assunto, até começa a ser risível a forma com estes pouco fundamentados críticos das novas oportunidades (porque há quem criticou com fundamento) andam aos papéis com os milhares de alunos que estão de braços cruzados."