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Um mundo melhor seria, obviamente, sem guerras e com uma democracia consolidada que contrariasse a ganância. E, como se sabe, a escola dá um importante contributo, em duas ou três gerações, para a afirmação da democracia ou para a sua fragilização.
Aliás, comprova-se, por muito difíceis que sejam os estudos empíricos, a relação directa e proporcional entre a qualidade democrática das escolas, a ambição escolar das famílias e a confiança nos professores. E se a ambição escolar é tão determinante como as condições sócio-económicas, a confiança nos professores é um requisito relacional precioso.
Para além de tudo, a mediatização constante e prolongada da desconfiança nos professores deixa tantas marcas como a sua proletarização. Desautorizar professores prejudica o ensino e as aprendizagens e afecta todos os alunos. "Criam-se" escolas e turmas para os mais informados e despreza-se uma variável fundamental: a "miscigenação" das diversas condições sociais como critério cimeiro para a elevação das escolas e dos sistemas escolares. É importante recordar que esse cruzamento é igualmente decisivo para o crescimento da essencial classe média que fortalece as democracias (leia-se, e apenas a propósito, Hannah Arendt, para muitos a filósofa que melhor psicanalizou o nazismo).
Nas últimas duas décadas houve uma avalanche de desconfiança nos professores. Resultou na falta de professores, mas terá outros efeitos no médio e longo prazos. Era bom que também neste domínio, e a exemplo do clima, das dívidas e da segurança social, nos esforçássemos por deixar um mundo melhor. Não basta dizer que se confia. É crucial que as políticas o confirmem.
Muito bom. Saliento “a "miscigenação" das diversas condições sociais como critério cimeiro para a elevação das escolas e dos sistemas escolares. É importante recordar que esse cruzamento é igualmente decisivo para o crescimento da essencial classe média que fortalece as democracias (é ler Hannah Arendt).”
ResponderEliminarMuito obrigado, Joana.
ResponderEliminarArendt não defendeu nada do que lhe é atribuído no artigo. Até no que respeita à imigração, ela defendia sim "a americanização dos filhos dos imigrantes".
ResponderEliminarHannah Arendt. La crise de la culture, pp. 223-253, La crise de l'éducation.
ResponderEliminarUm belo texto que merecia o tratamento devido. Onde ela critica precisamentea a ideia (totalitária) de criar um mundo novo e melhor a partir da escola e das crianças. Quando o essencial é respeitar os valores recebidos dos antepassados, manter a autoridade dos adultos, evitar o nivelamento escolar, para respeitar a "igualdade" (prejudicando os alunos mais aptos). Sobretudo a ilusão de que a educação pode ser decisiva na eliminação da pobreza e da opressão, na bolha de um mundo onírico e fracturante.
Sem dúvida, Rui. Muito obrigado. Antes do mais e das escolas e dos professores, a sociedade. As condições sócio-económicas das famílias e a ambição escolar. Belo texto que merecia mais atenção. Em relação a este post, não é possível abordar e detalhar os vários ângulos de análise. E, depois, o mundo mudou e a história nunca se repetirá exactamente.
ResponderEliminarA minha recomendação da leitura de Hannah Arendt é exactamente na importância da confiança no professor e na sua autoridade e na linha daquele texto que referi.
ResponderEliminarNão literalmente, posso concordar. Mas "a americanização dos filhos dos imigrantes" pode ser viso como uma miscigenação intercultural (e não no relativismo multicultural também tão criticado no célebre relatório Jacques Delors) que reforça a classe média e elimina os guetos provocados pelo citado relativismo.
ResponderEliminarA propósito desse texto de Hannah Arendt, La crise de la culture, PP. 223-252. Gallimard, 1972. Mas é exactamente a confiança no professor e a sua autoridade que sublinho. E considerar isso fundamental para a democracia e para a escola democrática é o que pensa Hannah e fundamenta-o.
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