Pelo Público, em 5 Março de 2026. O texto tem 6 ligações. A leitura na edição online do Público é de acesso gratuito. Como acordado, o texto está publicado no blogue (mas sempre depois da publicação online do Público).
Texto:
Sucederam-se diversas campanhas eleitorais sem uma linha substantiva sobre a falta estrutural de professores. No essencial, o tema da escola pública e dos seus professores não existe eleitoralmente há quase duas décadas. Estabeleceu-se um crescente desprezo pelo assunto, directamente proporcional à consolidação da fatal proletarização dos professores.
E se um professor romper publicamente com o marasmo, a poderosa bolha político-mediática classificá-lo-á como corporativo e alarmista. Foi assim na recente recuperação do tempo de serviço, e mais atrás com os avisos de que um dia faltarão professores ou que os eleitores se radicalizarão.
Aliás, para além dessa justa recuperação não ter criado qualquer convulsão na função pública, repita-se que a percentagem para a Educação no Produto Interno Bruto (2026) baixará, pela primeira vez desde 1973, do limite mínimo democrático dos 3%. Portanto, foi sensata a opinião de Pep Guardiola a propósito da recente hiper-mediatização de um alegado acto racista num jogo de futebol: "o racismo está em todo o lado. Paguem mais aos professores. Os professores e os médicos devem ser, de longe, os profissionais mais bem pagos da sociedade".
Na realidade, as gerações que têm governado - dos políticos aos académicos e passando pelos lobistas viciados no financiamento do orçamento do Estado - são responsáveis por este trágico legado. Além de se terem tornado numa espécie de confraria de "bullies" dos professores, tutelam e asfixiam a democracia escolar há quase duas décadas. E não degradaram apenas a carreira. Afastaram preconceituosamente os professores do centro do poder escolar, com resultados negativos estruturais e diários.
A bem dizer, desvalorizaram teimosamente um conjunto de princípios vitais, que se resume em tristes afirmações de governantes: perderam-se os professores, mas ganharam-se os pais; há professores a mais e os excedentes devem emigrar; os directores são os braços direitos do poder que resolverão a falta de professores.
Na verdade, quando Passos Coelho acusa a viciação de concursos públicos, é crucial sublinhar que não há sector da administração pública com a avaliação de profissionais mais viciada do que a Educação e com um concurso de dirigentes (nas escolas), seguido de eleição, mais contaminado por flagrantes irregularidades e parcialidades.
Efectivamente, as escolas são o último reduto do caudilhismo na administração pública, com dirigentes em funções durante quase duas, três ou quatro décadas, e com mandatos que podem chegar aos oito anos. E, a propósito, quem não se recorda dos dinossauros nas autarquias? Pois bem, a limitação de mandatos para cerca de uma década acabou com o flagelo e o recente comboio de tempestades evidenciou a importância desse princípio inalienável.
Mas o que se tornou mais surpreendente no desprezo pela escola como laboratório da democracia foi o desapreço pela aprendizagem. É que a democracia é uma aprendizagem diária, exigente e em permanente construção. Os adultos, a começar pelos professores, têm que ser sujeitos e objectos desse exercício. É crucial para a sua cidadania e um exemplo fundamental para os jovens e para os alunos como futuros eleitores.
Por essa razão, não foi surpreendente a declaração de Miguel Carvalho, autor do livro Dentro do Chega - A face oculta da extrema-direita em Portugal: “os ficheiros estão cheios de professores". E a afirmação surgiu a propósito dos militantes, ou eleitores, desse partido não conhecerem a História, não acreditarem na ciência, serem seduzidos por desinformação ou protestarem pelo menosprezo profissional a que são votados.
Na mesma linha de erros imperdoáveis, a queda da democracia escolar também se espelha na desvalorização dos conselhos pedagógicos das escolas, com o argumento de que se perdia muito tempo a debater. Repare-se em três resultados:
1. há, no mínimo, 79 escolas que receberam influenciadores que fazem da sexualização das crianças "um negócio”;
2. há várias escolas e universidades que anglicizaram, naquilo que Paulo Guinote denomina por "Cosmoparolismo", os nomes das actividades ou das organizações;
3. e como súmula dos pontos anteriores, o projecto Teach for Portugal, que não é sequer uma organização do ensino superior, entra nas escolas públicas e promete "carreiras" na linha da falhada e desqualificada privatização sueca da Educação na década de 1990 (os suecos concluíram, "muito tardiamente", dizem eles, que o orçamento de Estado para a Educação não deve ser objecto de negócios que originem lucros privados).
Resumidamente, é notória a encruzilhada em que caiu a escola pública. Se está feito o diagnóstico da proletarização dos professores e a terapia exige coragem, é seguro que não se enfrentará a crise sem a sua mobilização. Para isso, é crucial devolver à escola o ambiente inteiro e limpo. Apesar do indisfarçável aumento dos custos com tantos anos de inacção, a mudança ainda está nas mãos das gerações que governam.
Magistral. Joana Ramos.
ResponderEliminarObrigado, Joana.
EliminarBrutal!
ResponderEliminarObrigado.
EliminarMuito bom Paulo!
ResponderEliminarMas “…e a terapia exige coragem, é seguro que não se enfrentará a crise sem a sua mobilização.”
Como podemos voltar a mobilizar os professores?
E como “…devolver à escola o ambiente inteiro e limpo.”?
É um desânimo...
Muito obrigado, Dália. É só o dever da esperança.
EliminarObrigada Paulo!
EliminarForça aí, Dália.
EliminarCaro colega Paulo, obrigado pela sua clarividência sobre a escola pública e a sua degradação. A ignorância e a preguiça tornaram-se os valores dominantes na escola com o aval de quase todos e em nome das estatísticas de sucesso interno. Remar contra a maré é difícil e tem custos. Há que continuar a dizer " O rei vai nu".
ResponderEliminarMuito obrigado. Força aí.
EliminarIsabel Neves, professora há 41 anos.
ResponderEliminarMuito obrigado, Isabel.
EliminarUm artigo com o selo do Professor Paulo Prudêncio e isso, diz muito!
ResponderEliminarTem carradas de “razão” em tudo o que afirma. Contudo, na realidade e na prática, há factos, palavras, números e “imagens” que não se devem esquecer!
É preciso fazer “pontes” ou não, entre a investigação do DN de 17 de junho de 2024 (ainda não fez 2 anos) que deu conta de mais de 46 000 descontentes com a gestão e funcionamento dos AE (?) e os quase 7 700 que assinaram a petição para alteração do atual modelo de gestão escolar. Não censuro ninguém, mas se calhar, diz-se uma coisa, e na altura de assinar, alguns(algumas esqueceram-se ou não acreditaram que ela se “ergue-se”. Por isso, continua-se a ter mais do mesmo até ver…!
Antes que a poeira dos dias, a erosão e a memória selectiva, façam das suas, fica para a posteridade mas estes registos, já repetidos:
Mais de 46 mil professores efetivos querem mudar de escola
Cynthia Valente
Publicado e atualizado a 17 de junho de 2024 – Diário de Notícias
“(…) acredita que o modelo de gestão está por detrás desta realidade. “O ambiente nas escolas causado pela autocracia é angustiante”, afirma. Uma docente a lecionar numa zona de Braga, e que não quis identificar-se para não sofrer represálias, partilha a mesma visão. “Sou QE há 16 anos e concorri para sair. As direções das escolas estão muito incrustadas no posto. Na minha escola é a mesma pessoa há mais de 30 anos e o modelo de gestão é o mesmo há décadas. Foi isso que me motivou a tentar sair”, afirma. A docente acrescenta a retirada de poder de decisão aos professores. “Há 10 ou 12 anos os departamentos tinham voz. A nossa participação na escola agora é mais executar o que outros determinam e é muito desmotivante. Somos uns meros executores e guardadores de crianças. É preciso um abanão no sistema educativo. As pessoas andam a arrastar-se nas escolas. As escolas devem voltar ao seu papel de ensinar”, conclui. (…)”
https://www.dn.pt/sociedade/mais-de-46-mil-professores-efetivos-querem-mudar-de-escola
Assembleia da República,
Defesa da Petição n.º 75/XVII/1.ª
“Alteração do Modelo de Gestão Escolar”
Fonte SOS Escola Pública:
https://www.instagram.com/reel/DU6zJK1DNyN/
Muito obrigado.
EliminarOra bem, se concordo com grande parte do texto, sobretudo com a proletarização e com o conceito dos professores deverem ser o objecto e o sujeito do exercício da democracia (bela síntese!) faço um diagnóstico um pouco diferente: uma das razões da deriva começa com a redução na formação da componente científica do professor ou do candidato a professor. O clichê repetido décadas a fio, da prioridade dos critérios pedagógicos face aos científicos trouxe para a profissão professores sem a profundidade e solidez do cerne, das matérias da sua disciplina. Assisti tantas vezes a professores assustados, aterrorizados mesmo com problemas de disciplina em turmas em que tal não se verificava nas outras aulas. Sem dominarem a matéria, sem a conhecerem em profundidade não havia estilo de ensino, estratégia ou pedagogia que ajudassem. A tecnologia primeiro com os projectores de vídeo, agora com os quadros interactivos veio disfarçar esta debilidade mas não resolveu problema nenhum. O professor animador que passa vídeos e power point “chave na mão” mantém a mesma dificuldade: não consegue engajar a turma na aula pois ele próprio não se envolveu. Em simultâneo, a pulverização dos currículos, o passar-se de 9 disciplinas / 9 professores ano para 13 ou 14 conduziu - também - à proletarização: 250 alunos para um professor é a melhor ilustração de uma linha de montagem. Depois o professor dividido por vários edifícios diferentes alguns distantes km entre si - agrupamentos solução cega na contenção de custos - foi ainda mais manietado no seu lugar com a tira rolante incessante, defronte dele.
ResponderEliminarA gestão democrática das escolas não teve capacidade / vontade (?) (ou terei sido eu que tive azar nas escolas por onde passei e se passei por muitas) para resolver o problema do professor incompetente (chamemos-lhe assim, poupamos palavras). A gestão autocrática mantém a mesma incapacidade e a avaliação não resolveu problema nenhum, só criou e desmoralizou.
É que, quanto a mim, atractividade da profissão não está nos salários, nunca esteve. Está noutras coisas: umas intangíveis - a relação com os miúdos, o vê-los crescer, o ensinar sim e outras bem concretas - o horário de trabalho, o ambiente de trabalho, o ritmo (leia-se uns dias de paragem aqui e ali), uns projectos diferentes, a possibilidade de poder conciliar com o acompanhamento à família.
Assim, tendo em consideração o pressuposto “sem relação não há educação” uma medida que eu defendo justificar uma luta seria um professor não ter mais 4 turmas em ciclo nenhum de ensino.
Depois, repensar o grupo / departamento de professores. Se também nunca resolveu o problema do professor com dificuldades (felizmente casos minoritários) pelo menos favorecia (desde que com massa crítica) o trabalho em equipa, o crescimento, a discussão crítica “o que ensinar, como ensinar”, o projecto inovador aqui e ali.
Derivei, perdi-me, lamento.
Vai assim mesmo, sempre são outras achas para a fogueira.
Teresa
Muito bom. Muito obrigado, Teresa.
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