Pelo Público, em 26 Junho de 2026. O texto tem ligações. Como acordado, o texto está publicado no blogue (mas sempre depois da publicação online do Público).
Título: A grande encruzilhada
Texto:
"Durante as décadas de 1960 e 1970, um indivíduo empregado a tempo inteiro que recebesse o salário mínimo ganhava o suficiente para manter uma família de três pessoas acima do limiar da pobreza. Hoje, uma família de três a viver com o salário mínimo federal fica significativamente abaixo desse limiar." Estes factos dos EUA, descritos por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2024:200) em A Tirania da Minoria, sintetizam a grande encruzilhada de círculos viciosos de pobreza em que caíram as democracias ocidentais a partir da década de 1980 e após o período menos desigual na história dos rendimentos que marcou o início dos Estados sociais. Portugal só criou o seu Estado social depois disso. Como o país vivia em ditadura, o regime acentuou as desigualdades na década de 1960 e até 1974 e entrou naquela grande encruzilhada com cerca de 20 anos de atraso.
De facto, é inegável que as democracias ocidentais, exceptuando alguns países nórdicos, foram incapazes de manter um modelo inclusivo de distribuição de riqueza. Na prática, ao cortarem nos serviços públicos de qualidade, desregularem os mercados e aliviarem a carga fiscal dos previsíveis oligarcas, anularam a possibilidade de círculos virtuosos de crescimento. Em vez da maré alta que faz subir todos os barcos, os ricos ficaram mais ricos e a classe média empobreceu. Diluiu-se o bom estatuto do servidor que dá tudo à causa pública consciente de que não enriquecerá. Foi notória a perda de atractividade da função pública e da sua qualidade. Apesar do notável desempenho dos funcionários públicos, surgiram ondas de protesto e as forças demagógicas cresceram em paralelo com o crepúsculo das democracias.
Acima de tudo, uma economia de mercado aberta e um regime democrático e pluralista não pressupõem a existência de paraísos fiscais e de tiranias fiscais a favor de minorias. Pelo contrário, essas políticas criaram uma grande encruzilhada que nos remete para a sua origem, os "Chicago boys" (ancorados em Milton Friedman), e para uma leitura atenta de Adam Smith. O pai do liberalismo fez o elogio do altruísmo criador de emprego de investidores e empresários, mas regulado. Aliás, os desreguladores não foram apenas os neoliberais e conservadores sociais, como Reagan e Thatcher. Social-democratas, democratas-cristãos e democratas de esquerda aplicaram o mesmo pensamento mágico.
Realmente, a grande encruzilhada cresceu e teme-se a bolha, mais uma, da desregulada IA, onde se investem quantias astronómicas sem retorno assegurado e se escravizam milhões de pessoas no garimpo das terras raras ou a teclar como corretores de algoritmos. A propósito, como é moda caricaturar os críticos chamando-lhes esquerdistas radicais, era avisado reler a contundência de Joseph Stiglitz e de Warren Buffett acerca da bolha de 2008. O primeiro acusou, em 2009, a "corrupção ao estilo americano" e a "luta de classes contra os mais pobres" perpetrada pelo sistema financeiro norte-americano com a cumplicidade do poder político, e o segundo condenou, em 2011, as nossas "extraordinárias isenções fiscais" (enquanto super-ricos com uma tributação de 17,4%) em comparação com a média fiscal de 36% dos seus trabalhadores.
Efectivamente, justiça fiscal, direitos laborais, habitação e serviços públicos de saúde e de educação são componentes críticas da grande encruzilhada, sendo iniludível o aumento brutal das desigualdades educativas. Daniel Markovits considerou-as maiores do que no apartheid americano em meados do século XX e até países nórdicos se inebriaram com as teses de Chicago. Em meados da década de 1990, os suecos privatizaram a educação com contratos de associação lucrativos. Reverteram totalmente o desastre na década de 2020. O liberal Johan Pehrson, ministro da Educação até Junho de 2025, achou-se um ingénuo por aplicar a equação neoliberal no Estado social.
Aliás, Portugal iniciou essa experiência nas décadas de 2000 e 2010. O Grupo GPS foi o tubo de ensaio no estatuto e avaliação da carreira dos professores e na gestão das escolas. Se se travou, em 2016, a privatização de lucros, mantiveram-se os restantes instrumentos de proletarização de professores. Provocaram uma perda do poder de compra de cerca de 30% (2009-2023) e o desespero institucional com a falta de professores gerou situações de exaustão (horas extraordinárias a eito) e de injustiça fiscal (professores com vinte e muitos anos de serviço com salários líquidos inferiores a recém-entrados na profissão). Por outro lado, duplicaram as escolas para ricos, e o ensino público expôs-se às desreguladas Big Tech comercialmente interessadas no "tutor de IA" por aluno e no assistente digital como professor.
Em suma, a civilização nunca avançou reduzindo o espaço do bem comum. Nenhuma nação enriqueceu com um Estado mínimo. A bem dizer, a grande encruzilhada agravou-se. A crucial agenda político-mediática ignorou a existência de paraísos fiscais enquanto demonizou pobres, trabalhadores e imigrantes. As Big Tech, proprietárias das redes sociais (uma selva digital que viciou crianças e jovens em climas de misoginia e ódio), misturaram-se com supremacistas, conspiradores da "Grande Substituição" e meia centena de tecnofeudalistas que comandaram o mundo. Os democratas acordaram demasiado tarde, mas despertaram. O Papa Leão XIV identifica "um mundo em crise profunda" e um co-fundador da Anthropic sugere um travão na IA. Percebe-se o temor. É que, desta vez, o futuro não pode demorar uma eternidade.
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