domingo, 25 de outubro de 2026

"As relações humanas seriam muito diferentes se fosse transparente a relação entre dor e linguagem, se sentíssemos a dor do outro ao ouvi-lo enunciando a palavra dor"



Se há algo consensual nos tempos que estamos a viver, é que se alastrou a banalização do mal, do ódio, da violência, da divisão e da falta de empatia. Tornou-se mais evidente, por ser ampliado pelas redes sociais e no resguardo do clima politicamente extremista, que há humanos que odeiam humanos. A bem da verdade, o "todos contra todos e em todo o lado", inventado na década de 1980 pelos adversários do Estado Social, regressou em força neste milénio e degradou o que está inscrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos, nomeadamente os direitos à habitação, à educação e à saúde.
Como referi no último post sobre a crise da habitação, a violência sobre manifestantes interessa ao discurso da desvalorização da democracia. O populismo e a radicalização vivem disso. É um erro fatal ordenar aos polícias que carreguem contra protestos pacíficos; é, acima de tudo, passar por cima dos direitos humanos. A propósito da longa luta dos professores contra a sua proletarização, lembrei-me muitas vezes do aforismo de Ludwig Wittgenstein: "As relações humanas seriam muito diferentes se fosse transparente a relação entre dor e linguagem, se sentíssemos a dor do outro ao ouvi-lo enunciando a palavra dor."
De facto, os manifestantes têm toda a razão. Ou seja, há uma crise gravíssima na habitação reconhecida, finalmente, por todos. Para além de outras causas primordiais, o mercado desregulado expôs-se a insaciáveis investimentos, com as mais diversas origens (e, em muito casos, obscuridades), e tornou o preço das casas inacessível à população residente das classes média e baixa.

Claro que há sempre um sinal de esperança nos humanos que se vê que gostam de humanos e que lutam contra a injustiça. E permitam-me que convoque uma ideia que movimentará muitos desses cidadãos. A edição do extinto JL (jornal de letras, artes e ideias), de 14 a 27 de Janeiro de 2009, tem uma interessante entrevista a José Bragança de Miranda. A certa altura, a jornalista pergunta-lhe se ele nunca quis ser artista. A resposta passou pelo percurso pessoal e profissional e terminou assim e no seu registo humorado: "Felizmente, veio a Revolução que acabou com todas essas ilusões." Porquê, diz a jornalista?: "Porque a Revolução era bem mais importante. E foi um momento fantástico que só quem o viveu pode verdadeiramente perceber. Quem não teve a sorte de ter vivido o 25 de Abril tem que se contentar com os mundiais de futebol."

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