Mais um sinal eloquente da colocação do digital das escolas para as massas nas mão das gigantes tecnológicas. É mais uma face do conformismo que assola o sistema educativo. Mas será que não se aprende?
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Mais um sinal eloquente da colocação do digital das escolas para as massas nas mão das gigantes tecnológicas. É mais uma face do conformismo que assola o sistema educativo. Mas será que não se aprende?
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A coerência é uma marca deste PS na Educação; a má administração foi um traço das políticas. Podemos pegar nos estatutos do aluno ou do professor, na gestão escolar, na avaliação do desempenho, na escola a tempo inteiro e por aí fora até ao plano tecnológico para a Educação ou ao simplex (os mentores deste bom programa devem achar que os do ME têm tanto de louco como de incompetente), que encontraremos motivos para levar as mãos à cabeça.
Podemos olhar para o PTE a partir de três das componentes de um sistema de informação: pela gestão de recursos humanos, pela construção de software ou pela aquisição de hardware. Para os dois últimos resume-se assim: é imediato esbanjar financiamento em hardware, principalmente se os eruzinhos não saírem dos nosso bolsos; no que diz respeito à construção de software, a equação exige muito trabalho.
Se considerarmos que uma organização escolar deve navegar em duas redes, uma de recursos educativos e outra de gestão administrativa, devemos considerar que o investimento em acessos de alta velocidade, com terminais e quadros interactivos em todas as salas de aula, foi uma ideia imediata. A rede de recursos educativos usa a internet e o open source e a de recursos administrativos está em branco e em zeros ficará. Uma e outra precisam de recursos humanos para manutenção e desenvolvimento. Mais até a segunda, para que os zeros referidos não se transformem a médio prazo em mais um elefante branco.
O ME desgovernou do seguinte modo: em 2005 o ímpeto de contenção da despesa reduziu cerca de 20 mil professores com o fim quase geral das reduções da componente lectiva para o exercício de cargos. Os professores compreenderam o esforço. Em 2009, em plena crise financeira, os votozinhos trouxeram aumentos de salários e reduções da componente lectiva associadas. O PTE foi contemplado, por imperativo da "mudança". Nem dois anos depois, as horas dos professores do PTE desaparecem e toda a parafernália tecnológica fica ainda mais à sorte e à ocasião.
O plano tecnológico, já o escrevi vezes sem conta, tem muito hardware (os eurozinhos fáceis) e zero de software. Quando recebi o cartão de cidadão impedi a anulação do de eleitor, uma vez que o número não constava do novo registo.
Quando hoje fui votar encontrei de imediato a mesa de voto. Alguns dos meus familiares, os que permitiram a recolha do de eleitor ou os que já não tiveram direito à sua receção, estiveram horas para o fazer. Eram muitas as pessoas nessa situação. Os computadores da junta de freguesia não acediam à base de dados e o número de telefone 3838 curto-circuitou. Intolerável tudo isto. Valeu-lhes a simpatia de quem estava nas mesas de voto, que se deu ao trabalho de pesquisar o nome numa lista ordenada por número. Um país de modernaços, sem dúvida, que vive às custas da traquitana do estado.
Sinceramente: já não tenho pachorra, se é que alguma vez tive, para analisar as opiniões do chefe do governo sobre Educação, embora o desastre tenha a sua obstinada assinatura. As suas últimas declarações são transcritas assim: "(...) a educação em Portugal transformou-se com a adoção de um plano tecnológico. Nós hoje temos um dos rácios mais elevados do mundo em termos de alunos por computador, temos uma das sociedades educativas que mais utiliza os computadores e todas as nossas escolas estão ligadas por banda larga de alta velocidade(...)".
Mas é também risível. O primeiro-ministro diz que temos um dos rácios mais elevados do mundo em termos de alunos por computador, ou seja, somos um dos países do mundo que tem mais alunos por computador, logo, menos computadores por alunos.
O PSD baixou nas sondagens para umas próximas legislativas. Passou de uma clara maioria absoluta para um empate técnico com o PS. Sou franco: qualquer destas putativas soluções governativas desanima-me, embora pense que na Educação é extremamente difícil fazer pior do que nos últimos cinco anos. Importa acrescentar que a primeira década do milénio talvez seja o período que mais se aproxima das desgraças dos governos do actual primeio-ministro.
É procupante esta fatalidade. Portugal está prisioneiro do deserto de ideias sustentadas na Educação. O PSD escolheu para liderar as suas propostas de revisão constitucional um antigo, e mal-sucedido, administrador do BCP e que foi afastado no período que antecedeu o descalabro financeiro da instituição. As suas propostas na Educação funcionaram como balão de oxigénio para o actual primeiro-ministro.
Temos de considerar a excepção que é a sensatez de Mariano Gago no ensino superior. Mas se olharmos para a agenda da propaganda do governo, encontramos uma chuva de milhões que têm de ser gastos de qualquer dos modos e que recebem a benção do bloco central. Quem detalhar a informação sobre programas como a vídeo-vigilância nas escolas terá arrepios. Dá ideia que, e se necessário fosse, se criariam factos para convencer a mais pacata das comunidades.

"Nuno vai para o 1.º ano e já perguntou aos pais quando é que vai receber o Magalhães, igual ao das primas. Também Daniela, 12 anos, que começa as aulas no 5.º ano, já na próxima quinta-feira, planeou uma ida à secretaria da escola para saber se se pode candidatar ao programa e-escola. À partida, as escolas não terão resposta para dar aos alunos e pais porque o Plano Tecnológico da Educação também ainda não sabe qual é o futuro destes programas.(...)"