

Luís Afonso
Foi em 2003 que os concursos de professores iniciaram o movimento descendente. O rol de injustiças (inúmeras já irreparáveis) cresceu e lançou os procedimentos num labirinto em forma de imbróglio. Entre tanta justificação, o mérito no exercício dos professores destacou-se ciclicamente.
O sistema integrado de avaliação do desempenho da administração pública nasceu para resolver de vez, diziam os mentores, esse tipo de "lacuna". O SIADAP reuniu uma linguagem sedutora e bem-pensante como as que deram origem aos totalitarismos. A "meritocracia industrial" é, objectivamente, uma impossibilidade.
O SIADAP hibernou, mas sobrevive em regime de faz de conta e degrada o clima das organizações. Para que a comédia tivesse um episódio marcante, em "Outubro de 2012" o Governo eliminou, como corte financeiro, as distinções por "mérito" e os sindicatos exigiram, de modo cínico, obviamente, a continuação da tragédia. É um processo que exige atenção agora que se assiste, nos concursos de professores, ao regresso "inspirador" das ideias datadas que secundarizaram a graduação profissional e permitiram dois desmiolos: bolsa de contratação de escola e prova de ingresso.
O Governo fez uma proposta de orçamento que reduz para 12 dias as indemnizações por cada ano de trabalho. O CDS apressou-se numa contraproposta para o aumento dos dias e disse que terá o apoio parlamentar do PSD. O Governo afirma-se hoje com total "abertura" para rever redução das indemnizações para 12 dias.
É difícil fazer manipulação comunicacional de forma tão básica. Fingimos que cedemos aqui para que o resto fique incólume, deve ter sido o lema. Digamos que é uma maioria falha de imaginação e que ajusta e empobrece até a actividade de spin. Não deverá chegar ao final de 2013.
O sistema integrado de avaliação do desempenho da administração pública (SIADAP) reúne uma linguagem tão sedutora e bem-pensante como as que deram origem aos totalitarismos mais diversos. São cada vez mais os que classificam a meritocracia como uma impossibilidade de génese antidemocrática.
A desorientação instalou-se no SIADAP e só o faz de conta vai sobrevivendo apesar de degradar o clima das organizações públicas. Para que a comédia fosse verdadeiramente lusitana, só nos faltava um Governo a eliminar distinções por mérito para poupar e sindicatos a pugnar pelo continuação do desmiolo.
Eliminados artigos sobre a distinção por mérito na função pública
Marcelo diz saber que Borges falou sobre RTP com cobertura de Relvas
Já tínhamos reparado que estamos "sem Governo", mas agora também concluímos que os conselheiros do dito estão em roda livre ou aos papéis. Para além do que diz a notícia, ficou a saber-se que Marcelo R. de Sousa dá palpites sobre os convites da TVI e que carimbou a ida de Borges.
Depois das agendas das reuniões e da imposição do respeito pela graduação profissional dos professores, o MEC volta a ter de despachar para regular a relação entre os professores e alguns órgãos de direcção. São estas coisas que nos devem envergonhar.
Provas de aferição: Dispenas de serviço para supervisores e codificadores
Sucedem-se os governos de "rapazolas" e já nem os banqueiros acham piada a determinadas coisas? A propósito de outro assunto: se a mais elementar sensatez obriga à colocação no lugar do outro, seria boa ideia começarmos a pensar que quem afirma que o desemprego é uma oportunidade está em boa posição para o testar.
Não sei quanto tempo durará este governo e concluo que não estou isolado. O respeito pelo cumprimento dos mandatos, dos Governos e dos outros patamares, são características dos Estados de direito e o nosso não o é. Por outro lado, não conheço o grau de sofisticação dos nossos governantes para os remeter para o maquiavelismo "científico". O que sei, e isso é objectivo, é que temos sido muito mal governados nas ultimas duas décadas (não vou mais atrás, porque tenho "vergonha" de falar dos 48 anos de ditadura; um povo que aguenta aquilo deve ter um qualquer problema de psiquiatria colectiva; aliás, nos últimos dias ando mesmo "envergonhado" com várias coisas que me rodeiam e que são da mesma família).
Não sei se o Governo articula as declarações para testar a reacção às palas ideológicas para além da troika que até o FMI já condena. O que suspeito é que os tempos inéditos não estão para brincadeiras. E não era bom que o povo, o tal que é mais informado do que nunca, concluísse que os garotos que só pensam nos seus interesses não têm emenda.
Ministra da Justiça não garante regresso dos subsídios de férias e Natal em 2015
O ministro das finanças foi hoje à sede do FMI afirmar que os portugueses "(...)estão completamente dispostos a sacrificar-se(...)". Este tipo de declarações só podem ter duas causas: quem as proferiu é imaturo ou vive na estratosfera.
Bem sabemos que a veneração como bom aluno associada às palas ideológicas que vão para além da troika pedem declarações destas (era melhor escrever que talvez peçam, pois nem isso é seguro). Mas quem olhar para a economia do país e para as taxas de desemprego - nem é preciso mais -, e se for sensato, dirá que os portugueses têm sido muito sacrificados. Para além de tudo, este tipo de discurso é incendiário, revolta as pessoas e pode mesmo acabar mal. Estes governantes estão à espera de quê?
Isabel Alçada recusa a existência de irregularidades na Parque Escolar
Percebo: quem viver na estratosfera e negar a falência do país também pode afirmar coisas destas. Fiz um post por causa dos outdoors da parque-escolar-sa pouco depois do programa ter começado. Como se sabe, os outdoors são caríssimos e as campanhas eleitorais em período de contenção recusam a sua utilização. Uma empresa sem concorrência, e que requalificava escolas, fazia publicidade com outdoors a que propósito? Via-se logo que a coisa acabaria mal e custa ver os tais das benesses ilimitadas a teimarem na megalomania. É nos detalhes que tudo se joga e que se percebe o rigor dos programas.
Imagino o exercício de sobrevivência dos jornais. Os impressos andam há anos numa saga dificílima. Ontem, o Público chamava à primeira página um exercício cómico de fosfenismo inspirado num francês de nome Francis Lefebure que dizia reencarnar o nosso Vasco da Gama de acordo com uma visita que nos fez em 1950. O MEC reagiu em relação à escola que adoptou o movimento e estabeleceu-se uma polémica sobre a autonomia. Pois é. O ensadecimento não é de agora. Tive um contacto com ele no início do milénio com as crianças Índigo. Como relatei aqui, a autonomia salvou o MEC. Resume-se assim: "(...)Manuel António Pina, cronista do DN, pega numa coisa que anda há uns anos por aí, as crianças Índigo, mas que agora, e ao que parece, ganhou credenciais passadas pelo próprio ministério da Educação. Certa vez, talvez no início do milénio, apareceu na nossa escola uma senhora que se dizia portadora dessa boa nova e que queria que fossemos pioneiros no acolhimento da ideia. Segundo os seus estudos, as crianças Índigo eram rotuladas de hiperactivas. Assegurou-me que uma criança destas, podia, num momento de descarga eléctrica, desactivar o quadro respectivo de uma qualquer habitação. E mais umas coisas de que não me lembro lá muito bem. Agradecemos-lhe a gentileza, mas não: na nossa escola, não. Mas nunca mais me esqueci. Recordo-me que, e uns anos depois, uma Universidade do Porto agarrou a ideia com a mesma senhora como promotora. E a coisa até parece que andou.(...)"
Escola põe alunos a fixar lâmpadas para terem melhores resultados
Governo abre excepção para a TAP e autoriza empresa a manter salários
Era inadmissível cortar salários e desde 2011 que assim foi. Era impensável cortar nos subsídios e o natal de 2011 ficou sem metade.
Os cortes salariais aos do costume mais a supressão dos subsídios em 2012, permitem ao actual Governo a gabarolice ideológica para além da troika. As receitas fiscais já certificam a ausência de economia e a pergunta política do momento é linear: até quando?
Funcionários alemães em greve por aumentos de 6.5%
Mais parece o estado pré-segunda guerra e bem pode Merkel dizer que está preocupada com a dívida portuguesa.
Petição para demissão de Cavaco chega à AR com mais de 40 mil subscritores
E depois?
Capoulas Santos pede ao Governo acção contra a seca em vez de fé
Desconhece-se o Soduku na Assembleia da República?
Insucesso e abandono escolar não serão combatidos com a nova revisão currricular, defende CNE
É um CNE marciano?
E podíamos estar o dia todo neste exercício.
Ouvi, e vi, o médico Sobrinho Simões na pele de senador da República. Mostrou-se favorável à prestação de contas das direcções escolares em relação às comunidades educativas através da avaliação dos directores pelo conselhos gerais. O seu discurso estava num tal nível bem-pensante e irrefutável que levou a entrevistadora ao recurso inevitável: as corporações, como no passado recente, é que complicam.
Mas eis que tiveram uma espécie de rebate de consciência: é preciso que os modelos sejam aplicáveis, disseram quase em uníssono. Sobrinho Simões mudou de tom e começou a explicar a impossibilidade de medir o acto médico e a inexequibilidade e a brutal injustiça do modelo de avaliação em curso. Foi pena que o tempo mediático o interrompesse.
Não sei o que se passa nos conselhos gerais das universidades, dos hospitais ou da EDP. Sei que nas escolas dos ensinos básico e secundário a avaliação dos directores começou por ficar a cargo dos directores regionais. Uma coisa insana, como se previa. Pontuar anualmente centenas de gestores escolares é uma tarefa para inumanos. Caiu sem apelo.
O que agora se achou é de outra dimensão. Os conselhos gerais das escolas têm cerca de 50% (menos um bocado) de membros com vínculo à instituição (docentes e não docentes) que serão avaliados pelo director e que depois o avaliam. Vai ser bonito e bem lusitano. Os restantes membros são desvinculados, podem abandonar o cargo quando bem lhes apetecer, não têm de evidenciar formação especializada, não prestam contas, mas avaliam. É a tal dimensão, desta vez potenciada à quinta e talvez inspirada no sempre presente Quinto Império.
A avaliação de desempenho de professores é a farsa que se sabe. É positivo o facto do novo decreto-lei determinar que as menções de excelente e de muito bom não têm efeitos nos concursos dos professores do quadro, mas a descriminação em relação aos professores contratados é que já cansa. E depois diz-se uma série de coisas em relação aos jovens adultos e por aí fora. Esta sociedade está doente, não protege há muito os mecanismos intergeracionais e só podia caminhar para a falência.
Encontrei a imagem aqui.
Passei pelos órgaõs de comunicação social online e registei sintomas de uma sociedade doente.
Sócrates pediu ajuda externa depois de discutir com Soares
"Antigo Presidente da República revelou ontem que José Sócrates não queria pedir ajuda externa e que só o terá feito depois de uma "gravíssima discussão" entre ambos."
Conclusão óbvia: um país à deriva e pagarão os "mesmos" de sempre.
Passos Coelho prepara o país para o "dia seguinte"
"O primeiro-ministro revelou que a agilização da mobilidade na Função Pública e novas regras para as nomeações nas empresas públicas são os próximos passos."
Repare-se nas preocupações deste governante. Nem uma palavra sobre as PPP´s, por exemplo. Há década e meia, pelo menos, que os governos começam por nomear para as empresas públicas e para os serviços do Estado e a seguir legislam para dignificarem o processo; uns espertos. Vem o governo seguinte e repete a prática e o discurso. Há pelo menos 20 anos que as ditas nomeações são finalmente, e repetidamente, "moralizadas". Estranho ou talvez não.
Inquilinos de Lisboa querem falar com a troika
Quem é governado, há anos, por pessoas que se conclui que estavam impreparadas porque não tinham maturidade social nem muito sentido de estado, começa a desesperar e a fazer tristes figuras; mesmo que compreensíveis.
Presidente alemão apresenta demissão
O senhor parece que exagerou com umas hipotecas num processo tipo bpénezinho. Um duplo sinal: em Portugal é impossível, e é pena, pois ficaríamos com dificuldade em ter quem governasse; a Alemanha parece querer repetir o período que antecedeu a segunda guerra. A ganância dos humanos é demasiado repetível.
Por insignificante que seja, uma alteração pode revelar tendências. É o que devemos retirar de um detalhe da proposta governativa de gestão escolar.
O princípio da eleição dos coordenadores de departamento, e mesmo das outras chefias intermédias, é um passo demonstrativo do que acabei de afirmar. Temos de ter esperança que, um dia, outras se seguirão. É a democracia que faz avançar as organizações e a sensatez, em regra, impõe-se.
É evidente que a epifania da eleição apenas se efectuar para três pessoas indicadas pela direcção tem substância risível que revela a tortuosidade que nos levou para a bancarrota.
Muito do eduquês, do justicês, do economês e por aí fora são ramificações dessa família. O medo, a desconfiança, a insegurança e o oportunismo constroem soluções dessa índole; juntas, conseguem registos incompetentes, atávicos e de má despesa.
Também não me surpreendeu uma contraproposta, com grau de parentesco com a do governo, do tipo "consensual": o departamento indica dois e a direcção outros dois. É a tortuosidade referida de novo em acção. A democratite, a democracia em forma de farsa, a ligar o complicómetro-despesista. Repare-se: o departamento elege dois, a que se somam mais dois para nova eleição. É. Na nossa democracia, o produto de dois mais dois também dá cinco; e vezes demais.
Os sinais de crise na nossa democracia têm uns anos e a culpa não é dos alemães. As recentes imagens audíveis da curvatura vertebral de Vitor Gaspar em relação ao seu homólogo alemão são procedimentos de continuidade. Os recentes chefes de governos europeus não eleitos aconteceram porque a maioria da classe dirigente no velho continente se portou muito mal e em Portugal também.
Quem ler com atenção as propostas do governo sobre o modelo de gestão escolar só pode abanar a cabeça na horizontal. É aprofundada a "escola" de J. Sócrates e L. Rodrigues, com indecisões reveladoras do desnorte. É bom que se sublinhe que quem denunciou a perda de poder democrático das escolas não foi o mainstream; basta atender aos acordos ou entendimentos assinados em 2008 e 2010; já neste milénio, portanto.
O detalhe da recuperação da eleição dos coordenadores de departamento é elucidativa. O governo reconhece que têm de ser sufragados, mas com a condição da direcção indicar três nomes elegíveis. Não sei que provas dadas tem o secretário de Estado Casanova, que parece assinar a proposta, mas tem escola. Não tarda e os alemães sentem-se no direito de nos dizer: vá lá, deixamos que elejam o primeiro-ministro entre António Borges, Dias Loureiro e João Rendeiro para nós podermos trabalhar com quem não faça perguntas.
Sempre me pareceram inapropriados entre adultos os comportamentos maternalistas ou paternalistas; mais ainda se exercidos por chefias (que, como se sabe, não são sinónimo de lideranças).
As relações profissionais ou políticas requerem critérios claros, procedimentos testados, sensatez, respeito mútuo e boa fé.
A badalada pieguice de Passos Coelho é apenas uma característica dos tempos pouco maduros que varrem a Europa. Só assim se explica que a ministra francesa tenha recomendado aos sem-abrigo que se mantenham em casa para se protegerem da vaga de frio.