(Já se sabe: um post vai ficando para baixo e já ninguém lhe pega: aparecem, por vezes, alguns comentários e pouco mais do que isso. Mas nesta entrada sobre a escola pública, estabeleceu-se uma discussão nos comentários que pode merecer a sua atenção e até uma participação no interessante debate que se gerou.)
Depois de quase um mês sem publicações (a última tinha sido "é o ensino estúpida" a 11 de Novembro de 2008) José Luiz Sarmento regressa.
Escreve uma prosa que intitulou de "Escola Pública ou Escola Republicana?".
Ora leia:
"Foi com enorme satisfação que vi, nas manifestações e nas greves dos professores, a profusão de cartazes reivindicando a defesa da Escola Pública. E foi com igual satisfação que vi alguns analistas políticos mais perspicazes começarem a aperceber-se que o conflito entre os professores e o Ministério é cada vez menos de ordem laboral e cada vez mais de ordem política.
Nos próximos meses assistiremos a negociações entre o Ministério e os Sindicatos. O que vai estar em cima da mesa vai ser o Estatuto da Carreira Docente, o Modelo de Avaliação e mais um ou outro afloramento do iceberg que calhe estar na ordem do dia. Sobre estes assuntos, cada uma das partes fará muitas cedências, poucas cedências ou nenhumas cedências conforme o poder negocial que tenha na altura. Nada disto é importante.
O que não estará em cima da mesa é a parte submersa do iceberg. E os professores sabem disso. E porque os professores sabem disso, tanto o Ministério, como os sindicatos estão em pânico. Sentados à volta da mesa, não se ouvirão uns aos outros: terão os ouvidos apurados só para os primeiros sinais de que o Comendador de Pedra se prepara para entrar na sala.
Os gatos saíram do saco e ninguém os vai conseguir meter lá outra vez. Os professores portugueses politizaram-se e ninguém os vai despolitizar. Perceberam que estão frente a frente duas concepções de escolas incompatíveis nos seus pressupostos, na sua concepção do humano e acima de tudo nos interesses que servem. De um lado, aquilo que apareceu referido nos cartazes como a Escola Pública e a que os nossos colegas franceses chamam, talvez com mais propriedade, a Escola Republicana, que se define pelo acesso de todos ao melhor que a nossa civilização oferece. Do outro lado, o inimigo: a escola tecno-burocrata, para a qual não há «civilizações», mas sim «economias», e cujo projecto consiste em ensinar uma pequena elite económica, ficando reservado a todos os outros aquilo a que Maria de Lurdes Rodrigues chama «qualificação».
A luta entre os professores o Ministério da Educação é um conflito de culturas e civilizações. Se permitirmos que o Ministério vença, os nossos netos serão selvagens."
O facto de uma instituição ser pública (pertencer ao Estado) é uma qualidade intrinseca?
ResponderEliminarO facto de uma instituição ser privada (pertencer a particulares) é um defeito intrinseco?
Uma escola privada não pode ser uma boa escola? Uma escola privada não pode efectuar um serviço público (útil à comunidade)?
Claro que sim.
ResponderEliminarA defesa da escola pública assenta noutras premissas, mas isso dava para uma longa conversa e pode consultar outras entradas deste blogue onde a questão é tratada.
Mas na educação, como na economia, há um aspecto inaceitável onde devemos estar de acordo: privativa-se os lucros para depois se nacionalizar os prejuízos.
Se o investimento em educação é sempre insuficiente, e como alguém dizia "é experimentar a ignorância", será lícito existir privatização de lucros na educação básica? (e mesmo na secundária ou superior).
Neste momento a questão é mais profunda: trata-se, intencionalmente ou não - defendo que é intencional - de transformar a escola pública num "armazém para os filhos dos menos endinheirados".
Concorda com isso e com tudo o resto?
Abraço e obrigado por comentar.
Não concordo.
ResponderEliminarNas suas observações está implícita uma visão negativa da iniciativa privada que julgo preconceituosa e destituída de fundamento.
Os empresários não são anjinhos, mas não são demónios. O dinheiro e o lucro não são pecados, como acreditavam os cristãos na Idade Média e continua a acreditar a esquerda actual.
Enquanto pai gostaria de poder escolher livremente a escola dos meus filhos. (Tal como gostaria de ter mais liberdade em relação à segurança social, discordo do monopólio do estado.) O cheque-educação, bem regulamentado, seria uma boa solução.
Oops... por falar em filhos está a reclamar histórias.
Viva.
ResponderEliminarVamos por partes: estamos a escrever comentários num blogue e em tempo real e isso vale o o que vale.
Não tenho um visão negativa da iniciativa privada e o que escrevi não o devia levar a pensar assim.
Não tenho do lucro uma ideia de pecado, francamente. Assim, com essa argumentação, é difícil discutir.
Só defendo a escola pública de qualidade para todos.
O nosso ponto de partida é o texto de José Luiz Sarmento. O Carlos Pires não discute uma, uma sequer, das ideias inseridas no texto.
No seu primeiro comentário desviou para a escolas privadas.
Eu apenas lhe perguntei: concorda com lucros privados na gestão das escolas básica e mesmo secundárias ou superiores?
Eu não concordo. O Educação é suficiente cara para esse desperdício.
Concorda que para essas escolas os professores sejam contratados sem nenhum escrutínio ou concurso?
Cheque-educação uma boa ideia? Em Portugal acontece isso com as escolas particulares e cooperativas. É tudo à conta do estado, embora os lucros sejam privatizados.
Já agora, defende a cotação em bolsa dos jardins de infância?
Com escolas autónomas e, por isso, responsáveis, talvez fosse mais fácil escolhermos a escola dos nosso filhos. A minha sempre frequentou escolas públicas e sempre percebi que o mais importante era que tivesse sorte com os professores. Sorte com todos é que será sempre impossível.
"Oops... por falar em filhos está a reclamar histórias." esta não percebi.
Há tempos tropecei com um filme cuja história resumida era assim: um indivíduo (Jack Nicholson, salvo erro) "compra", num processo de privatização, um hospital público. Começa a enriquecer muito em termos materiais. Ao fim duns tempos, vai fazer uma longa viagem com um amigo: tipo sabática. Tem um acidente grave. Volta e é internado no seu hospital. Tem um novo acidente, este com outro tipo de teor, que o leva a protestar de modo incontinente: um vez de ficar sózinho num quarto fica apertado no meio de mais duas camas, o médico só aparece de dois em dois dias porque os recursos humanos são muito caros, a enfermeira anda demasiado atarefada e esquece-se da medicação com frequência porque apoia 20 quartos com 3 doentes cada um, a toalha onde se limpa depois do banho é partilhada pelos outros dois doentes, e...
Abraço e obrigado por comentar.
ResponderEliminarPois, pois...
“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” - John Stuart Mill, Sobre a Liberdade
"Oops... por falar em filhos está a reclamar histórias."
ResponderEliminarOk. Deveria ser o seu filhote a reclamar histórias :) Acertei?
Abraço.
Boa. A atenção ao detalhe é sempre fundamental.
ResponderEliminarAbç ou bj.
Era de facto o meu filho mais novo.
ResponderEliminarE agora tenho 1 aula para acabar de preparar e um montão de testes que convém ir corrigindo.
Mas amanhã ou depois respondo - é algo se calhar longo.
Não creio que tenha desviado a conversa, já agora. Simplesmente coloco os problemas doutra maneira.
Relativamente ao seu leitor que citou a frase do SM que temos no blogue, pareceu-me irónico - mas para mim a frase é para ser levada a sério: as discordâncias não me incomodam, o que me incomoda é o pensamento único. E em relação às coisas que falei em Portugal tende a haver muito pensamento único.
Se tiver tempo e quiser ver outro tópico em que provavelmente discordará de mim vá ao Dúvida Metódica e veja na etiqueta "Educação" os posts que eu e a Sara Raposo temos publicado sobre a avaliação dos professores.
Um abraço.
Ok Carlos.
ResponderEliminarAguardo por isso. Tb não suporto o pensamento único. Por isso estou na luta dos professores e com todo o gosto a discutir consigo.
Espero pela longa :) resposta.
Já lá vou ao duvida metódica.
Abraço.
ResponderEliminarA citação, que retirei de facto da dúvida metódica, não foi colocada neste blogue com sentido irónico. Também eu entendo que é para levar a sério. E para debater.Discutir ideias é um exercício fascinante. Com tempo. Também estou a preparar aulas.
Ah, já agora, por coincidência tenho visitado o vosso blogue. Continuem. É importante divulgar o trabalho da Filosofia na Escola.
Gosto desta atmosfera. Abraços.
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