Portugal entrou no estado de "campanhas eleitorais diversas". É uma fase em que tudo pode valer para a exibição dos bons serviços prestados aos partidos políticos ou às administrações centrais e locais dos mais variados sectores.
Figurantes, moços, e moças, de recados, pesquisadores de vontades alheias e "perigosas", convidados virtuais e convites contaminados, enfim, um súmula do pior que os homens conseguem manifestar no universo da política real.
Tenho passado os últimos dias a assistir a esse tipo de espectáculo. Por força das minhas actividades profissionais e pelo envolvimento na luta dos professores, não consigo evitar o contacto com o universo em que tudo isso se joga: um mundo feito de jogos de sombras.
As últimas semanas foram mais ou menos assim. Valeu a aula do fim da tarde que não correu nada mal. Mas para isso, foi preciso começar por acalmar e tranquilizar os alunos tal era o acervo das dúvidas e das inquietações.
Estava a pensar nestas coisas, e a desabafar aqui por casa, e fui dar uma volta aos blogues por onde gosto de passar. Num deles, aqui, onde raramente se escreve sobre Educação mas que tem excelentes escolhas, encontrei um belo texto que resolvi colar.
Ora leia:
"De momento em momento
Porquê este caminho em vez daquele? Onde conduz, para nos solicitar tão fortemente? Que árvores e que amigos estão vivos por detrás do horizonte destas pedras, no longínquo milagre do calor? Viemos até aqui, porque ali onde estávamos já não era possível. Torturavam-nos e iam escravizar-nos. O mundo, hoje em dia, é hostil aos Transparentes. Mais uma vez foi preciso partir... E este caminho, que parecia um esqueleto comprido, conduziu-nos a um país que só tinha o seu fôlego para escalar o futuro. Como mostrar, sem atraiçoá-lo, as coisas simples desenhadas entre o crepúsculo e o céu? Por virtude da vida obstinada, na fivela do Tempo artista, entre a morte e a beleza."
1949
René Char, Este Fanático das Núvens (Antologia Para uma Leitura).
Selecção e organização de Marie-Claude Char e Y. K. Centeno.
Lisboa, Cotovia, 1995.
ResponderEliminarPortugal, país de favores. "Favor" segundo Aristóteles, Retórica: "pode ser definido como um serviço". Está tudo dito. E a cadeia de favores é de tal ordem que já parece serviço público.
"E a cadeia de favores é de tal ordem que já parece serviço público."
ResponderEliminarMas que frase... em cheio.
Abraço.
...porque ando a reler Miguel Torga:
ResponderEliminar"Cansado. Não de lutar, mas de lutar contra fantasmas. Cada português é um espantalho vestido de gente. Se a gente lhe dá um tiro, fura uma ficção."
(Diário XII)
Um grande abraço.
lambe botas...
ResponderEliminarvira casacas...
caras de feijão frade...
todo o Homem tem um preço...
(alguns estão mesmo em saldo)
tantas expressões tão portuguesas...
Maria: a de que falou sartre.
ResponderEliminarNão importa sol ou sombra
ResponderEliminarcamarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.
Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.
Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.
Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.
Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram as canções.
Pelos vistos... a "Tourada" continua...
Ai o caixote do lixo...
Um abraço!