quarta-feira, 29 de junho de 2011

dos tácticos

 



 


(A intemporalidade das reedições)
 



Embora aprecie o humor, as anedotas desconcertam-me. Não sou dado a isso e nem sei explicar a razão. Devo confessar que, quando me contavam anedotas, até sorria: não que percebesse a história, é que desligo quase de imediato e de modo compulsivo, mas porque sim; cortesia. Os meus amigos não me levam a mal e já deixaram de me contar a célebre "narração sucinta de um facto jocoso". Não estão para sorrisos amarelos e fazem bem.

Mas tenho sempre duas ou três anedotas para os raros apertos sociais. O portefólio, que raio de palavrão, vai mudando com a idade.

E vou escrever uma.


 


É sobre uma regata, com barcos de 12 tripulantes, entre Portugal e o Japão. A regata disputou-se em duas mãos: 20 Kms de cada vez.


 


Na primeira mão, a embarcação portuguesa chegou com 2 horas de atraso. Reuniu-se o comité de dirigentes da delegação lusa, ordenou a constituição de uma comissão para o estudo do insucesso e a conclusão foi esta: o problema estava na constituição das equipas: a japonesa tinha 1 timoneiro e 11 remadores (1-11) e a portuguesa organizava-se com 1 timoneiro, 2 vice-timoneiros, 3 sub-timoneiros, 5 timoneiros adjuntos e 1 remador (1-2-3-5-1). Perante os factos, o comité de dirigentes, e após acesa e demorada discussão, tomou a decisão: a organização da equipa portuguesa passou a ter a seguinte composição: 1 timoneiro, 1 vice-timoneiro, 4 sub-timoneiros, 5 timoneiros adjuntos e 1 remador (1-1-4-5-1).

Resultado da segunda mão: a equipa portuguesa chegou com 4 horas de atraso. Estupefactos, os membros do comité dirigente voltam a repetir todo o processo investigativo, acrescentando-lhe mais uma comissão. Após meses de análise aturada, conheceu-se a causa do desastre desportivo: a culpa era do remador.


 


E vem tudo isto a propósito do novo modelo de gestão desenhado para as escolas portuguesas.


 


Actualmente as escolas podem escolher entre dois modelos de órgão de gestão: ou com 1 presidente, 2 vice-presidentes e 2 assessores (1-2-2) ou com 1 director, 2 adjuntos e 2 assessores (1-2-2). A esmagadora maioria das escolas escolheu o primeiro.

O governo reformista do presente, e pela pena da diabólica equipa que governa o ministério da Educação, vem, depois de muito estudo e após a consulta a organismos com prestígio internacional na teoria "a táctica do treinador de bancada", decretar um inédito modelo, escolhendo também uma nomenclatura mais agressiva (e mais bem pagos por causa dos votozinhos e da-crise-financeira-que-se-lixe-que-alguém-depois-paga): 1 director, 1 sub-director, 3 adjuntos e 3 assessores (1-1-3-3). Eureka. Agora é que vai ser.

Esperemos pelos culpados. Aliás, e neste caso, esses, os culpados, claro, já os conhecemos há uns tempos. São mais de 100 mil chatos.


(Reedição. 1ª edição em 8 de Abril de 2008)

7 comentários:


  1. Muito Interessante. Descreve, na perfeição, e, ainda, com humor, o que se passa no Ensino. Rir é importante nestes momentos de turbilhão que vivemos nas escolas. Rir descontrai e portanto, no momento seguinte, pensamos melhor.

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  2. Obrigado pelo comentário. Gostei que tivesse passado por um momento de boa disposição. Tenho um imenso respeito pelos humorista e aquela minha indisponibilidade para as anedotas traumatiza-me um bocado. Agora fico melhor: usei uma anedota e alguém passou um bom bocado. Ufa... finalmente. Abraço ao anónimo ou à anónima.

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  3. Confirma-se Paulo, as anedotas não são o seu forte. Tem mesmo de renovar o portefólio. Esta, da década de 80, já tem barbas... Ainda assim, o seu texto tem imensa piada e um sentido conotativo profundo.

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  4. Humor por humor, vamos lá a ver se consigo qualquer coisa... Fala o "treinador de bancada" - que tal uma táctica de inversão?... Seja. Colocar o remador a dar indicações e os outros a remar?... Bem sei que, provavelmente, esses outros não percebem nada de remar, mas pelo menos sempre podiam tentar... Uma de duas - ou a barca lá andava um pouco mais e melhor (apesar das aselhices), ou ia ao fundo, o que proporcionaria a oportunidade de substituir o(a) ministro(a) e os secretários de estado... oopppsss... quero dizer, :-) o timoneiro e os seus adjuntos, ou seja a equipe mandante por outra, quiçá, mais competente... (Desculpa o deslize de pensamento...)

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  5. Já sabia, tinha de ser. Meti-me em anedotas, pensei que poucos a conheciam, e lá veio. Todavia, agradeço a generosidade: sentido conotativo profundo. Ao menos isso. Abraço anónimo.

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  6. "táctica de inversão": boa. Gostei dessa. Mas isso de remar deve dar cá um trabalhão... Abraço

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  7. lol!! Mas sim tem barbas. Não é o teu forte

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