terça-feira, 19 de julho de 2011

aos fanáticos dos exames

 


Leio no regresso da teoria dos exames alguma insensibilidade aos efeitos de uma sociedade demasiado competitiva. A precocidade pode ter os mesmos efeitos de saturação psicológica que se registam na especialização desportiva precoce. Fui buscar um texto antigo que ajuda a reflectir.


 


 


Cortesia da Helena Bastos.




"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê.


Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.


Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito.


É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos.


A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.


Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"



 


 


João Pereira Coutinho

2 comentários:

  1. oportuno... nem mais...

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  2. Revejo-me em absoluto no texto que acabei de ler. O

    mundo ou está louco ou estão loucos os viventes no

    mundo.

    Querer domesticar o ser humano da maneira mais

    humilhante que reconheço, retirando-lhe toda a sua

    humanidade natural e construindo em sua vez um robô

    bem manipulado, é obra de loucos e irrealistas. Mas, a

    vida lhes ensinará e demonstrará o erro que vêm

    cometendo mas não assumem.

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